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A Baía de Guanabara mudou na quarentena? pescadores dizem que sim

Compartilhe:     |  7 de setembro de 2020

O isolamento social provocado pela pandemia do coronavírus em 2020 revelou, em muitos lugares pelo mundo, como a diminuição de atividades humanas promoveu melhorias significativas no ambiente. Como essa quarentena forçada afetaria a tão pressionada Baía de Guanabara? Essa, que é uma das maiores baías do Brasil (384 km²), é um dos grandes cartões-postais do país. A área abrange 16 municípios e ocupa 4.080 km². Mais de 11 milhões de pessoas vivem nessa região. Atualmente, 65% da área da bacia está urbanizada e/ou antropizada.

De um momento para outro, indústrias paradas, navios estacionados, estradas com menos carros, pessoas em casa. Como verificar as mudanças que certamente estariam ocorrendo nessa grande massa d’água nesse momento? Análises físico-químicas da água e do ar não seriam possíveis de serem feitas já que muitos laboratórios também estavam fechados, nem outrora simples saídas embarcadas de observação visual poderiam ser feitas a fim de evitar a aproximação entre pessoas num barco.

Mas uma classe profissional atuante nessa baía não pôde parar completamente, tanto pela necessidade de levar alimento para casa quanto pelas reservas insuficientes para passar um longo período sem trabalhar. A equipe gestora da Área de Proteção Ambiental de Guapi-Mirim e Estação Ecológica da Guanabara, junto com pesquisadores que atuam na região e uma liderança de pesca artesanal, decidiram acionar os pescadores artesanais para verificar a percepção desses conhecedores empíricos do ambiente quanto a possíveis mudanças. No período de 02 de junho a 09 de julho de 2020, foram feitas entrevistas com 26 pescadores artesanais das cinco principais comunidades pesqueiras da região da APA de Guapi-Mirim e ESEC Guanabara: Itaoca (município de São Gonçalo), Itambi (município de Itaboraí), Roncador, Piedade e Suruí (município de Magé). Todos eles estavam trabalhando com regularidade, sendo 19 homens e 7 mulheres, aos quais foram feitas 16 perguntas sobre a percepção de cada um em relação às mudanças na qualidade ambiental, na quantidade de lixo, na ocorrência de espécies da fauna e na própria atividade de pesca.

Baía de Guanabara, com destaque para a APA de Guapi-Mirim (verde) e ESEC da Guanabara (laranja).
Locais de moradia e de pesca dos entrevistados.

Em relação a cor da água, 73% dos entrevistados afirmou que a água estava mais clara, em comparação aos anos anteriores. No entanto, apenas 38% afirmou ter menos óleo na água, atribuindo isso a menor circulação de embarcações na baía. A maioria afirmou não perceber diferença. Quanto à presença de lixo (na água e nas margens) as opiniões foram mais diversas, provavelmente pelas diferenças entre os bairros onde os pescadores moram e as áreas mais visitadas para pesca. Os que afirmaram que havia menos lixo, apontaram que com menos gente andando na rua, menos lixo vai para a baía. Os que apontaram haver mais lixo, destacaram os acúmulos nas áreas ribeirinhas:

“Na área de Suruí, Magé, o lixo está muito nas encostas porque tem muitas casas na beira-rio e como as pessoas estão em casa, sem sair pra trabalhar, estão consumindo muito mais, produzindo mais lixo.”

Quanto ao ar, metade dos entrevistados considerou que ar está menos poluído, o que vai de acordo com Programa de Monitoramento da Qualidade do Ar do Município do Rio de Janeiro.

“Muitas fábricas pararam de produzir, o ar está mais leve, mais puro.”

“O ar está mais puro porque tem menos carro, pessoal ficou mais em casa.”

Percentual de respostas em relação à percepção sobre a água e ar na Baía de Guanabara.

Quanto a frequência de avistamento de animais e possíveis mudanças na sua dinâmica espacial, os pescadores afirmaram ver mais capivaras, quatis, lontras, jacarés, gaviões e maritacas. Alguns citaram o avistamento de animais mais raros na região como tucanos e tamanduás:

“Aqui no nosso porto, apareceram 2 casais de tucanos, que eu nunca tinha visto, faz uns 5 dias. Os antigos falaram que tinha antes.”

“Aqui perto tem um tamanduá que a gente vê sempre. Ele teve filhote! Agora estamos vendo os filhote.

Importante ressaltar a observação de um pescador quanto a presença de biguatinga (Anhinga), espécie de ave considerada ameaçada de extinção do estado do Rio de Janeiro.

“Está tendo [mais] agrupamento de biguatingas, mais fêmeas que machos, que é o comum. Na vala da Palha, num trecho curto, outro dia, vi três fêmeas e um macho. Geralmente eu vejo mais no Guaraí, provavelmente tinha mais.”

Biguatinga (Anhinga anhinga). Foto: Irmãos Mello

Diversos pescadores citaram a maior presença de tartarugas no fundo de baía, inclusive perto das fozes dos rios. Para explicar essas mudanças, os pescadores citaram novamente a menor movimentação na baía:

“Os animais estão mais espalhados, como quati, capivara, mico. Estão deixando de se esconder porque o ser humano diminui a presença”

“Tem menos pescador porque os idosos não estão saindo, as mulheres também não.”

Alguns peixes não tão comumente pescados na baía, como sargo, chicharro, piraúna, xeréu-amarelo, xerelete, guaibira e arraia mijona, foram observados. Entretanto, 69% dos entrevistados citaram diminuição da captura de peixes e alguns relacionaram esse fato a água estar mais clara e mais fria. Uma maior transparência da água afetaria a eficiência de algumas técnicas de pesca, especialmente a captura por redes de espera:

“A tainha não está emalhando como anteriormente, provavelmente devido à água clara.”

“o peixe precisa se esconder”

 “o peixe enxerga a rede”

Entre os pescadores que consideraram que a pesca melhorou, consideram que isso possivelmente se deu por alguns motivos: menos poluição, menos barcos pescando, menos navios de grande porte trafegando.

Um pescador de robalo que relatou aumento da pesca. Ao fundo, poluição atmosférica na cidade do Rio de Janeiro, que metade dos entrevistados disse ter diminuído. Foto: Diego Alves da Silva.

“A pesca melhorou muito. Antes tinha muito navio, com as luzes acesas. Eles agora estão desligados – aí não tem óleo, não tem luz. Agora parece que abriram a entrada. Sardinha aumentou muito, que quase não tinha mais.”

“No meio da baía tem corvina grande, acima de 3 kg, que a gente não via há uns 4 anos. O motivo talvez seja a menor quantidade de navios circulando. A corvina, diferente, do robalo, que entra perto das pedras, ela entra pelo canal.”

Alguns pescadores (19%) citaram espontaneamente o aumento na captura de camarões:

“A sardinha maromba está desovando dentro da baía e isso já não acontecia há uns três anos. Camarão que não era típico dessa época, tá aparecendo bastante. Esses dois casos, mais em área de canal, mais profunda.”

A melhora da qualidade ambiental parece ter se refletido de forma mais marcante em relação às aves e mamíferos.

“Os animais estão mais à vontade. Antes com muito barulho, quase não apareciam. Agora com menos barulho, estão aparecendo mais.”

“O mar está mais tranquilo, os animais também. Os pássaros estão deixando a gente chegar mais perto, estão chegando mais perto da praia, eles estão com menos medo.”

Quando questionados se a quarentena mudou os ambientes para melhor ou pior, ou se não houve mudança, mais da metade achou que as condições da baía melhoraram no período. Atribui-se a melhora especialmente aos fatores citados anteriormente, como menor fluxo de embarcações e menos gente pescando. Dentre os que consideraram que o ambiente piorou foram citados como causas a maior produção de esgoto não-tratado nas áreas residenciais e de lixo residencial com disposição inadequada.

Os pescadores que participaram nas entrevistas têm muitos anos na Baía de Guanabara e devem levar consigo perspectivas de melhoras na qualidade ambiental, que ambientalmente não acontecem em um espaço curto de tempo como foi a quarentena. A percepção deles sobre a qualidade da Baía de Guanabara em um momento de menos atividades humanas nos traz uma visão de melhorias, mas ainda não refletem o cenário desejado.

Baía de Guanabara. Foto: Eduardo V de Almeida.

Há alguns projetos de lei estaduais que tratam de saneamento básico na Baía de Guanabara e o fundeio de embarcações. Os assuntos vieram à tona na época dos Jogos Olímpicos de 2016 mas depois perderam força. É urgente que tais medidas sejam realizadas, para melhorias da qualidade ambiental e conservação da biodiversidade.

Propomos ainda que sejam feitos estudos para determinar um corredor na área de fundeio e de tráfego de navios, que hoje fazem uma barreira física e acústica à pesca artesanal e à entrada e saída de animais da baía. Essa medida permitiria uma maior mobilidade dos animais, como o boto-cinza e os peixes que necessitam realizar a migração entre ambientes salinos e salobros.

Grandes embarcações trafegando ou fundeados na Baía de Guanabara (VesselFinder.com – 19/8/2020)

Agradecemos especialmente aos pescadores, catadores de caranguejo e de guaiamum, mulheres e homens com muita experiência e conhecimento sobre o mar e os manguezais.

REFERÊNCIAS

ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Relatório da Comissão Especial da Baía de Guanabara. 2016. 347 p.

Bergallo, H.G.; Rocha, C.F.D.; Monique V. Sluys & Alves, M. A.S. A Fauna Ameaçada de Extinção do Estado do Rio de Janeiro. EdUERJ, 2000.

Bittencourt, L.; Carvalho, L.L.; Lailson-Brito, J.; Azevedo, A.F.  Underwater noise pollution in a coastal tropical environment. Marine Pollution Bulletin, volume 83, issue 1, p. 331-336. 2014.

KCI Technologies. Diagnóstico do Estado da Baía de Guanabara. 496 p.  2016.

Kjerfve, B.; Ribeiro, C.H.A; Dias, G..T.M.; Filippo, A.M.; Quaresma, V. da S. Oceanographic characteristics of an impacted coastal bay: Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, Brazil. Continental Shelf Research, volume 17, issue 13, p. 1609-1643. 1997.

Programa de Monitoramento da Qualidade do Ar do Município do Rio de Janeiro. http://jeap.rio.rj.gov.br/je-metinfosmac/ .

Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara (PSAM). Panorama do Saneamento Básico na RHBG. www.psam.eco.br.

Silva, R.F. da. O Rio Antes do Rio. Rio de Janeiro (2a ed.) Babilônia Cultural. 432 p. 2015.

Autores

Juliana C. Fukuda e Olivar Bendelak – servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (APA de Guapi-Mirim e ESEC da Guanabara – ICMBio)

Eduardo V. de Almeida – professor e pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Alexandre de F. Azevedo – professor e pesquisador do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Larissa G. Paiva – educadora ambiental da ONG Guardiões do Mar

Flavio D. G. Lontro – pescador artesanal, coordenador geral da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM)



Fonte: ((o))Eco - Juliana Cristina Fukuda, Eduardo Vianna de Almeida, Alexandre de Freitas Azevedo, Larissa Gouvêa Paiva, Flavio Diniz Gaspar Lontro, Olivar Bendelak



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