A água no terceiro milênio

02-07-2006
{mosimage}O  Portal Espaço Ecológico no Ar oferece destaque especial para a entrevista que o engenheiro civil e militar e gestor ambiental João Ferreira Filho concedeu sobre o tema: "A água no terceiro milênio".

Confira a entrevista:

Qual a visão que se faz agora no 3° milênio sobre a ÁGUA, quando sempre achávamos que era um bem da natureza, que sempre tínhamos à nossa disposição na quantidade que desejássemos e praticamente de graça?

{mosimage}A água doce realmente sempre foi considerada um bem da natureza ou uma dádiva de DEUS que, para nós no Brasil e, principalmente no Nordeste, tem como única fonte primária a chuva, já que não temos degelo.

Na última década do século XX, a água doce chegou a ser chamada de "o ouro líquido do Século XXI" e, no ano 2000, a ONU rotulou-a de OURO AZUL, atribuindo-lhe o status de um recurso econômico tão valoroso quanto o petróleo e a madeira.

O mundo ficou estarrecido quando em 1975, o Vice-Presidente do Banco Mundial, ISMAIL SERAGELDIM declarou: "As guerras do próximo século serão por causa da água - não por causa de petróleo ou política".

Já em 1970, estudos encomendados pelo CLUBE DE ROMA aos especialistas do Instituto Tecnológico de Massachussets, nos EUA, opinados por DENNIS DORNELLA MEADOWS apresentam seguinte conclusão: "No século XXI, vivenciaremos uma severa crise, ou de escassez de recursos renováveis ou de severa degradação do meio ambiente, ou talvez uma mistura de ambas".

É realmente necessária uma mudança radical de paradigmas, para a qual a Sociedade deve ser alertada e as crianças serem EDUCADAS para conviveram com essa realidade.

Por que houve essa mudança de paradigma tão radical?

Quando conhecemos em profundidade as raízes de uma causa ou problema fica mais fácil para combater, minimizar ou até mesmo conviver. Hoje já se diz que necessitamos mais de meio Planeta Terra para atender às necessidades de seus habitantes em água, alimento e qualidade de vida. Vamos entender isso agora.

Há 50 anos, era preconizado com ideal para manter o desenvolvimento sócio-econômico de um Continente, País ou Região, uma reserva de água doce de 2000 m³/pessoa/ano.

Hoje já temos Continentes, como a Ásia, que só dispõe de 500 m³/pessoa/ano, isto é, já perdeu 75% daquela condição ideal.
Há 50 anos atrás éramos apenas 2 bilhões de habitantes e hoje já somo mais de 6 bilhões de habitantes, já superando a capacidade do Planeta Terra.

Hoje crescemos à razão de 2 pessoas por segundo, 77 milhões de habitantes por ano e 1 bilhão a cada 12 anos; entre 2012 e 2015 já seremos 7 bilhões de habitantes.

Em 1804 o Planeta Terra atingiu o 1º bilhão de habitantes e em 1950 já éramos 2 bilhões de habitantes. O grande problema realmente passou a ocorrer após o ano 1950, quando o crescimento passou a ser geométrico. Nos últimos 50 anos a população se multiplicou por 3 e o consumo de água doce multiplicou-se por 6. Logo mais iremos saber por quê.

Como se dá a distribuição de ÁGUA na forma como a usamos para o consumo humano e animal, uso na agricultura e na indústria, no Planeta Terra e no Brasil?

{mosimage}Ouvimos muitas pessoas chamarem o nosso Planeta de Planeta Água, pois dois terços de sua superfície são cobertas por água. São os oceanos, mares, lagoas, pântanos, geleiras e rios que os astronautas vêem lá de cima, portanto, muito mais água do que terra. Esse mundão todo de água não está na forma e estado que consumimos ou usamos na agricultura e na indústria, mas está assim distribuído:

Nos oceanos     95,50%
Nas calotas polares e geleiras    2,20%
Nas profundezas da Terra     2,28%
Nos lagos e pântanos      0,01%
Na atmosfera e nos rios     0,01%
Como podemos observar, a água, na forma como necessitamos, é muito pouca, 0,01% que está nas nuvens, para se transformar em chuva e formar os rios.

A distribuição espacial dessa água, na forma que usamos, também representa um grande problema, pois ela não é de maneira igual ou proporcional às necessidades da população, como veremos:

A Ásia já perdeu nos últimos 50 anos 75% da condição ideal de 2000 m³/pessoa/ano
A África perdeu 65%
A América Latina 55%
A América do Norte 50%
O Brasil , que é o país mais rico em água doce do Planeta Terra, detendo 12% da água doce do mundo, quando representa apenas 6 % do território mundial, tem uma distribuição muito desigual:

Região Norte       68,5%
Centro Oeste      15,7%
Sul                     6,5%
Sudeste              6,0%
Nordeste             3,3%
Veja só o problema do Nordeste: somos 35% da população do Brasil e só dispomos de 3,3% da sua água doce.

Qual é a relação de consumo água para a produção de alimentos, do uso nas residências e o que devemos fazer para se enquadrar nesses novos paradigmas?

Aqui está o problema mais complicado de se resolver, que é o do consumo da água doce.

Gastando-se em média 1000 (mil) toneladas de água doce para produzir 1 (uma) tonelada de grãos, estamos gerando uma inequação decorrente de uma demanda cada vez maior por água doce e uma oferta cada vez menor desse precioso líquido da vida, motivada pela finitude da água doce e o crescimento sem limites da população.

É assustador quando analisamos os consumos decorrentes do nosso dia a dia:

Descarga no vaso sanitário tradicional   10 a 16 litros
1 minuto de chuveiro      15 litros
1 lavagem na máquina de lavar roupas   150 litros
Lavar as mãos com a torneira aberta    3 a 5 litros
Lavar a louça em lava-louças     20 a 25 litros
Escovar os dentes com água corrente na torneira  11 litro
Lavar o carro com mangueira    100 litros
E tem mais: para manter a nossa qualidade de vida:

1 Kg de papel     250 litros
1 Kg de aço       300 litros
1 Kg de pão       150 litros
1 Kg de carne de gado   20.000 litros
Haja água doce para atender àquele crescimento populacional que falamos:

2 pessoas por segundo
77 milhões de consumidores por anos
1 bilhão a mais a cada 12 anos
Essa inequação, isto é, a demanda muito maior que a oferta, já está nos levando a considerar a ÁGUA DOCE como um alimento que já é encontrado nas prateleiras dos supermercados, lojas de conveniências e botequins.

A solução dessa inequação passa pela mudança de paradigmas que nos levem a atuar mais na redução da demanda do que no aumento da oferta.

Fala-se em ÁGUA DOCE, ÁGUA SALOBRA, ÁGUA SALGADA, ÁGUA POTÁVEL, ÁGUA CONTAMINADA etc. Como são feitas essas distinções?

Estamos falando já alguns minutos ora de água, ora de água doce e é adequado o momento de esclarecermos isto. ÁGUA só existe uma, que é a que DEUS criou e que tem uma fórmula química muito simples - H2O -, mas que até hoje a ciência não conseguiu criar na forma de sintética, como criou o plástico e também outros materiais importantes.

A essa ÁGUA, H2O, se acrescentarmos sais ou outro produto, mudaremos o seu nome ou apelido:

H2O - água potável      0 mg/litro
Água potável, com poucos sais   >        75 mg/litro
Água doce, com sais    <      500 mg/litro
Água salobra, com bastante sais   <    3000 mg/litro
Água salgada, com muitos sais   >    5000 mg/litro
Exemplos:

A água doce que se bebe em João Pessoa, distribuída pela CAGEPA, é muito boa, tem menos de 200 mg/litro de sais totais dissolvidos.
A Água do Oceano Atlântico tem 35.000 mg/litro.
Tem poço tubular em Soledade que dá água salgada com 55.000 mg/litro.
Os nossos poços no interior dão água em torno de 2000 mg/litro.
É muito importante sabermos que os sais que encontramos nas águas vêm da terra e não dos mares e oceanos. São os rios que levam os saias da terra e vão salgando os mares e oceanos.
O Mar Morte tem 135.000 mg/litro.
O Mar de Aral está se transformando em pedra de sal.
Se juntarmos qualquer água, sujeiras, coliformes fecais etc, dizemos que é uma Água Poluída ou Água Contaminada e então não será potável.
Qual o modelo que se pode imaginar para o futuro aqui no nosso Nordeste, que sempre viveu com períodos de escassez de ÁGUA DOCE?

O Nordeste Brasileiro tem sobrevivido graças ao modelo que adotou, qual seja, o da açudagem ou acumulação pontual de água. Onde existia uma comunidade, o Governo ia lá e construía um açude, grande, médio, pequeno, e até barreiros.

Essa saga iniciou-se em 1860, com o Pe IBIAPINA, teve aceitação do Governo durante o Império, quando no desespero da Grande Seca de 1877/79, o Imperador Dom PEDRO II determinou que iria construir 30 Grandes Açudes que suportassem mais de 1 ano de seca, já que os do Pe IBIAPINA eram pequenos açudes que secavam ao fim de um ano de seca.

No início do século XX, criou-se o IOCS, que em 1919 foi transformado em IFOCS, que no Governo do Presidente Epitácio Pessoa, construiu em apenas 4 anos, 1919/1922, 505 Grandes Açudes. De lá para cá, não paramos mais de construir açudes. Construímos tantos açudes numa mesma bacia hidrográfica, que uns terminaram matando outros.

Como a evaporação no Semi-Árido Nordestino é muito alta, isto é, o Sol leva, por ano, 3 metros de coluna d'água de cada açude, os de pequena profundidade secam.

Fazendo muitos açudes numa mesma bacia hidrográfica, estamos, no dizer do Dr JOSÉ AGNELLO DE AMORIM, é "botando água pra quarar".

Diz ele ainda na sua grande sabedoria: "no nosso semi-árido, chove mais para cima do que para baixo", referindo-se ao fato de que em Cabaceiras - PB, chove em média 300 mm/ano e a evaporação é de aproximadamente 3.000 mm/ano.

Nos anos de 1998 a 2000, tivemos uma grande quantidade de açudes que entraram em colapso, detonando o fim de um modelo que iniciou-se em 1860 e garantiu o crescimento econômico-social do Nordeste do Brasil até o ano 2000.

Para o 3º milênio, teremos que adotar outro modelo, que é o da distribuição espacial da água doce. Esse modelo é o que foi adotado para a distribuição de energia elétrica no Nordeste do Brasil.

Antes, tínhamos um gerador ou usina de energia elétrica em cada cidade, até que não deu mais. Veio Paulo Afonso com seus linhões de energia elétrica, vieram depois Sobradinho, Itaparica, Moxotó, Xingó, Tucuraí etc. Hoje a energia elétrica com o Programa LUZ PARA TODOS, está iluminando todos os lares do Nordeste do Brasil.

Com a água doce irá ocorrer o mesmo e isso vai ser iniciado com o Projeto de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas dos rios Paraíba, Piancó, Piranhas, Apodi e Jaguariba.

No futuro o Rio Tocantins irá reforças o Rio São Francisco e também iremos aprender a tirar o sal que está na água salgada do mar, tornado-a doce, o que há 300 a.C ARISTÓTELES já ensinava a seus alunos:

"A água do mar não é salgada, apenas está salgada, se retirarmos o sal ela se torna doce".

Isto é muito fácil e podemos fazer ou congelando, ou fervendo, ou peneirando numa peneira muito fina que chamamos dessalinizador por osmose reversa, já produzido em Campina Grande, pelo Dr. KEPLER, no laboratório de Referências em Dessalinização da UFCG.

Que tem feito o Governo Federal e Estadual para preparar o País e o Estado da Paraíba para essa nova realidade

O Governo Federal tem feito já alguma coisa e é bom que a Sociedade saiba:

O documento mais importante data de 1934, que é o nosso CÓDIGO DE ÁGUAS.
A Constituição de 1988 dedicou vários capítulos à ÁGUA.
A Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, institui a Política Nacional de Recursos Hídricos.
Essa Lei, que seguiu o modelo francês, já atribuiu à água um valos econômico e daí já a chamou de recurso hídrico
O Estado da Paraíba, com a Lei nº 6.308, de 2 de julho de 1996, quase um ano antes da Lei Federal nº 9.433, estabeleceu a Legislação Estadual sobre Recursos Hídricos.
Atualmente, o Governo CÁSSIO CUNHA LIMA vem desenvolvendo um Programa de Eficientização do Uso da Água e da Energia para mudar aquela relação de produção indecente de 1.000 (mil) toneladas de água doce para produzir 1 (uma) tonelada de fruta.
Agora vamos ter no Estado a Agência Estadual de Gestão da Água.
Se é um recurso finito, tem que ser bem gerido mesmo.
Em termos de Planeta Terra, que medidas vêm sendo adotadas pela ONU e outros Organismos de Sociedade Civil Organizada, com relação à valorização da ÁGUA?

Em 1992 tivemos a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, surgindo dela a AGENDA 21, a qual dedicou o seu Capítulo 18 à Proteção da Qualidade e do Abastecimento dos Recursos Hídricos: Aplicação de Critérios Integrados no Desenvolvimento, Manejo e Uso dos Recursos Hídricos.

Já em 22 de dezembro de 1992 a ONU, através da resolução nº 193 da 47ª Assembléia Geral das Nações Unidas, aprovada na 93ª Reunião Plenária, estabeleceu o DIA MUNDIAL DA ÁGUA, a ser comemorado no dia 22 de março de cada ano, iniciando-se no dia 22 de março de 1993, seu 1º ano. Agora, em 2006, comemoramos o seu 14º ano.

Em 2000, como falei, a ONU rotulou a água doce de OURO AZUL. No ano 2003, a ONU deliberou que fosse considerado o Ano Internacional da Água Doce.

Em 2004, a CNBB julgou que era o momento de fazer a Campanha da Fraternidade voltada para a Água e assim fez: com o tema FRATERNIDADE E ÁGUA e o Lema ÁGUA - FONTE DE VIDA.

Em 2005 a ONU declarou que a década de 2005 a 2015 será considerada a Década da Água Doce.

Qual é a definição mais simples e abrangente que temos hoje para definirmos o que chamamos de ÁGUA DOCE?

A definição que diz tudo é a seguinte:

ÁGUA DOCE: é um recurso renovável, porém finito e de ocorrência aleatória.

Explicando melhor:

" Recurso renovável: pela capacidade que tem de se recuperar em quantidade, principalmente pelas chuvas e, por sua capacidade de absorver poluentes
" Finito: os mananciais não são incrementáveis, muito pelo contrário, definham pela ação do homem ,enquanto que o consumo cresce numa velocidade muito maior do que o crescimento da população
" Ocorrência aleatória: porque se distribui de modo irregular, no tempo e no espaço, em função das condições geográficas, climáticas e meteorológicas.
Outra mais simples ainda: "Água é o solvente universal, limpa tudo, mas não se mistura com a sujeira".
Isso nos dá a grande chance de sobreviver até nas Estações Orbitais, reciclando-a um infinito número de vezes, pois a sua composição química se manterá inalterada, será sempre H2O
Para finalizar essa nossa entrevista, pedimos que resuma uma única frase, o que sintetiza tudo o que ouvimos hoje sobre ÁGUA.

É possível essa sintetização com a frase:

Sem ÁGUA não há VIDA, mas sem EDUCAÇÃO não há SALVAÇÃO.

Fonte: Espaço Ecológico - Entrevista concedida ao jornalista Jaimaci Andrade