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A controversa técnica de semear chuvas que falhou em São Paulo

Compartilhe:     |  27 de fevereiro de 2020

Empresa prometeu bombardear nuvens com gotículas de água para que chuvas ocorressem fora da cidade – e, assim, o Carnaval paulistano não fosse interrompido. Na segunda, choveu cerca de 40 milímetros na região central.

A ideia parece genial: semear chuva para que ela ocorra onde se deseja. O modus operandi inclui radares e aviões. A empresa que oferece o serviço detecta as nuvens carregadas e as bombardeia com gotículas de água. Na teoria, isso apressaria a precipitação.

Tudo foi bancado pela produtora de bebidas Ambev, justamente a patrocinadora do Carnaval paulistano, em uma ação que ocorreu na semana passada com a promessa de fazer chover em outras regiões que não a cidade de São Paulo – para que, assim, a folia não fosse interrompida.

Não deu certo. Na última segunda-feira (24/02), de acordo com o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), foram registrados 40 milímetros de chuva na região central de São Paulo.

“Essa ação não impede que as tempestades diminuam. Infelizmente continuam com essa história. Na época da crise hídrica [entre 2014 e 2016], essa empresa de semeadura de nuvens atuou e, de fato, não fez chover”, comenta o meteorologista Augusto Pereira Filho, do IAG-USP. Ele conta que, no Brasil, essa ideia começou ainda no fim dos ano 1980, mas a eficácia nunca foi comprovada.

“[Isto] é especulação”, define o climatologista e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

“O que se tenta é fazer chover em algum lugar para ‘roubar’ água de outro”, diz. Assim, se tentou fazer chover sobre a Cantareira para evitar chuva nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro durante o Carnaval. “Na teoria parece ter lógica, mas na prática dificilmente funciona”, comenta.

Marengo lembra que, até esta segunda-feira, “não havia chovido nada” na região da Cantareira, a despeito do discurso oficial da ModClima, a empresa responsável pelo serviço.

Ou seja, a ação ocorrida a poucos dias do Carnaval teve mais cara de marketing do que qualquer coisa. Até porque a população está amedrontada com as fortes chuvas e enchentes do início do mês, avaliam especialistas.

Em nota enviada nesta terça-feira à DW Brasil, a ModClima reiterou que seu “objetivo é induzir as nuvens para chover em locais que agregam para a recuperação das barragens, antes de entrarem na região metropolitana”.

A empresa afirmou que se trata de uma “tecnologia 100% limpa, que depende apenas de água e processos físicos para funcionar, sem envolver nenhum tipo de produto químico”.

À imprensa, a empresa afirmou na semana passada que o sistema tem uma eficácia de 70%.

Eficácia controversa

Cético quanto ao mecanismo, o climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), propõe um teste para mostrar se o método funciona ou não.

“Há de se fazer este tipo de ‘semeadura de nuvens’ com o equivalente ao efeito placebo. O piloto e os técnicos dentro do avião levam um número de cargas com gotículas e um número sem gotículas. Elas miram uma nuvem que o radar meteorológico indicou como estar em processo de formação e crescimento e despejam a carga”, diz.

“Eles não podem saber se estão despejando a carga verdadeira ou a falsa. A distribuição das cargas é aleatória. Depois, computa-se os resultados do volume de precipitação de cada nuvem bombardeada e verifica-se se estatisticamente aquelas que receberam as gotículas apresentaram volume superior de nuvens.”

Não seria algo simples. “Em função da enorme variabilidade das chuvas de uma nuvem do tipo bombardeado, a significância estatística exigiria centenas ou até milhares de amostras para verificar se de fato há alguma mudança”, afirma Nobre.

Marengo, por sua vez, lembra que existe um método com alguma eficácia, mas não se trata de pulverizar gotículas de água pura, como foi alardeado desta vez.

“Para gerar chuva artificial, tem de haver algum conteúdo de umidade na atmosfera. Então, são utilizados cristais de iodeto de prata para bombardear as gotículas e induzir esfriamento, para forçar a chuva, ou seja, dar uma ‘ajudinha’ na atmosfera”, explica. “Mas se o ar está seco, nada disso vai funcionar.”

Diante da pouca efetividade do sistema, os especialistas não acreditam que a ação traga algum dano ambiental ou mesmo um eventual desequilíbrio. “É inócuo o efeito”, diz Pereira Filho. “Não seria o caso de desequilíbrio ambiental”, afirma Marengo.

“Apesar do enorme progresso nesse campo ao longo das últimas sete décadas, a eficácia da propagação de nuvens ainda permanece controversa na comunidade científica”, apontam acadêmicos norte-americanos no artigo 100 Years of Progress in Applied Meteorology, publicado recentemente no periódico Meteorological Monographs.

Exemplos internacionais

Nobre, no entanto, lembra que, quando se trata de interferir no meio ambiente, todo cuidado é pouco.

“Entre os anos de 1950 e 1970, as Forças Armadas norte-americanas tentaram conduzir experimentos de nucleação de nuvens de furacões, visando a diminuir sua intensidade”, relata. “Não conseguiram avançar, porque foi impossível provar que tal modificação artificial não alteraria a trajetória de um furacão, podendo atingir outros países.”

“A chuva artificial pode funcionar em algumas áreas pequenas, mas nem sempre chove onde queremos que chova. Esta técnica é aplicada em Israel, mas muitas vezes a chuva ali semeada cai na Jordânia ou na Palestina, ou seja, fora de Israel”, exemplifica Nobre.

Na última segunda-feira, o periódico Proceedings of the National Academy of Sciences publicou um estudo realizado pelas universidades do Colorado e de Illinois, ambas nos Estados Unidos, sobre semeadura de nuvens de neve na costa oeste norte-americana – onde a técnica, com o iodeto de prata e focando em nuvens de neve direcionadas às encostas, vem sendo utilizada numa tentativa de aumentar as precipitações.

Os pesquisadores partiram da premissa de que aferir a eficiência de tais métodos é um desafio muito complicado. E então, monitoraram trabalhos realizados em janeiro de 2019. O estudo concluiu que três semeaduras de nuvens realizadas no período, com o uso do iodeto de prata, resultaram na precipitação do suficiente para encher 282 piscinas olímpicas – em forma de neve.

“Rastreamos o processo de semeadura desde o início até o momento em que a neve finalmente caiu ao chão”, afirmou, em comunicado à imprensa, a meteorologista Katja Friedrich, que liderou o estudo.

Ainda que o resultado tenha sido pequeno, ela acredita que o mecanismo pode ser útil no combate a estiagens. “Todo mundo com que falamos diz que, mesmo que possa ser apenas um pouco a mais de neve, isso ajuda no longo prazo”, disse.



Fonte: Deutsche Welle



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