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Adoçantes artificiais oferecem mais riscos à saúde do que os naturais

Compartilhe:     |  11 de setembro de 2020

Como forma de ajudar a conter a epidemia de obesidade, pequenas mudanças na dieta alimentar para prevenir o ganho de peso têm sido incentivadas. Os adoçantes artificiais têm ganhado atenção como ferramentas dietéticas que fornecem sabor doce sem a energia extra derivada de alimentos e bebidas contendo açúcares calóricos e, portanto, podem auxiliar na adesão ao plano de perda de peso.

Os adoçantes artificiais entraram em voga durante a I e II Guerra Mundial, quando, devido à crise agrícola, a produção de açúcar estava caindo. Durante este tempo, a sacarina foi muito bem aceita como alternativa de baixo custo ao açúcar. Descobriu-se acidentalmente as propriedades doces da sacarina, que tornaram o pão do jantar muito doce quando um cientista se esquecia de lavar as mãos após um longo dia no laboratório; é o adoçante artificial mais antigo e foi desenvolvido na Universidade Johns Hopkins em 1879, sendo 200 a 700 vezes mais doce que a sacarose e comumente usado em refrigerantes, doces, molhos para salada, chicletes e produtos não comestíveis, como pasta de dente, enxaguante bucal e medicamentos.

Desde então, vários adoçantes artificiais foram descobertos e produzidos: aspartame e sucralose são alguns deles. São adoçantes de segunda geração, aproximadamente 200 vezes mais doce que a sacarose. O acessulfame potássio (acessulfame K) é cerca de 300 vezes mais doce do que a sacarose e a sucralose, 600 vezes. Essas substâncias podem ser encontradas em mais de 6.000 produtos alimentícios em todo o mundo. Alguns produtos mais novos, derivados de produtos vegetais, como a estévia, são metabolicamente mais neutros.

Pesquisadores descobriram que os adoçantes artificiais podem ser úteis como uma ferramenta para ajudar as pessoas a abandonar seus hábitos de açúcar e que, para algumas pessoas, substituir o açúcar por adoçantes não nutritivos pode realmente ajudar a evitar o ganho de peso. Mas desde sua aprovação pelo FDA, adoçantes artificiais e seus benefícios sobre a saúde metabólica têm sido questionados. Evidências científicas, através de estudos em larga escala, têm mostrado uma associação entre a ingestão de adoçantes artificiais e ganho de peso e/ou IMC e aumento da incidência da síndrome metabólica e seus componentes, incluindo circunferência da cintura, pressão arterial e glicose no sangue em jejum. Alguns estudos em adultos demonstraram ligações entre o consumo de adoçantes artificiais e resistência à insulina, incidência de diabetes tipo 2 e controle deficiente da glicose em pacientes com diabetes pré-existente.

Mecanismos de ação dos adoçantes artificiais e ganho de peso

Múltiplos mecanismos comportamentais foram propostos para explicar a associação epidemiológica entre o uso de adoçantes artificiais e o ganho de peso. Tem sido sugerido que a dissociação da sensação do sabor doce da ingestão calórica pode promover o apetite, levando ao maior consumo alimentar e ganho de peso. Além disso, o aumento do consumo de adoçantes calóricos adicionados tem sido associado à menor qualidade da dieta, talvez por alterar as preferências de sabor em relação a alimentos adoçados em lugar de alimentos mais saudáveis, como frutas e vegetais; este mecanismo também pode ser aplicado a adoçantes artificiais.

Receptores de sabor doce respondem não apenas a açúcares calóricos, como sacarose e glicose, mas também a adoçantes artificiais, incluindo sucralose. Em humanos e animais, esses receptores mostraram estar presentes não apenas nas papilas gustativas linguais, mas também nas células da mucosa intestinal, levando a uma absorção mais rápida de açúcares do intestino para a corrente sanguínea, aumentando a secreção de insulina e afetando potencialmente o peso, o apetite e a glicemia.

Efeitos dos adoçantes artificiais no microbioma

O microbioma ou microbiota é uma população heterogênea de bactérias que tem uma distribuição espacial imensa ao longo do trato gastrointestinal, cobrindo uma área de superfície de aproximadamente 300 a 400 m². O ambiente influencia significativamente a diversidade e os genes de virulência da flora intestinal do hospedeiro.

Este ecossistema microbiano denso e diverso habita nosso corpo desde o nascimento até a morte e tem sido associado a múltiplos papéis fisiológicos e indução de suscetibilidade a muitas condições fisiopatológicas. A interação de nossa dieta com o microbioma e suas consequências na promoção da suscetibilidade a doenças são amplamente pesquisadas. Tanto a composição quanto a função da microbiota são moduladas e podem ser alteradas rapidamente pela dieta, como uma dieta rica em gordura.

Composições (tipos de bactérias) e funções distintas do microbioma foram determinadas como tendo um papel causal no ganho de peso em camundongos e humanos e associado à propensão para diabetes tipo 2 e síndrome metabólica. Assim, o microbioma pode servir como um centro de canalização dos efeitos da dieta na saúde do hospedeiro e na propensão a doenças. Adoçantes artificiais podem estar sujeitos a interações com o microbioma e, consequentemente, exercer seus efeitos no hospedeiro.

Estudos com ratos demonstraram que ratos no grupo do aspartame consumiu menos calorias e ganhou menos peso; contudo, eles exibiram mais hiperglicemia em jejum e prejuízo mais significativo no teste de tolerância à insulina, independentemente de sua composição de gordura corporal. Também foi demonstrado que tanto em ratos magros quanto obesos, a ingestão de adoçantes artificiais (sacarina, sucralose e aspartame) levou a um maior aumento da intolerância à glicose em comparação com a ingestão de glicose (açúcar).

Essas descobertas ilustram que o efeito do adoçante artificial em parâmetros metabólicos, incluindo resistência insulínica, é pelo menos em parte devido a alterações no microbioma.

Adoçantes artificiais como estratégia para perda de peso em obesos

Em um relatório publicado em julho deste ano no Journal of the American Heart Association, pesquisadores do Boston Children’s Hospital estudaram o que aconteceu quando os consumidores de refrigerante passaram a beber água ou bebidas adoçadas artificialmente. Os pesquisadores recrutaram 203 adultos que consumiam pelo menos uma bebida açucarada por dia; apenas alguns deles estavam acima do peso.

Os pesquisadores os dividiram em três grupos. Um grupo recebeu entregas de bebidas adoçadas artificialmente. Outro grupo recebeu remessas de água pura e com gás. Um terceiro grupo, servindo como controle, continuou seu padrão normal de ingestão de bebidas açucaradas.

Depois de acompanhar os grupos por um ano, os pesquisadores não encontraram nenhuma diferença geral no ganho de peso ou em outros marcadores de saúde metabólica, como alterações nos níveis de colesterol ou triglicerídeos. Mas quando eles olharam especificamente para as pessoas com altos níveis de obesidade abdominal, os resultados foram surpreendentes.

Pessoas que carregavam mais gordura central – um importante fator de risco para doenças metabólicas – tiveram um ganho de peso significativamente menor quando mudaram de bebidas açucaradas para bebidas dietéticas ou água. Nesse grupo, aqueles que beberam bebidas dietéticas ganharam cerca de meio quilo durante o estudo, enquanto aqueles que mudaram para a água perderam cerca de meio quilo. Mas as pessoas com altos níveis de gordura abdominal que continuaram a beber bebidas açucaradas ganharam em média 4,5 kg.

Os adoçantes não nutritivos, que podem ser centenas de vezes mais doces que o açúcar, parecem fazer mais do que apenas ativar os receptores gustativos na língua. Alguns estudos descobriram que eles podem estimular mudanças deletérias na microbiota intestinal, interromper o controle de açúcar no sangue e influenciar os níveis de insulina. Também há evidências de que podem promover uma preferência por alimentos intensamente doces.

Estévia, um adoçante natural

Os adoçantes de glicosídeo de esteviol são extraídos e purificados da planta Stevia rebaudiana Bertoni, um membro da família Asteraceae ( Compositae), família nativa da América do Sul, onde é usada por suas propriedades doces há centenas de anos.

Com o aumento contínuo das taxas de obesidade, diabetes e outras comorbidades relacionadas, em conjunto com políticas públicas globais que pedem reduções na ingestão de açúcar como um meio de ajudar a conter esses problemas, adoçantes de baixa e nenhuma caloria, como a estévia, estão ganhando interesse entre consumidores e fabricantes de alimentos. Esse apelo está relacionado ao fato de a estévia ser à base de plantas, zero calorias e com um sabor doce que é 50–350 vezes mais doce que o açúcar, tornando-a uma excelente escolha para uso em alimentos e bebidas com baixo teor de açúcar e calorias.

Estévia é um adoçante natural, quase 300 vezes mais doce que a sacarose, sendo atribuído aos seus fitoconstituintes efeitos antioxidantes, antimicrobianos, antidiabéticos (anti-hiperglicêmicos, insulinotrópicos e glucagonostáticos), antiplaquetários, anticariogênicos e antitumorais.

Vários estudos destacaram o potencial da estévia na redução do risco de eventos cardiovasculares, na maioria dos casos mostrando um adjuvante positivo no tratamento da hipertensão e diabetes. Ela tem efeitos antibacterianos e antitumorais e não foi relatado algum tipo de efeito genotóxico em humanos. No entanto, mais pesquisa é necessária para compreender o mecanismo de ação por trás de seus efeitos funcionais. Desta forma, o uso de estévia pode ser otimizado em seu uso como adoçante de baixa caloria e considerado ingrediente ativo pelas indústrias farmacêutica e cosmética.

Xilitol, um adoçante natural de baixa caloria

Os álcoois de açúcar (também chamados de polióis) são caracterizados por um conteúdo calórico inferior (2 a 4 kcal / g) do que a sacarose. Os polióis mais comuns são sorbitol, xilitol, maltitol, manitol, eritritol, isomalte e lactitol.

O xilitol é um adoçante natural encontrado em frutas, vegetais e aveiaDevido ao seu baixo conteúdo calórico (2,5 kcal / g) e baixo índice glicêmico, o xilitol tem sido sugerido há muito tempo como uma alternativa válida à glicose e sacarose em pacientes com diabetes. Estudos clínicos com administração de xilitol por pelo menos um mês demonstrou melhorar a tolerância à glicose, desaceleração significativa no esvaziamento gástrico, indução da saciedade de curto prazo e papel na regulação da secreção de insulina.

Com relação aos efeitos sobre a microbiota intestinal, a maioria dos adoçantes afetam a composição intestinal bacteriana, podendo induzir disbiose. Entre os adoçantes, os polióis parecem apresentar um bom perfil de segurança. Além disso, não são cariogênicos, não afetam negativamente a microbiota intestinal e são caracterizados por um valor energético muito baixo. Os potenciais efeitos favoráveis dos polióis na homeostase da glicose podem sugerir seu uso como uma opção válida em indivíduos com diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, embora mais pesquisas sejam necessárias nesta área.

Nesse contexto, um aconselhamento médico e/ou nutricional cuidadoso é essencial para um uso consciente e para uma transição correta, por meio do uso de adoçantes, dos alimentos açucarados para os sem açúcar. O papel dos nutricionistas parece, portanto, fundamental para recomendar uma dieta com o uso adequado de adoçantes, evitando o risco do uso excessivo desses compostos.

Referências bibliográficas:

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Fonte: Eu Atleta - Por Guilherme Renke



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