Notícias

‘A Jornada da Vida’ mostra pinheiro que existe desde antes de Jesus

Compartilhe:     |  22 de dezembro de 2014

A série que fez a gente viajar por lugares exóticos, belíssimos; que contou as origens do homem e dos bichos e nos fascinou com os mistérios da natureza, chega ao último destino: os Estados Unidos.

Os repórteres Sonia Bridi e Paulo Zero investigaram o segredo da vida longa. O segredo conhecido por árvores incríveis como o pinheiro que tem 5 mil anos de idade. Quando Jesus nasceu, ele já tinha 3 mil anos. É a inesquecível jornada da vida.

Crescer muito. Viver milhares de anos. Morrer e renascer, um clone de si mesmo. A longevidade das árvores que enganam a morte e brincam com o tempo, para não interromper a jornada da vida.

Na Serra Nevada, na Califórnia, costa oeste dos Estados Unidos, uma cordilheira se estende por 640 quilômetros. Nas montanhas alcançadas pela umidade do Oceano Pacífico, vivem as gigantes. Os maiores indivíduos do planeta. As sequoias.

Sobre uma base de mais de 30 metros de circunferência, a sequoia adulta mira o sol e chega a 85 metros de altura. Se botássemos a árvore no meio do campo do Maracanã, ela ocuparia mais da metade do círculo central e subiria 50 metros para fora do estádio.

A sequoia pode crescer sem pressa. Todos os seres vivos, todas as espécies de animais ou plantas, tem um ciclo de vida. As árvores também. Algumas vivem poucos anos, mas as sequoias podem chegar a 3,5 mil anos.

Gigante e milenar, a espécie parece indestrutível. Mas a verdade, é que há milhares de anos elas ocupavam boa parte do território da América do Norte. Hoje, está restrita a uma pequena faixa de terra na Serra Nevada, onde a altitude, a temperatura e a umidade são ideais para ela crescer. E é por isso que a especialista em sobrevivência fica tão frágil diante da ameaça de mudanças climáticas.

“As sequoias gigantes gostam da temperatura que faz nesta altitude. Não é muito frio no inverno, nem muito quente no verão. Então, se esquentar, elas vão ter que migrar para mais alto na montanha. E se a temperatura mudar muito rápido, elas podem até desaparecer”, conta o biólogo Matt Fagan.

Matt Fagan é biólogo do parque, especialista em sequoias. Ele diz que o segredo da longevidade é a casca. “Em algumas dessas árvores têm casca com 60, 90 centímetros”, conta.

A casca é proteção contra os incêndios florestais, comuns na Serra Nevada. Um buraco em uma árvore é uma cicatriz deixada pelo fogo. E o fogo tem papel importante na reprodução. Limpa o solo e o calor sobe, no alto atinge os cones, as pinhas que dão a mensagem de que é hora de soltar as sementes. Cada pinha tem 200 sementes.

“Durante anos pensamos que o fogo era sempre ruim. E passamos quase um século apagando incêndios. E por isso não tinha brotinhos nascendo”, explica Matt Fagan.

O Fantástico percorreu a floresta com os guardas florestais. Passou por bosques densos, que tem o chão coberto de samambaias, clareiras emolduradas pelas gigantes. Lugares ainda habitados por ursos e veados selvagens.

Uma das sequoias encontrada na Serra Nevada é o maior indivíduo vivo conhecido no planeta. Tem até nome: general Sherman. Ela não é a mais alta, é a que tem o maior volume: 1,5 mil metros cúbicos, é o que carregam 20 caminhões baú. A general Sherman passou dos 2,5 mil anos, e continua crescendo.

Quando uma gigante tomba, fica onde está. E se bloqueia a estrada, melhor abrir um túnel.

É difícil entender como a árvore para em pé. Ela tem um sistema bem complexo de raízes, mas elas são bem rasas. As raízes penetram só três metros no chão. Poucos seres na face da Terra são tão impressionantes. Mas cruzando a Serra Nevada, do outro lado, há árvores muito mais velhas.

Três mil metros de altitude. Ar rarefeito e seco. A equipe do Fantástico caminhou seis quilômetros por trilhas entre as árvores que aprenderam a dominar o tempo: pinheiros longevos. Uma concentração de anciãs.

O lugar é chamado de bosque das árvores ancestrais, e não é à toa que ele tem esse nome. Muitas das árvores no local já passaram dos 4 mil anos, algumas estão com quase 5 mil anos. Já estavam no local há muitos séculos, quando os egípcios começaram a construir as pirâmides. São as árvores mais velhas do planeta.

Pinheiros que já tinham 3 mil anos quando Jesus nasceu, carregam as marcas do tempo: troncos enrugados, retorcidos. E são incrivelmente pequenos para a idade deles.

“É uma combinação de fatores que permite a essas árvores viver tanto tempo. Uma delas é a baixa qualidade do solo”, explica Dave Hardin.

Nessa terra arenosa, quase nada cresce. E quando cresce, é muito lentamente. Quer saber quão devagar um pinheiro cresce? Um bebezinho já tem mais de 100 anos. Dave Hardin dedica a vida a explicar para leigos como os pinheiros se tornaram tão resistentes. “Como crescem devagar, a madeira é muito densa, dura. E por isso é mais resistente a ataques de bactérias e fungos, que provocam doenças e a decomposição da madeira. Faz tanto frio e é tão seco, que insetos que provocam doenças não sobrevivem”, explica.

Como o pinheiro longevo dribla condições tão difíceis? Ele só cresce durante dois meses do ano, nos outros dez meses, ele fica dormente. Isso significa que praticamente para todas as funções do seu organismo, e se mesmo assim faltar energia, elimina alguns galhos para não comprometer toda a árvore. Por isso os galhos secos estão junto com o verde na maioria das árvores mais velhas.

Os buraquinhos são as marcas deixadas pela medição da idade. Dave mostra como isso é feito. Em uma árvore jovem, que só tem meio milênio, Dave faz um furo e retira uma amostra fininha.

Dave Hardin: Sente o cheiro.
Sônia Bridi: Cheiro de pinheiro. Tem um cheiro bom. Que delícia.

Em uma varinha perfumada estão 500 anos da história do clima. As árvores crescem do centro para fora formando anéis, um a cada ano. Anos mais úmidos, o anel é mais largo. Mais secos, anel fino.

No pinheiro ancião eles são tão fininhos que o professor usa bastões para explicar como é feita a contagem. Analisando os anéis de crescimento do pinheiro, os cientistas estão reconstruindo a história do clima na região. “Temos um registro ininterrupto de 8,8 mil anos”, revela Dave Hardin.

Como, se as árvores vivas têm pouco menos de 5 mil anos? Eles voltaram tanto no tempo, porque mesmo depois de mortas, elas continuam em pé durante milênios. E quando caem, não apodrecem no clima extremamente seco. Dá para comparar os anéis das árvores mortas com as vivas, e descobrir se foram contemporâneas em alguma época. É assim que os pinheiros contam para nós, sobre o tempo que viveram.

Talvez haja uma lição para a gente na história dos pinheiros longevos: o que não te mata te deixa mais forte, mais bem preparado para quando os momentos difíceis chegarem de novo. Afinal, é assim que trabalha a evolução. Mas será que existem seres vivos ainda mais velhos do que os pinheiros, ainda mais pesados do que as sequoias?

Outono. As árvores se preparam para enfrentar um inverno rigoroso em Utah, nos Estados Unidos. Elas vão entrar em dormência até a primavera. As folhas estão morrendo. E no último suspiro, uma explosão de cores.

Nas montanhas de Utah, a 2,5 mil metros de altitude que está o maior e mais pesado ser vivo de toda a terra. Na verdade, são todas as árvores. É uma colônia de clones de uma espécie chamada de álamo tremulante. Todas as árvores têm exatamente o mesmo código genético e são ligadas pela mesma raiz.

Não é um indivíduo. Mas é um único organismo. O nome, álamo tremulante, é por causa da maneira como as folhas balançam ao vento. São 47 mil árvores sobre o terreno de rochas vulcânicas.

E ainda maior é o que está embaixo da terra. Um sistema massivo de raízes é a alma da colônia. Se a seca ou fogo destruírem as árvores, a raiz faz brotar de novo. Ela também funciona como uma central de água e nutrientes, distribuindo de forma igual para todos os clones, mesmo que alguns estejam sobre solo mais seco e pobre.

Mas as árvores, apesar de clones, que têm exatamente o mesmo código genético, não são bem iguaizinhas. É que algumas são mais jovens do que os outras. E a oferta de sol também influencia. E mesmo que um clone, ou uma árvore dure só 200 anos, a colônia chamada de Pando, está viva há 80 mil anos.

“É muito difícil fazer esse cálculo, porque não é a idade de um indivíduo, mas da colônia toda, que se renova constantemente. Não é como a sequoia ou o pinheiro longevo, que ainda tem o tronco original”, comenta uma pesquisadora.

A idade foi estimada então calculando o tempo que a colônia levou para chegar ao tamanho atual. Nada menos que 450 mil metros quadrados. Tudo junto, raízes e clones, pesa mais do que 800 elefantes.

Nos últimos anos, a colônia começou a encolher. As mesmas características que a tornaram tão resistente, são também sua fragilidade.

“Todas são iguais geneticamente, então se uma ficar suscetível a um inseto, ou fungo, perdemos todas. O mesmo acontece as com as mudanças climáticas. Diversidade genética dá mais resistência”, explica a pesquisadora.

O álamo tremulante também se reproduz por semente. O pando, é macho. Outras colônias perto são fêmeas. Os cientistas dizem que as sementes são abundantes e férteis, mas poucas germinam, o que torna ainda mais importante preservar as colônias.

“Uma preocupação é que o sistema de raízes está se degradando. Tentamos várias técnicas, removemos outras espécies e fizemos queimadas, o que antes acontecia de forma natural”, conta o pesquisador.

Uma área foi completamente cortada e cercada. Assim os brotinhos ficaram protegidos não só dos animais selvagens, como também do gado das fazendas que fazem limite com o parque. A regeneração foi um sucesso.

Cuidar do ambiente em que estas espécies vivem. Conhecer mais dos mistérios da sobrevivência. E quem sabe um dia, desvendar o maior de todos. Por quê, de tudo o que conhecemos no universo, é só aqui que a vida faz a sua jornada.



Fonte: Fantástico



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Considere aspectos individuais antes de sacramentar vínculo com animal de estimação

Leia Mais