O lixo em questão

50 anos de atraso

Compartilhe:     |  22 de abril de 2014

Os lixões fazem parte de uma história que, ao menos pela lei (a Política Nacional de Resíduos Sólidos), deve acabar até agosto desse ano

Sandro Donnini Mancini*

Uma publicação da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês) traz muitos dados sobre os resíduos sólidos (lixo) daquele país, de 1960 a 2009. Dessa forma, fica interessante uma comparação entre os EUA de 1960 e o Brasil de 2008. Isso porque o ano de 2008 marca a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico feita pelo IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Ou seja, o último ano com dados oficiais completos sobre o lixo brasileiro.

Em 1960 os EUA tinham 179 milhões de habitantes, que geraram 88,1 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Em 2008, o Brasil tinha 189 milhões de habitantes, que geraram quase 69 milhões de toneladas de lixo. Ou seja, apesar dos quase 50 anos de diferença, geramos menos lixo que eles. Se formos comparar dados mais atuais, em 2008, com uma população de 304 milhões de habitantes, os EUA geraram 251 milhões de toneladas de lixo.

Mas voltemos às comparações entre EUA 1960 e Brasil 2008. Sempre se afirmou que a geração de lixo tem a ver com a economia e, segundo cálculos corrigidos para considerar a inflação no período, o PIB americano em 1960 beirava 3 trilhões de dólares, bem maior que o PIB brasileiro de 2008, de pouco mais de 1,2 trilhão de dólares. Isso ajuda explicar porque, mesmo com menos gente, a geração de resíduos nos EUA foi maior.

Ainda segundo a publicação da EPA, um total de 6,4% dos resíduos sólidos urbanos dos EUA foram encaminhados à reciclagem em 1960. Já o número brasileiro nesse aspecto em 2008 não é muito claro. Há várias fontes citando números que variam de 1 a 9%, mas provavelmente esse valor não chegue a 3%.

Vamos então aos números oficiais. Segundo a Versão Preliminar do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, publicado pelo Ministério do Meio Ambiente em 2011 (mas com os dados de 2008), 2,2% dos resíduos sólidos urbanos brasileiros foram encaminhados à unidades de triagem para a reciclagem ou para unidades de compostagem. Essas últimas são locais onde resíduos como restos de comida e lixo de jardim se transformam em composto orgânico, uma espécie de adubo natural.

O mesmo documento fala que só 578 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos brasileiros -considerando somente metais, papéis, vidros e plásticos- foram encaminhados para a reciclagem por programas oficiais de coleta seletiva em 2008, ou seja, 0,8% do total de resíduos gerados no país. Porém, ainda de acordo com o Plano, 15,1 milhões de toneladas de metais, papéis, vidros e plásticos foram recicladas no Brasil em 2008. Esses últimos números representariam 22% do total de resíduos gerados, porém não devem ser assim considerados, pois abrangem não somente os programas oficiais de coleta seletiva, mas também os catadores informais e, principalmente, os resíduos industriais, que não estão computados nessas 69 milhões de toneladas de resíduos informadas pelo IBGE. Um exemplo disso é que, das 15 milhões de toneladas recicladas no Brasil em 2008, quase dois terços (9,8 milhões de toneladas) dizem respeito a metais, o que mostra a força da reciclagem a partir dos ferros-velhos, cujos resíduos principais não são as latas de alumínio ou de aço comumente descartadas nas residências.

Voltando então a comparação EUA 1960 x Brasil 2008 (apesar da confusão das estatísticas nacionais): há quase 50 anos os EUA já reciclavam mais que o dobro do percentual reciclado no Brasil atualmente. E isso é, no mínimo, vergonhoso. Ainda mais triste é saber que a economia dos americanos avançou para 14,6 trilhões de dólares em 2008 (25% da economia mundial) e a taxa de reciclagem de materiais naquele país chegou a 25,2%. O restante dos resíduos de lá foram para compostagem (8,8%), queima com recuperação de energia (12,6%) e aterros sanitários (53,4%). Já o Brasil de 2008 endereçou 1,4% para reciclagem, 0,8% para compostagem (que juntos fornecem os 2,2% anteriormente citados) e 58,3% para aterros sanitários. O restante, quase 40%, para a maior vergonha nacional na área de resíduos sólidos: os lixões.

Mas isso é outra história. Na teoria, os lixões fazem parte de uma história que, ao menos pela lei (a Política Nacional de Resíduos Sólidos), deve acabar até agosto desse ano.

*Sandro Donnini Mancini (www.sorocaba.unesp.br/professor/mancini;mancini@sorocaba.unesp.br) é professor da Unesp de Sorocaba (www.sorocaba.unesp.br) para os cursos de graduação em Engenharia Ambiental, Mestrado e Doutorado em Ciência e Tecnologia de Materiais e Mestrado em Engenharia Civil e Ambiental.

Fonte: Cruzeiro do Sul
02.02.2014



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