Naturebas em alerta

22-05-2006
{mosimage}Nem tudo o que vem da natureza faz bem. Entenda como o consumo indiscriminado de medicamentos fitoterápicos pode trazer diferentes complicações para a saúde.

É preciso cautela na crença popular de que as plantas não fazem mal. Passadas de geração em geração, as conhecidas receitas caseiras que buscam eliminar sintomas como esgotamento físico e metal, má digestão, insônia ou dor de cabeça, podem acarretar mais problemas do que se imagina.

Devido à falta de conhecimento sobre a composição dos vegetais, muitas pessoas preparam seus próprios remédios com partes de folhas que não apresentam princípios ativos, e são feitos com quantidade insuficiente ou exagerada.

Na maioria das vezes, tal procedimento resulta em ineficiência no tratamento, indisposição pelo uso abusivo ou até consumo de produtos nocivos à saúde.

"O uso de uma planta medicinal sem comprovação científica de sua eficácia pode levar a intoxicações sérias e a morte", sinaliza Dra. Rita Mattei Persoli, docente da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 80% da população mundial faz uso de algum fitomedicamento - número pouco surpreendente, afinal, o uso de plantas como remédio é tão antigo quanto a própria humanidade. Atualmente, o mercado conta com inúmeros medicamentos que utilizam em seus rótulos o termo "produto natural".

Alternativa às substâncias sintéticas, eles trazem grande eficácia terapêutica e menos efeitos colaterais, além de serem mais baratos. À base de plantas, são usados para diferentes fins, como acalmar, cicatrizar, expectorar, engodar ou emagrecer.

"Um fitomedicamente é um medicamento farmacêutico obtido por processos tecnologicamente adequados, que contam com matérias-primas vegetais e são caracterizados pelo conhecimento da eficácia e dos riscos de seu uso, e por não conterem substâncias ativas isoladas de qualquer origem", esclarece Dra. Rita.

Considerada por muitos como uma terapia alternativa, a fitoterapia não é uma especialidade médica, como a homeopatia ou a acupuntura, e se enquadra dentro da chamada medicina alopática.

{mosimage}Cristina Sekiya, professora de Biologia Vegetal e Fitoterapia da Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, explica que a indústria farmacêutica tem investido cada vez mais em fitomedicamentos, já que seus benefícios estão cientificamente comprovados.

"No entanto, pouca gente ainda atenta para a importância de serem usados segundo prescrição de um médico", sinaliza. Tal alerta se dá porque existe uma série de drogas, ditas naturais, que podem causar efeitos colaterais e até lesões hepáticas, renais e cardíacas.

A planta conhecida como "comigo ninguém pode", por exemplo, é extremamente tóxica e pode matar. Além disso, vale lembrar que a estricnina, a morfina e a cocaína também são considerados produtos naturais.

Como se fosse água com acúçar, Embora não seja possível ter uma overdose de chá de boldo, os médicos apontam que uma das maiores causas de complicações causadas por produtos feitos com plantas é o desconhecimento de seus efeitos.

{mosimage}Sekiya afirma que a quantidade de princípio ativo presente em uma determinada planta varia de acordo com a idade da espécie, a época da colheita, o tipo de solo e as condições de estocagem. "Tudo isso pode interferir na eficácia do tratamento", diz.

Por essa razão, todo medicamento, inclusive os fitoterápicos, deve ser usado segundo orientação médica. Entre os principais problemas causados pelo consumo indiscriminado e prolongado desses medicamentos estão as reações alérgicas, os efeitos tóxicos graves em vários órgãos do corpo e mesmo o desenvolvimento de certos tipos de câncer.

André Hinsberger, naturólogo especialista em fitoterapia e também professor da Universidade Anhembi Morumbi afirma que a venda desses produtos sem prescrição médica também é um dos motivos levam a automedicação.

"O problema é que esses medicamentos são como qualquer outro remédio que, como tal, contêm seus princípios ativos capazes de gerar ações farmacológicas no organismo", ressalta.

Essa confusão toda em torno dos produtos feitos de plantas, em parte, é atribuída às autoridades competentes que não legalizam a maioria desses produtos como medicamentos, mas sim como suplementos.

"Por essa razão, é importante que as pessoas atentem para procedência do que consomem. Elas devem averiguar qual é o laboratório que fabrica o produto, bem como o número de registro do medicamento na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)", ressalta o naturólogo. Portanto, para evitar sustos, é sempre bom lembrar que nem tudo são flores na hora de se medicar com plantas.
Fonte: Por Pamela Cristina Leme - Guia da Semana
22.05.2006