Entrevista

‘A Amazônia é a porta de entrada do mundo’: por que a crise da biodiversidade no Brasil afeta a todos nós

Compartilhe:     |  23 de agosto de 2020
A líder indígena Célia Xakriabá e a autora dos “Monólogos da Vagina” discutem a destruição das florestas brasileiras e por que este é o século da mulher indígena

Célia Xakriabá é a voz de uma nova geração de lideranças indígenas que lideram a luta contra a destruição das florestas brasileiras tanto na Amazônia quanto no menos conhecido Cerrado, uma savana que cobre um quinto do país. V, anteriormente Eve Ensler, é a autora premiada dos Monólogos da Vagina, ativista e fundadora do Dia V, um movimento global para acabar com a violência contra todas as mulheres e meninas e a Terra. As duas recentemente mantiveram uma conversa em que V perguntou a Xakriabá sobre o que está acontecendo com a biodiversidade e os povos indígenas do Brasil e por que as mulheres são a chave para a mudança.

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V: Muitas pessoas, especialmente no Oeste, não entendem realmente o que está acontecendo com o cerrado no Brasil. Você pode nos dizer o que está acontecendo com as florestas?

C: É muito difícil neste momento. A cada minuto uma pessoa morre de Covid-19, mas também a cada minuto uma árvore é cortada. E sempre que uma árvore é cortada, uma parte de nós é cortada, uma parte de nós também morre, porque o território morre e sem território não há ar, não há ar bom para todos no mundo. As pessoas não conseguem respirar. Toda essa contaminação de Covid chega ao território pelos mineiros, garimpeiros, madeireiros e patrulheiros. E agora que estamos chegando a agosto, ficamos ainda mais preocupados com os incêndios, todos os incêndios que queimaram a Amazônia no ano passado. Irão voltar.

E o que acontece com todos os animais, com os pássaros e com todos os seres vivos da floresta? O que acontece com eles?

Quando a floresta é queimada, os pássaros e os animais, ou são queimados ou vão embora. E isso não afeta apenas os animais, mas também nos afeta. Contamos com eles para comer. Então, sem bicho, a gente tem que contar com a comida de fora, e isso acaba adoecendo nossos filhos e nossas mulheres, aqui com o povo Xakriabá. Posso ouvir o canto dos pássaros agora, mas também é um canto de miséria, de tristeza, porque a maioria deles estão sozinhos. Eles perderam seus parceiros. Os pássaros, eles geralmente cantam como um casal. E muitos deles agora estão cantando sozinhos. E nós, os indígenas, estamos ficando mais sozinhos, porque eles estão tirando pessoas de nós.

Quando te conheci, rimos porque estávamos falando sobre vaginas e você me disse que a Amazônia era a vagina do mundo. Então você pode falar um pouco sobre isso?

A Amazônia é como a vagina do mundo porque é de onde as pessoas vêm. É como a porta de entrada do mundo. Quando esta abertura adoecer, as gerações futuras também ficarão doentes. As pessoas perderam essa conexão com a Terra porque não veem a Terra e o solo como parentes. Para mim, a Terra é como uma avó, porque foi a Terra que deu à luz todas as mães do mundo. A Terra é como a primeira mulher independente que criou a humanidade e a Terra precisava de rios e água para criar a humanidade. Mas agora as pessoas apenas veem a Terra como uma coisa. Eles podem projetar grandes cidades, mas não conseguem ver essa conexão com a Terra. Eles vão ao supermercado, ao armazém, e não sabem de onde vem aquela comida.

É tão poderoso ver quantas mulheres indígenas estão liderando a luta pela defesa das florestas e da terra. Por que você acha que isso é importante?

Tenho dito que neste século 21, é o século da mulher indígena, porque você não pode curar com o mesmo mal que causou a doença. Você tem que superar esse poder colonizador que é principalmente masculino. Gosto de dizer sobre a matriz de destruição que não é matriz, é o “patrix”, porque é baseada no patriarcado, não no matriarcado. E as mulheres, são elas que neste século estão recuperando o poder sobre a terra, porque sabem como curar a Terra. As mulheres têm esse conhecimento e é por isso que estamos na linha de frente agora. Luto não só para fortalecer o papel da mulher no território e na luta, mas também na política, com mulheres indígenas concorrendo a cargos no parlamento, no Congresso brasileiro. Quem pode cuidar melhor da humanidade, senão as mulheres?

Você pode falar um pouco sobre como o patriarcado nos desconectou da terra e da conexão do patriarcado com o capitalismo?

Quando Pedro Álvares Cabral invadiu o Brasil pela primeira vez, nos anos 1500, a primeira coisa que chamou sua atenção foi a madeira de pau-brasil, de onde vem o nome Brasil. Em 1511, esse cara chamado Fernando de Noronha exportou 5.000 paus-brasil para a Europa. Então foi aí que tudo começou. Desde então, eles não respeitam a relação dos povos indígenas com o tempo. É por isso que o capitalismo vê os povos indígenas como uma ameaça. Você tem que levar tudo que puder no mínimo de tempo possível, mas não é assim que os indígenas se relacionam com o tempo e o trabalho. Sim, os povos indígenas não estavam acompanhando o “progresso” da humanidade, mas não é que estejamos atrasados, é porque eles estão nos matando. No último ano, houve mais de um milhão de hectares de destruição em todos os seis biomas do Brasil. Desde 1500 até agora, nenhuma Terra, nenhum solo, nenhuma mãe, nenhuma mulher pode suportar este tipo de destruição.

Você pode me dizer qual é a experiência vivida da luta pela vida e da luta dos povos indígenas nesta fase de assalto das indústrias extrativas, e agora com a Covid agravando a situação? O que está acontecendo?

Durante essa pandemia estamos fazendo esse esforço para ficar em nossos territórios, em nossas casas, nossos lares, mas ao mesmo tempo também temos que desafiar, lutar, porque muito longe no Brasil, no Congresso, eles estão negociando nossos territórios, nossas casas e nossos lares. Durante a pandemia, centenas de indígenas morreram. Mas temos que pensar em quantas pessoas morreriam se não lutássemos. Tem que se pensar na pandemia que está nos matando, no racismo que está nos matando, na macro política, na colonização, na ausência do Estado. É difícil dizer qual arma é mais perigosa, porque estamos sendo mortos por muitas armas diferentes.

Parece muito claro que o presidente Jair Bolsonaro armou a Covid contra os povos indígenas. Você pode falar um pouco sobre isso?

Povos indígenas no Brasil são 1% da população geral, mas eles são quase 9% das vítimas da Covid-19. Quando as pessoas dizem que a Covid-19 não escolhe classe ou raça ou gênero, é meio que mentira, porque o estado escolhe quem vai morrer. O governo pode justificar tudo isso, dizendo que é só uma doença, é uma fatalidade. Quando morre um velho, quando morre um importante líder dos povos indígenas, uma parte de nós morre com eles. É como os ancestrais e os mais velhos, eles são as mãos que seguram os chocalhos quando você está cantando. Não importa se eu continuar viva, uma parte de mim ou algumas partes de mim morreram nesta pandemia.

Eu amo a campanha #CuraDaTerra, porque ela expressa essa ideia dos povos indígenas como a cura, o antídoto, o espaço de crescimento do capitalismo passado por meio da vida em simbiose com a natureza, gestão indígena da terra, conhecimento ambiental indígena tradicional. Como isso está sendo recebido no Brasil?

Uma coisa muito importante é que prestamos atenção em coisas como reconexão, retomada, reencantamento, porque isso é uma coisa que os povos indígenas fazem para esperar um mundo melhor. Não são os produtos químicos ou os princípios ativos gerados em laboratórios de todo o mundo que vão curar a Terra. O que vai curar a Terra é a nossa capacidade, nossa habilidade de reativar nossa conexão com a Terra, reativar nossa cultura e reativar o poder de nossos ancestrais. Temos essa cultura bem dentro de nós, e você não pode mudar isso. Não podemos curar o mal sem curar a Terra, porque a Terra está sangrando. Está cheio de cicatrizes por causa de seus filhos. E se você não ouvir a Terra, todos nós morreremos. Algumas pessoas podem não morrer diretamente em conflitos territoriais, mas morrerão, porque não terão mais nada para respirar. Tudo o que lhes resta é veneno.

Assim como nos Estados Unidos, o Brasil vive uma espécie de noite escura da alma com Bolsonaro no poder.

Bolsonaro gosta de dizer que os povos indígenas estão se tornando mais humanos, mas os povos indígenas não gostam do tipo de humanidade que não respeita a terra, não respeita os animais, porque só se sabe ser humano se você sabe ser uma planta, ser uma semente, ser alimento. Então, na verdade, este projeto, é um projeto anti-humanitário do governo. Ele representa um pulmão doente, um órgão doente do corpo da Terra.

E por que você acha que neste momento temos tantos líderes no mundo como Trump ou Duterte ou Modi ou Putin ou Bolsonaro?

Tudo isso porque vivemos um momento de disputas, disputas de valores. Eles não fazem parte desse projeto de recuperação e retomada dos valores da vida. São como furúnculos na pele, e emergem com toda a fúria, esses furúnculos, como um câncer para esses valores da vida. Eles emergem com essa fúria porque parecem ter o desejo de extinguir toda a diversidade – a diversidade da vida, a diversidade da cultura, a diversidade das sementes, a diversidade do território.

Qual é o clima e o sentimento no Brasil agora?

Algumas pessoas que pensavam que éramos invisíveis não olhavam, não prestavam atenção nas populações indígenas, agora estão começando a prestar atenção na gente. E os indígenas, eles têm dentro de si o sentido de solidariedade e de conexão que outros povos não têm. E isso é algo que pode ajudar a curar a Terra e a curar nosso mundo porque a humanidade, sem amor, é uma humanidade morta.

E como você se mantém firme em meio a todas essas mudanças que estão acontecendo no cerrado e depois no planeta como um todo?

A luta é o que me alimenta. Então, toda vez que penso em dar um passo para longe da luta, não consigo. E como indígena, você luta para sobreviver. Você realmente não tem outra escolha. Penso na luta como os filhos que ainda não gerei, os filhos que eu e os indígenas vamos dar à luz no futuro. Lembro que há algum tempo em outro processo genocida que estava acontecendo, os líderes e os povos indígenas não tinham permissão para se pintar. Assim, as mulheres guardariam esses potes de pintura em suas casas. Era uma forma de não esquecer as pinturas e os padrões. E agora, quando penso nisso, penso em meu corpo como um pote. Gosto de me pintar porque é uma forma de eternizar toda essa memória, e não esquecer, porque mais do que lutar, pintar a mim mesma é uma forma de continuar o que meus ancestrais estavam fazendo. Algumas se sentem bonitas quando colocam seu melhor vestido. Eu me sinto bonita quando me pinto. E não é só isso. Quando me pinto, alimento meu espírito e mantenho minha mente forte. E meu cocar dá força aos meus pensamentos e à minha luta. Então, quando eu me pinto, quando eu coloco meu cocar, eu não estou apenas fazendo isso para mostrar aos outros, eu estou fazendo isso para manter minha mente e meu espírito fortes e alimentados, para continuar cantando.

O que os aliados no norte global podem fazer para ser solidários com você, sua comunidade e as comunidades afetadas do Brasil?

As pessoas podem lutar junto com os povos indígenas como se estivessem lutando pelos próprios filhos. Porque quando você luta junto com os povos indígenas, não é só uma questão de solidariedade. É como se você lutasse por sua própria família, seus próprios filhos, seus próprios netos, porque as populações indígenas protegem cerca de 82% da biodiversidade mundial.

Qual é a sua visão do futuro?

Minha esperança para o futuro é estar viva. E com isso não quero dizer apenas meu corpo estar vivo. Mas nossa voz tem que estar viva. Nossa memória, nossos cânticos, nosso canto e nosso útero, porque você não pode estar vivo em seu corpo se o útero da Terra está doente, porque quando a Terra está doente, não podemos obter comida. E de que adianta manter seu corpo vivo se tudo ao seu redor está morto?

E por último: descreva a sua visão do que significa “reencantamento”.

O reencantamento está dentro de nós. As pessoas estão muito preocupadas com esta emergência Covid, para poder tocar outras pessoas e sentir um afeto, um amor, carinho por outras pessoas. Mas o que realmente é esse reencantamento? É o amor que sentimos pelos rios, pela floresta, pela comida. Temos que pensar que as verdadeiras fronteiras do mundo, não são as fronteiras entre o Brasil e os Estados Unidos, ou entre a Amazônia e o Cerrado. As verdadeiras fronteiras do mundo são as fronteiras entre o racismo e a biodiversidade. Não podemos desistir dessa luta. Temos que continuar lutando pela biodiversidade, por essa cura da Terra, e pelos nossos territórios, porque quem tem território tem lugar para voltar, e quem tem lugar para voltar tem refúgio, tem calor. E é por isso que precisamos continuar lutando.



Fonte: Anda - Eve Ensler - Tradução Laura de Faria e Castro



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