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Água do rio onde João Pessoa nasceu é imprópria para consumo, diz UFPB

Compartilhe:     |  4 de agosto de 2014
Projeto prevê também a revitalização do Rio Sanhauá  (Foto: Juliana Brito/G1)
Desequilíbrio da cadeia alimentar do Rio Sanhauá prejudica comunidades ribeiras (Foto: Juliana Brito/G1)

 

Entranhado na história de João Pessoa, o Rio Sanhauá é responsável pelo cenário de beleza que reflete para os visitantes no Centro Histórico, mas de perto sofre. Nas águas do rio, afluente do Paraíba, há altos teores de chumbo, mercúrio, alumínio e Demanda Biológica de Oxigênio (DBO). Isso seria, segundo a professora do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Cláudia Coutinho, o suficiente para reprovação de atividades primárias como banho, nadar e até o consumo da água.

O resultado da análise semestral feita em 2014 faz parte do relatório do projeto ‘Monitoramento Ambiental do Antigo Lixão do Roger’, desenvolvido pelo Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O acompanhamento tem sido realizado desde 2006 e estuda os impactos do lixão mesmo após a desativação, concretizada em 2003.

O Lixão do Roger foi fundado em 1958  no bairro do Roger para receber o lixo produzido em João Pessoa e, em 2003, quando foi fechado, os 17 hectares do local recebiam diariamente 1 mil toneladas de detritos. Com o lixo depositado às margens do rio, o problema permaneceu no local mesmo depois do fechamento.

Os pesquisadores da UFPB identificaram que os índices de várias substâncias estão acima do que prevê uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), segundo Cláudia Coutinho. “O rio está bastante comprometido. Não podemos culpar só o Lixão. É uma área que tem todo o seu entorno ocupado por oficinas, postos, fábricas e residências que despejam a olho nu os esgotos no rio. Nós já encontramos fogão e até sofá jogados no rio. É preciso uma mudança de comportamento também da população”, enfatizou.

Caracterizado pela água salobra, o Rio Sanhauá tem, para além da importância histórica, a de ser fonte de sustento de várias famílias que dependem da pesca. Não há dados sobre o risco para as espécies, segundo Cláudia Coutinho, mas sobram relatos de pescadores sobre a redução da quantidade de pescados. “No rio há muita captura de camarão, peixes e ostras, mas muitos pescadores falam que tem reduzido a quantidade dos pescados. O rio está muito mal tratado e a vizinhança acaba sentindo”, explicou.

Poços cavados

O relatório se baseia na análise das amostras de águas superficiais e profundas, além de sedimentos retirados do Rio Sanhauá. O monitoramento inclui também as águas retiradas de poços cavados com profundidade de 8m até 12m dentro do antigo Lixão do Roger e de coleta em mais dois pontos no rio, após o lixão nas proximidades de Mandacaru.

O monitoramento é realizado por três professores e oito alunos dos cursos de graduação e pós graduação vinculados ao Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O relatório semestral de 2014 foi encaminhado para dois órgãos: Emlur e a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema).

Meninas brincam em meio ao lixo, que ainda é visível, no Lixão do Roger, em João Pessoa. (Foto: Aline Oliveira/G1-PB)
Lixão desativado há dez ano, é apontado como um dos poluidores do rio (Foto: Aline Oliveira/G1-PB)

 

Solução passa por urbanização

Os esgotos residenciais do Baixo Roger, Comunidade do S e Porto do Capim estão entre os principais e mais constantes poluidores do Rio Sanhauá, segundo a coordenadora do projeto,  Cláudia Coutinho. A solução a médio prazo, segundo ela, estaria em um conjunto de medidas que tenham como objetivo conter as fontes causadoras da poluição.

A conclusão da segunda parte da recuperação do antigo Lixão do Roger, sob a responsabilidade da Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (Emlur), é uma das medidas apontadas por Cláudia Coutinho como amenizador do quadro de poluição na área.                                                                                                                                                                                                                                                                                   De forma complementar, a coordenadora do projeto de monitoramento do antigo Lixão do Roger aponta que é preciso retirar os esgotos clandestinos e implantar a dragagem do rio. “O rio é recuperável. Mas, para isso é preciso retirar todo o lançamento de esgotos clandestinos que, apesar de ter esse nome, a gente vê lá a olho nu e realizar a dragagem. A poluição causa desequilíbrio na cadeia alimentar e atinge economicamente a população”, reforçou.

Órgãos dizem monitorar a área

A recuperação da área de 19 hectares do antigo lixão do Roger passa desde 2003 pelo processo de bioremediação, segundo o coordenador do Departamento de Destino Final da Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana, Edmilson Fonseca. “O antigo lixão do Roger praticamente deixou de contaminar o rio após a recuperação de três das cinco células em que toda a extensão foi dividida”, disse.

Segundo o gestor, a remediação da contaminação se dá com a implantação de tubulações horizontais para drenar o ‘chorume’, líquido gerado no lixo pela união da água de matéria orgânica, umidade do próprio lixo e enzimas das bactérias que se dissolvem; e tubulações verticais que têm o intuito de drenar os gases que se formam durante a decomposição do material orgânico. O investimento para cada recuperação de ‘célula’ é em torno de R$ 1 milhão.

Trimestralmente, a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) coleta amostras nos recursos hídricos do estado. Segundo coordenador de Medições Ambientais, Joel Neto,  “No caso de serem evidenciadas alterações ou mesmo atividades com
potencial poluidor, o evento é comunicado a fiscalização para que sejam
tomadas as ações descritas na lei de crimes ambientais”, frisou.

Cidade de João Pessoa nasceu às margens do Rio Sanhauá (Foto: Juliana Brito/G1)
João Pessoa nasceu às margens do Rio Sanhauá (Foto: Juliana Brito/G1)

 

As três áreas do entorno do Rio Sanhauá formadas pelo Baixo Roger e as comunidades do S e Porto do Capim não integram a rede de esgotamento sanitário operado pela Cagepa. Segundo o órgão, “possivelmente os esgotos que estão sendo lançados indevidamente são provenientes de águas servidas dos próprios domicílios existentes no local”.

A Cagepa ressaltou que segunda quinzena de julho, a Caixa Econômica aprovou a contratação do Projeto de Universalização do Sistema de Esgotos Sanitários de João Pessoa,  Cabedelo e Conde. Ao final da implantação do projeto, orçado em R$ 3 milhões oriundos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os três municípios terão 100% de cobertura de coleta e tratamento de esgotos, o que beneficiará a área do entorno do Rio Sanhauá.

Berço da cidade

O Rio Sanhauá é considerado o berço de João Pessoa, que nasceu às margens do rio há 429 anos com o nome de Cidade Real de Nossa Senhora das Neves, fazendo o caminho inverso de muitas cidades litorâneas do Brasil, que se desenvolveram da costa para o interior. Durante muito tempo a cidade se desenvolveu nas proximidades do rio.

Somente a partir dos anos 1940, com a segunda intervenção urbanística na Lagoa do Parque Solon de Lucena, a capital paraibana começou a crescer em direção ao mar.



Fonte: G1 PB - Wagner Lima



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