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A longa história natural do Cânion do Rio Poti, entre o Ceará e o Piauí

Compartilhe:     |  17 de fevereiro de 2020

Há cerca de cem milhões de anos, a América do Sul e a África, que faziam parte do megacontinente Pangea, se dividiram. O Nordeste brasileiro foi a última parcela desse território a ser separado, e quase se individualiza como um continente à parte. Isso não ocorreu, mas os terrenos sofreram grandes esforços, foram deformados, falhados, fraturados.

A grande marca desse episódio de separação continental no Nordeste brasileiro foi o soerguimento dos terrenos no interior no continente: terrenos cristalinos e sedimentares foram lançados para cima, alçados a uma altitude talvez não muito superior a do topo dos relevos mais elevados da atualidade (cerca de mil metros). De la para cá, o relevo, as paisagens naturais, vêm evoluindo a partir da erosão dessa superfície soerguida, comandada por climas secos – isto é, a erosão não é muito intensa, pois falta água para “destruir” as rochas.

No segmento ocidental do Estado do Ceará, na zona que hoje corresponde à divisa com o Estado do Piauí, esse soerguimento colocou terrenos sedimentares (os arenitos da Bacia Sedimentar do Parnaíba, bem antigos, de cerca de 430 milhões de anos) e terrenos cristalinos também antigos (de 2,2 bilhões de anos, formado por gnaisses e outras rochas metamórficas) lado a lado (Figura 1).

Figura 1. Início da história da paisagem do segmento ocidental do Estado do Ceará

Tão logo isso aconteceu, os rios, que são os maiores escultores da superfície da Terra, aproveitando desníveis topográficos na superfície soerguida, começaram a cavar seus vales. Dentre esses rios, estava o antigo Rio Poti, que nasce na Serra dos Cariris Novos, no município de Quiterianópolis, situado ao sul de Crateús (CE). Drena de sul para norte até a altura de Crateús, onde passa a fluir no sentido leste-oeste, para desaguar no Rio Parnaíba, em Teresina (PI). Ele tem uma extensão de aproximadamente 570 Km.

O Rio Poti começou a dissecar os terrenos sedimentares e cristalinos lá pelos idos de 90, 80 milhões de anos atrás. Vindo de norte para sul, ele encontrou uma falha geológica (área de ruptura entre rochas) nesses terrenos, encaixou-se na falha, e passou então a escoar de leste para oeste.

A grande surpresa que a natureza fez ao Rio Poti foi a seguinte: rapidamente ele “percebeu” que as rochas sedimentares eram mais resistentes ao processo de cavamento que as rochas cristalinas. Assim, o rio foi abrindo o vale com maior facilidade nos terrenos cristalinos, enquanto que nos terrenos sedimentares, resistentes, o vale que foi sendo aberto foi do tipo garganta (Figura 2).

Figura 2. Cavamento inicial do Rio Poti: o rio se encaixa em uma zona de falha geológica e passa a escoar de leste para oeste. Nesse processo, abre uma garganta nas rochas sedimentares, que resistem mais ao processo erosivo (ao cavamento do vale). Enquanto isso, no cristalino, mais frágil, o vale vai sendo alargado.

Com o passar dos milhões de anos, o trabalho de cavamento do velho Rio Poti seguiu essa lógica: cavou mais no cristalino do que no sedimentar. Enquanto cavava no cristalino, o rio ia aprofundando o vale no sedimentar, para que o leito do rio estivesse sempre no mesmo nível de altura topográfica. Vários afluentes surgiram no lado do cristalino, e foram ajudando no processo de alargamento do vale. O resultado dessa longa história evolutiva foi que surgiu uma área deprimida no cristalino, enquanto o sedimentar foi ficando em ressalto (Figura 3).

Figura 3. O Rio Poti e afluentes produzem intenso cavamento nas rochas cristalinas e aprofundamento da garganta nas rochas sedimentares, gerando ainda um grande ressalto topográfico.

Com a evolução no tempo desses processos erosivos, o resultado foi a formação do Cânion do Poti, o surgimento da Serra da Ibiapaba (que representa o contato desnivelado, o ressalto, entre cristalino e sedimentar) e a formação de uma ampla área rebaixada no sopé da Ibiapaba, que corresponde ao que chamamos de sertão.

A lógica da existência do Cânion do Poti, da Serra da Ibiapaba e do sertão (superfície de piso atual) é então uma só, a chamada “erosão diferencial”: os materiais mais resistentes ficaram pouco erodidos, na forma de garganta (cânion) ou elevação (Serra da Ibiapaba),e o material mais frágil ficou rebaixado e deprimido (o sertão) (Figura 4).

Figura 4. Paisagem atual no segmento ocidental do Ceará.

Assim termina a nossa história. De agora em diante, a tendência é que esse processo evolutivo avance, com recuo para oeste da Serra da Ibiapaba e eventual colapso das paredes do cânion no futuro (milhões de anos). Isso, se a sociedade não mudar o rumo da evolução. Temos que torcer para que nunca pensem em fazer uma barragem no rio à jusante do cânion, como aconteceu em situações semelhantes em outras áreas do mundo e no nosso próprio País. Vamos zelar pela sobrevivência do nosso cânion.
O mapinha elaborado a partir de dados topográficos mostra a situação atual (Figura 5).

Figura 5. Bloco digrama feito com dados topográficos de satélite (NASA, EUA) (Fonte: Barreto et al., 2014).

Referências bibliográficas

Claudino-Sales, V. Megageormorfologia do Nordeste Setentrional Brasileiro. Revista de Geografia, 45-65, 2018
Claudino-Sales, V. Megageomorfologia do Estado do Ceará. São Paulo: Edições Nova, 2016
Barreto, L. L.; Costa L. R. Evolução geomorfológica e condicionantes morfoestruturais do cânion do Rio Poty – Nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Geomorfologia 17-26, 2014.

Vanda Claudino-Sales
Geógrafa
Professora associada aposentada da Universidade Federal do Ceará (UFC)
Professora visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA)
[email protected]



Fonte: Eco Nordeste - MARISTELA CRISPIM



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