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A evolução poderia ser revertida? Biólogos consideram isso impossível

Compartilhe:     |  31 de dezembro de 2016

Há muito que biólogos evolucionistas se perguntam se a história poderia correr para trás. Seria possível para as proteínas de nosso corpo retornarem às formas e afazeres que tinham há milhões de anos?

Basicamente, não. Ao examinar a evolução de uma proteína, uma equipe de cientistas declarou que as mutações praticamente tornaram uma “evolução invertida” impossível. Segundo Joseph W. Thornton, professor de biologia na Universidade de Oregon e coautor de um estudo sobre o tema publicado na revista Nature, é como se a própria evolução durrubasse as pontes que cruzou, inviabilizando qualquer chance de retorno.

A lei de Dollo

Segundo informações da New York Times, a ideia de evolução inversa foi proposta pela primeira vez em 1905, pelo biólogo belga Louis Dollo. “Um organismo nunca retorna a um estado anterior”, disse ele em um comunicado que logo foi apelidado lei de Dollo.

Para verificar se ele estava realmente certo, biólogos reconstruíram a história evolutiva. Em 2003, por exemplo, uma equipe de cientistas que estudava as asas de bichos-pau descobriu que ancestrais comuns dos insetos tinham asas, enquanto outros descendentes as perderam. Mais tarde, alguns destes últimos passaram a ter asas novamente.

O estudo, no entanto, não necessariamente conseguiu refutar a lei de Dollo. Os bichos-pau podem até ter evoluído para desenvolverem novos conjuntos de asas, mas não ficou claro se essa mudança ocorreu pela evolução reversa a nível molecular. Logo, a questão a ser considerada era: será que os insetos voltaram à sua bioquímica original exata para a reconstrução de asas, ou encontraram uma nova rota, essencialmente evoluindo novas proteínas?

Com isso em mente, Dr. Thornton e seus colegas lançaram um olhar mais atento sobre a possibilidade de evolução reversa a nível molecular. Eles estudaram uma proteína chamada “receptor glicocorticoide”, que essencialmente ajuda os seres humanos e outros vertebrados a lidarem como o estresse a partir de um hormônio conhecido como cortisol.

Comparando o receptor a proteínas relacionadas, os cientistas conseguiram reconstruir sua história. Assim, cerca de 450 milhões de anos atrás, ele começou de uma forma diferente, que lhe permitia se agarrar com firmeza não somente ao cortisol, mas também a outros hormônios. Seguidos os próximos 40 milhões de anos, o receptor mudou de forma, e se tornou especialmente sensível ao cortisol, sendo incapaz de se unir a outros hormônios.

De acordo com Dr. Thornton, neste espaço de 40 milhões de anos, o receptor mudou em 37 pontos, sendo que apenas dois o tornaram sensível ao cortisol. Outros cinco pontos permitiram que ele não fosse mais capaz de se unir a outros hormônios, enquanto que sete fizeram com que se comportasse como um novo receptor de glicocorticoide.

Possível, mas inútil

O cientista ainda argumentou que, se realizasse uma operação inversa, ele poderia transformar o receptor em um único ancestral. Assim, ele inverteu essas mutações-chave para retorná-lo a antiga forma. Contudo, para a surpresa de todos, o experimento falhou. “Tudo o que tivemos foi um receptor completamente morto”, disse.

A fim de descobrir o porquê de poderem ir para frente e não para trás, o cientista e seus colegas analisaram novamente e mais de perto os antigos e novos modelos. Eles descobriam cinco mutações adicionais, consideradas cruciais para a transição, que quando invertidas faziam o receptor se comportar como sua versão antiga.

 

Com base nestas conclusões, os pesquisadores descobriram que a evolução em questão ocorreu em dois capítulos. No primeiro, o receptor adquiriu sete mutações, que o tornaram sensível ao cortisol, mas não aos outros hormônios. No segundo, ele adquiriu as cinco extras, chamadas de mutações “restritivas”. Esta última pode ter adaptado a forma como conseguiu se agarrar ao cortisol.

Em ambos os casos, as cinco mutações adicionais formaram novos elementos no receptor, de modo que, quando tentaram retorná-lo ao formato original, foram impedidos pelas mesmas. De acordo com Dr. Thornton, uma vez que a evolução ocorreu, tornou-se praticamente impossível para que fosse invertida. Se isso ocorresse, o receptor se tornaria inútil.

Uma questão ainda em aberto

A conclusão para eles foi de que, de nenhuma maneira, a seleção natural poderia ter favorecido indivíduos com mutações reversas. No entanto, eles consideram que essa ainda é uma questão em aberto.

Thornton ressalta que a evolução não é “completamente irreversível”, mas que acredita que ela só pode ir para trás quando se trata de um traço simples, como quando uma única mutação está envolvida. No entanto, quando novos traços são produzidos por diversas mutações, influenciando uns aos outros, a complexidade acaba com a possibilidade de evolução inversa. E “nós sabemos que tipo complexo é muito comum”, disse.



Fonte: Jornal Ciência - Merelyn Cerqueira



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