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A verdade por trás do “universo paralelo” que a Nasa teria descoberto

Compartilhe:     |  23 de maio de 2020

Nesta semana, a história de que a Nasa teria descoberto um “universo paralelo” no qual o “tempo corre para trás” ganhou os noticiários do Brasil e do mundo. Para quem sonha em viajar pelo espaço-tempo, esta foi uma boa notícia: que tal voltar para 2019, quando a Terra ainda não tinha sido acometida pela Covid-19? Ou para a época em que as Pirâmides do Egito estavam sendo construídas? Ou, que tal, dar um “rolê” na cacunda de um dinossauro?

Seria show de bola — e é por isso que nós, da GALILEU, nos desculpamos de antemão por destruir os seus sonhos: as notícias sobre este tal “universo paralelo” não estavam exatamente corretas. Toda essa história não passa de uma enorme confusão, e a existência deste outro “ambiente” continua sendo apenas uma suposição.

Tudo começou com uma notícia (exclusiva para assinantes) compartilhada pela revista New Scientist no início de abril. O artigo “Podemos ter observado um universo paralelo retrocedendo no tempo” (“We may have spotted a parallel universe going backwards in time”, em inglês) noticia as descobertas recentes de uma equipe da Nasa que estuda os dados obtidos pela Antena Transitória Impulsiva Antártica (Anita), que fica na Antártida.

Antes de continuarmos contando a história do “universo paralelo”, precisamos explicar quais foram as descobertas feitas pela poderosa Anita (com o perdão do trocadilho) — e para isso você precisa saber o que são neutrinos.

Um neutrino é uma partícula subatômica, como prótons e elétrons, que não tem carga carga magnética. Isso faz com que ele não seja repelido ou atraído por outras partículas da natureza e torne suas interações com a matéria muito raras e quase indetectáveis — seu apelido inclusive é “partícula fantasma”.

Entretanto, quando os neutrinos são produzidos por explosões no Universo, eles ganham muita energia e se tornam mais propensos a interagir com a matéria. Aí, se essas partículas se chocam com um átomo, por exemplo, elas produzem uma “chuva” de partículas secundárias que os astrônomos conseguem detectar.

Foi justamente com o intuito de observar esses fenômenos que a Anita foi criado na Antártida. Graças ao equipamento, os cientistas podem detectar a colisão das partículas secundárias que colidem com o gelo.

Ao longo dos anos, a Anita detectou vários eventos “anômalos”. Segundo os especialistas, em vez dos neutrinos de alta energia chegarem do Espaço, eles parecem ter vindo de um ângulo estranho, atravessando o interior da Terra, antes de atingir o detector.

“Os eventos incomuns da Anita são conhecidos e discutidos desde 2016”, contou Ron Ekers, da Agência nacional de Ciências da Austrália, em entrevista ao CNet. “Após quatro anos, não houve uma explicação satisfatória dos eventos anômalos observados pela Anita, de modo que isso é muito frustrante, especialmente para os envolvidos.”

Uma das equipes que estuda os dados da Anita divulgou o resultado de novas observações em um artigo publicado no início de abril no The Astrophysical Journal. No estudo, assim como em outros previamente compartilhados, os cientistas afirmam que a física atual não consegue explicar o comportamento anômoalo dos neutrinos e que “física exótica” talvez deva ser considerada para explicá-los.

Uma das possibilidades para explicarmos o fenômeno detectado pela Anita é, de fato, a existência de um “universo paralelo” — e foi isso que reportou a New Scientist. De acordo com a reportagem, alguns cientistas propõem a existência de um antiuniverso dominado pela antimatéria, que remonta ao tempo do Big Bang e cujas propriedades espaciais são invertidas das do nosso Universo.

Uma boa parte dos físicos, contudo, ressalta que existem dezenas de outras possíveis explicações para as mesmas arnomalidades. “Encontramos um pequeno número de anomalias em nossos dados e, uma vez esgotadas todas as explicações possíveis dentro do Modelo Padrão de Física, só então será hora de considerar outras ideias que ultrapassam esses limites”, afirmou Peter Gorgam, principal pesquisador da Anita, ao ScienceAlert. “Ainda não estamos realmente lá, certamente não no ponto em que universos paralelos são necessários [para explicar as anomalias].”

A confusão

Então, o que será que aconteceu para esta ideia de “universo paralelo” se espalhar? Para os cientistas, a culpa é… de alguns jornalistas.

Ibrahim Safa, físico que trabalha com dados da Anita, se manifestou sobre o assunto no Twitter: “Eu: Vimos esses eventos da Anita e eles não podem ser neutrinos comuns. Provavelmente foram o resultado de nossa compreensão imperfeita do gelo antártico, mas há uma chance de algum novo fenômeno físico ser responsável. Tablóides: UNIVERSO PARALELO!!!”.

Peter Gorgam concorda. Para ele, “nesse caso, um ou mais jornalistas repercutiram um artigo que não foi verificado e, por razões que não são claras, atribuíram-nos descobertas que nunca publicamos”, disse ao ScienceAlert. “Essa é uma das razões pelas quais os avanços científicos prosseguem por um processo mais comedido, por meio de revisão e verificação por outros pesquisadores.”



Fonte: Revista Galileu



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