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Agricultores recorrem a aluguel de colmeias para melhorar produção de maçã, café e outros grãos

Compartilhe:     |  6 de outubro de 2019

Comum em outros mercados, o aluguel de abelhas para ajudar a melhorar a produção das lavouras ainda é pouco praticado no Brasil. Mas já começam a surgir no país startups dedicadas a conectar agricultores e apicultores para promover a chamada polinização assistida.

Nos Estados Unidos, cerca de 70% dos criadores de abelhas já são especializados no serviço. Aqui, nem 10% das 2,5 milhões de colmeias são alugadas, segundo estimativa do pesquisador Cristiano Menezes, da Embrapa Meio Ambiente.

Algumas culturas são extremamente dependentes de polinizadores para produzir, como maçã, melão, abóbora e amêndoas. Em outras, o trabalho das abelhas não é essencial, mas pode trazer ganhos de produtividade, melhorar a qualidade dos frutos ou aumentar a quantidade de sementes. É o caso do café, da laranja, do tomate e da soja, entre outros.

“Maçã é a cultura que hoje aluga mais colmeias no Brasil, e são cerca de 50 mil por ano. Nos EUA, são 2 milhões só para amêndoas”, diz Menezes. “Aqui o serviço ainda geralmente é informal, desorganizado, sem muita técnica, às vezes as caixas não são colocadas no lugar certo.”

O G1 visitou uma fazenda de café que está testando o aluguel de abelhas, com a ajuda de uma startup que criou um aplicativo para conectar apicultores e agricultores, uma espécie de “Uber das abelhas”. Veja no vídeo.

O mercado potencial é grande. O valor do serviço de polinizadores presentes na natureza (não apenas de abelhas alugadas) para a produção de alimentos no Brasil foi estimado em R$ 43 bilhões em 2018, segundo estudo da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e da Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP).

O número é calculado multiplicando-se a taxa de dependência de abelhas de cada cultura pelo valor de sua produção. Para o ano passado, cerca de 80% da quantia veio de quatro grandes cultivos: soja, café, laranja e maçã. O levantamento inclui a polinização feita por abelhas, borboletas, vespas e outros insetos, além de morcegos.

Algumas culturas não produzem sem a ação de polinizadores, veja nível de dependência — Foto: Wagner Magalhães/Arte G1

Algumas culturas não produzem sem a ação de polinizadores, veja nível de dependência — Foto: Wagner Magalhães/Arte G1

Segundo Menezes, no Brasil, a polinização assistida já se popularizou de maneira informal entre os produtores de melão e maçã – culturas totalmente dependentes das abelhas. Nas demais, raramente é utilizada, porque medir o ganho de produtividade proporcionado não é simples.

No caso do café, a ação dos polinizadores naturalmente presentes no ambiente aumenta a produção em 10% a 40%, segundo o relatório da BPBE e da REBIPP. O aluguel de abelhas vem como um reforço, e pode levar a um incremento ainda maior, explica o pesquisador.

“Mas os produtores, principalmente de arábica, usam muito pouco, porque estão acostumados com décadas de trabalho que já trazem um nível de produtividade aceitável.”

Produtividade 50% maior

O cafeicultor Alexandre Leonel está testando a polinização assistida e observou 50% de aumento na produtividade com a ajuda das abelhas — Foto: Celso Tavares/G1

O cafeicultor Alexandre Leonel está testando a polinização assistida e observou 50% de aumento na produtividade com a ajuda das abelhas — Foto: Celso Tavares/G1

O cafeicultor Alexandre Leonel é um dos que estão testando o serviço. Sua fazenda, em Franca, São Paulo, recebeu abelhas durante a florada, em agosto, pelo segundo ano consecutivo. A área polinizada ainda é pequena: elas foram instaladas em 5 dos 110 hectares plantados com arábica, mas o resultado animou o empresário.

“Em 2018, a produtividade por pé da área polinizada [com as abelhas alugadas], comparada com a não polinizada, foi em torno de 50% maior”, conta Leonel, lembrando que a florada foi irregular naquele ano e que a área de teste foi de apenas 1 hectare. “A tendência é ir ampliando”, diz.

Da primeira vez, as abelhas levadas à fazenda de Leonel foram as africanizadas, as mais conhecidas, com ferrão, do gênero Apis. Neste ano, foi a vez das tubunas e mandaguaris fazerem o trabalho – são abelhas nativas do Brasil, sem ferrão, do gênero Scaptotrigona.

A espécie mais indicada vai depender da cultura. Para o café, essas três funcionam porque são populosas e “fáceis de criar”, e conseguem atender plantações em grande escala.

“Para o morango, são adequadas a africanizada e a jataí. A mandaguari a gente já testou, mas ela não gosta da flor. Para o tomate, a africanizada já não serve, porque tem que morder e vibrar a flor para tirar o pólen, e ela não faz isso. Nesse caso são indicadas a abelha mandaçaia ou a uruçu, que são sem ferrão e de grande porte”, explica Menezes, da Embrapa.

O resultado também varia. No morango, por exemplo, a polinização ajuda a reduzir a deformação dos frutos. No feijão, aumenta a produção de sementes.

“Mesmo para culturas que são pouco dependentes da polinização, como a soja, o café e a laranja, quando as abelhas estão presentes, os frutos e as sementes acabam sendo maiores, mais homogêneos e o valor de mercado desses produtos aumenta”, diz Charles dos Santos, biólogo e cofundador da ApiAgri, startup que está desenvolvendo um serviço de polinização assistida.

Viagem de 100 km

Florada do café dura de três a cinco dias — Foto: Celso Tavares/G1

Florada do café dura de três a cinco dias — Foto: Celso Tavares/G1

Quem alugou as abelhas para o Alexandre Leonel neste ano foi Marcelo Ribeiro, conhecido como Batata. Ele tem um apiário em Jacuí, Minas Gerais, a pouco mais de 100 quilômetros de Franca, e produz cerca de meia tonelada de própolis anualmente. Tem cerca de 800 colmeias de abelhas africanizadas e outras 250 de espécies sem ferrão.

Elas foram levadas três dias antes da florada e ficaram no local por 10 dias. A flor do café tem vida curta e permanece aberta por três a cinco dias.

Foi a primeira vez que o Batata prestou esse serviço, por intermédio da startup AgroBee, de Ribeirão Preto, que conecta apicultores a produtores rurais interessados na polinização assistida. A ApiAgri, com sede em Sorocaba, também está começando a atuar nesse mercado.

Os biólogos da AgroBee é que avaliam a quantidade de caixas necessárias, o lugar mais apropriado para colocá-las e a espécie de abelha indicada, de acordo com os objetivos dos agricultores.

“Fazemos também auditoria nas colmeias para ver se elas atendem os requisitos exigidos, como quantidade de abelhas, sanidade, se estão produzindo cria – porque aí elas vão necessitar de alimento e não servem para a polinização”, diz Arthur Nascimento, biólogo da startup.

Pelo serviço, a empresa cobra uma porcentagem (não revelada) do aluguel pago ao apicultor, que fica responsável pelo transporte e instalação das colmeias nas fazendas.

Outra questão que precisa ser controlada com cuidado é o uso de agrotóxicos nas lavouras que recebem as abelhas – os apicultores têm indenização garantida em contrato em caso de morte ou dano aos enxames.

Na fazenda do Alexandre Leonel, as colônias foram instaladas na parte orgânica da lavoura, o que significa que aqueles pés de café estão há pelo menos 36 meses sem receber herbicidas ou adubos químicos. Dos 110 hectares, 60 já são de café orgânico. Nessa área, que é irrigada, a produtividade gira em torno de 40 a 50 sacas por hectare.

“O plano é ampliar as áreas de polinização assistida na medida em que as lavouras vão sendo convertidas para orgânico e vão ganhando certa estrutura para poder acomodar as colmeias com segurança”, diz.

Preço varia

O apicultor Marcelo Ribeiro, conhecido como Batata, começou a alugar suas abelhas neste ano — Foto: Celso Tavares/G1

O apicultor Marcelo Ribeiro, conhecido como Batata, começou a alugar suas abelhas neste ano — Foto: Celso Tavares/G1

Batata recebeu R$ 45 por cada uma das 30 caixinhas que colocou na fazenda de café do Alexandre. A quantia paga pelo agricultor não foi divulgada. Nos EUA, apicultores chegam a receber US$ 200 por colmeia alugada para as lavouras de amêndoa, segundo Menezes, da Embrapa.

A AgroBee diz que os valores podem variar de acordo com o tamanho da área polinizada, a demanda por colmeias e outros fatores como a compra ou não do mel produzido durante o período do aluguel.

A startup tem cadastradas mais de 30 mil colmeias de diversas espécies, e mais de 5 mil hectares de plantações café, morango, abacate, hortifruti, entre outras. A AgroBee lançou recentemente um aplicativo para facilitar a conexão entre os produtores e os apicultores, uma espécie de “Uber das abelhas”, disponível para Android.

A concorrente ApiAgri tem hoje 30 criadores de abelhas cadastrados e está formando a base de agricultores. Ela lança seu aplicativo em novembro.

Vale a pena para o apicultor?

Ao contrário dos Estados Unidos, onde muitos apicultores tiram sua renda apenas da polinização, no Brasil, as colmeias alugadas normalmente são as mesmas usadas para a produção de mel, ou de outros produtos como própolis e pólen.

Por isso, a viabilidade para o criador vai depender do período do aluguel. “Depende do foco do apicultor. No caso do café, a floração coincide com o período de safra de mel no Sudeste, por exemplo”, explica Cristiano Menezes.

Para o Batata, o negócio valeu a pena. “Faz dois ou três anos que eu trabalho com abelhas sem ferrão e elas nunca tinham dado resultado, porque dão muito pouco mel e ainda não achei mercado para o própolis delas. Aí o aluguel já é uma fonte de renda”, conta. O própolis que ele vende é produzido pelas abelhas africanizadas.

O apicultor pretende dar continuidade nesse negócio. “Ah, eu gostei demais. Sempre que aparecer assim, perto, eu pretendo alugar de novo. Se for muito longe o custo não compensa, dá muito trabalho”.

Desaparecimento das abelhas

Abelhas tubunas, sem ferrão, em colônia — Foto: Celso Tavares/G1

Abelhas tubunas, sem ferrão, em colônia — Foto: Celso Tavares/G1

Se o aluguel de abelhas é mais comum nos EUA do que aqui, a necessidade de reforçar a polinização nas lavouras norte-americanas também é diferente. O país sofreu, a partir de 2006, uma síndrome conhecida como distúrbio do colapso das colônias (DDC, na sigla em inglês), que fez milhões de abelhas simplesmente desaparecem das colmeias. As causas do problema ainda não foram totalmente identificadas pelo cientistas.

“Essa síndrome foi perdendo força, os apicultores aprenderam a lidar com ela, multiplicaram as colmeias e o número de abelhas hoje é praticamente estável. No Brasil não há registro de DDC, o que temos são casos pontuais de intoxicação aguda”, afirma Menezes.

Só neste ano, foram registradas mortes de grande quantidade de abelhas no Rio Grande do SulSanta Catarina, São Paulo e Pernambuco, em geral associadas ao uso incorreto de agrotóxicos.



Fonte: G1 - Luísa Melo



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