Denúncia

A próxima despensa global na corda bamba

Compartilhe:     |  5 de outubro de 2014

Por Diana Cariboni, da IPS

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“Podemos ser a última geração de latino-americanos e caribenhos a conviver com a fome”, afirmou Raúl Benítez, representante regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A afirmação mostra um lado da moeda: somente 4,6% da população regional está desnutrida, segundo dados fornecidos por esta agência da ONU no estudo O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2014, divulgado em setembro.

Com quase 600 milhões de habitantes, América Latina e Caribe possuem um terço da água doce do planeta e mais de um quarto de suas terras agrícolas de média e alta produtividade, diz um livro publicado este ano pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em associação com o Global Harvest Initiative, um centro de pensamento financiado pelo setor privado.

É a terceira maior região em exportação de alimentos, embora empregue apenas uma pequena parte de seu potencial agrícola, tanto para consumo interno como para o mercado exterior. Mas quase um quarto da população rural latino-americana ainda sobrevive com menos de US$ 2 por dia, e sua geografia é determinante para os desastres (terremotos, furacões, inundações e secas), alguns exacerbados pela mudança climática.

O aquecimento global traz sérios desafios para que a comunidade internacional alcance a meta de erradicar a pobreza e a fome. As mudanças nos regimes de chuvas, nos solos e nas temperaturas já estão afetando os sistemas agrícolas. Mais de 800 milhões de pessoas de todo o mundo sofrem hoje o risco da fome. Por seus efeitos nas colheitas e nos meios de vida, a mudança climática pode ampliar esse flagelo em 20% até 2050, afirma um documento da ONU.

As alterações de temperaturas e precipitações poderiam encarecer os preços dos alimentos entre 3% e 84% até 2050. A organização humanitária Oxfam afirma que nos cenários mais extremos o calor e a falta de água poderiam reduzir as colheitas em 25% entre 2030 e 2049. É provável que a mudança climática seja mais nociva para os pequenos produtores e familiares que, nessa região, produzem mais da metade dos alimentos e não têm recursos suficientes para se adaptarem a um clima alterado.

Apesar dessa ameaça latente, as estratégias de sustentabilidade na América Latina não estão claras. Os motores do crescimento são as matérias-primas de exportação. E, embora alguns setores tenham avançado em valor agregado, tecnologia e inovação, a exploração de recursos naturais continua sendo a chave do boom regional. As matérias-primas e os produtos básicos representaram 60% das exportações regionais em 2011, enquanto em 2000 constituíam 40%, segundo o documento Perspectivas Econômicas 2014, da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Ao mesmo tempo, o estudo diz que esse crescimento das vendas externas de produtos básicos causou uma substituição das manufaturas domésticas por bens importados, afetando as indústrias manufatureiras regionais. No campo, os modelos de pequena agricultura e extensas monoculturas de espécies geneticamente modificadas travam uma luta de Davi contra Golias.

No Paraguai, quarto maior exportador de soja do mundo, 1,6% dos proprietários concentram 80% das terras agrícolas, segundo afirma a Oxfam no documento A Pequena Agricultura em Perigo. Já na Guatemala, acrescenta o estudo, 8% dos produtores possuem 82% das terras, enquanto 80% das áreas produtivas da Colômbia estão em mãos de 14% dos proprietários. A produção agropecuária e o desmatamento vinculado a ela são grandes fontes de gases-estufa na América Latina, embora outros fatores estejam crescendo aceleradamente.

O Brasil, por exemplo, está ingressando no clube dos grandes contaminadores, pois nos últimos cinco anos a queima de combustíveis fósseis passou a ser responsável pela maior parte das emissões de gases-estufa do país. Na medida que crescem, as indústrias extrativistas demandam mais estradas, ferrovias e portos, e suas empresas pressionam os governos para evitar o chamado “apagão logístico”.

O mercado de energia também está crescendo, e não só o das indústrias, mas o de milhões de pessoas que saíram da pobreza e têm, portanto, maiores necessidades de consumo. Estima-se que no período 2010-2017 a demanda energética regional crescerá a uma taxa anual de 5%.

Além disso, a América Latina cruzará uma nova fronteira em matéria de combustíveis fósseis, quando Argentina, Brasil e México superarem diferentes desafios políticos, financeiros e técnicos para explorar grandes reservas de hidrocarbonos não convencionais, como a formação austral argentina de Vaca Muerta e as jazidas do pré-sal na plataforma continental brasileira.

Não é simples argumentar que uma região com tanta riqueza natural não tenha direito à explorá-la ativamente e aproveitar a demanda por matérias-primas, especialmente quando a renda fiscal resultante permitiu à Bolívia, por exemplo, reduzir a extrema pobreza de 38% em 2005 para 20% no ano passado. Mas os especialistas alertam que esse rumo econômico é insustentável e que os impactos da mudança climática, já sentidos em toda a região, podem minar qualquer avanço social.

Na Guatemala, para citar um caso, a pior seca dos últimos 40 anos indica que 1,2 milhão de pessoas possam sofrer fome nos próximos meses. Ao que parece, os que sofrem o pior impacto do desenvolvimento econômico insustentável são, paradoxalmente, aqueles que menos contribuíram para o aquecimento global.

Um relatório da ONU descrevendo ações para o acompanhamento do programa adotado em 1994 pela Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, afirma que apenas “um terço da população mundial tem padrões de consumo que poderiam ser considerados contribuintes de emissões” vinculadas à mudança climática. Menos de um bilhão de pessoas desse terço causam um impacto significativo, enquanto “uma minoria ainda menor responde por uma porção exageradamente grande do dano”, acrescenta o documento.

No entanto, serão os mais pobres aqueles que suportarão as consequências. E os da América Latina – “a próxima despensa global”, segundo definição do BID e de diferentes especialistas – precisam de respostas locais e mundiais firmes se querem alcançar o desenvolvimento sustentável na próxima década.

Fonte: Envolverde/IPS



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