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Água mais antiga do mundo tem entre 1 bilhão e 2,5 bilhões de anos

Compartilhe:     |  20 de dezembro de 2014

Não estamos sós. A milhares de quilômetros de profundidade, onde há mais água do que em toda a superfície do planeta, pequenas formas de vida podem estar se multiplicando. Estes organismos remontam a até 2,5 bilhões de anos e poderiam contar novos detalhes sobre a origem da Terra.

Os seres desconhecidos viveriam em uma área superior à soma de todos os oceanos, lagos, pântanos e rios do mundo. Sua origem seria fruto de uma reação química da água com a crosta continental. O resultado seria a liberação de hidrogênio, uma potencial fonte de alimento.

Professora de Microbiologia da Universidade de Toronto, no Canadá, Barbara Sherwood Lollar pesquisou reações químicas subterrâneas dentro de 19 minas — uma delas, no país, de 2,4 quilômetros de profundidade. Com base em seu levantamento, ela acredita que grandes áreas da crosta profunda estariam abrigando vida. Até hoje, poucos estudos abordam esta possibilidade.

— Esta é uma grande quantidade de rochas que, muitas vezes, ignoramos em dois aspectos: na sua possibilidade de contar acontecimentos do passado e as reações químicas ali presentes, que poderiam mostrar eventuais condições de vida — explica Barbara, autora chefe do estudo, publicado na revista científica “Nature”.

Cláudio Gonçalves Tiago, pesquisador do Centro de Biologia Marinha da USP, corrobora a tese da cientista canadense.

— A produção de hidrogênio na crosta continental sempre foi negligenciada pela ciência. Este trabalho pode ser uma prova de que a substância também está ali e, assim, permitiria a existência de alguma formação de vida nesta região profunda — avalia. — Seriam formas muito antigas, de até 2,5 bilhões de anos. Levando em conta que o planeta tem 6 bilhões de anos, eles nos dariam uma documentação inédita sobre nossa origem.

O pesquisador cogita que a crosta seria lar de formas de vida ainda mais primitivas do que organismos.

— Um dos princípios da biologia cósmica é de que a Terra seria o resultado de uma chuva de moléculas orgânicas que vieram do espaço. Pode ser que encontremos estas moléculas sob o oceano.

‘GIGANTE ADORMECIDO’

A cientista define as rochas profundas como um “gigante adormecido”, um depósito onde é possível encontrar dados sobre históricos da atmosfera terrestre. Perfurações cada vez maiores mostram que a água é tão antiga como a própria crosta.

— A maioria dos estudos sobre a vida na superfície concentra-se em sistemas de oceano marinhos, como sedimentos ou fontes hidrotermais. Os processos de alta temperatura entre água e rocha que já conhecemos produz energia para vida microbiana — afirma. — Até agora, no entanto, as pessoas não perceberam que reações semelhantes podem ocorrer na crosta continental. É por isso que tentamos acordar o gigante. Queremos mudar a compreensão de como a superfície da Terra pode ser habitável, e há muitos locais que ainda podem ser explorados e poderiam indicar formas de vida.

Em entrevista à rede BBC, Chris Ballentine, coautor da pesquisa de Toronto, afirmou que a idade da água é apenas uma das surpresas reveladas pela perfuração:

— É impressionante como a água está preservada e mantida por tanto tempo. E pensar que, por baixo de nossos pés, há muito mais do que apenas rochas. Até agora, ninguém considera que hidrogênio poderia ser produzido na crosta continental. Mostramos como isso está errado, e que ele está presente tanto ali como no resto do planeta.

Barbara e Ballentine, porém, admitem que ainda está cedo para saber se a região estudada seria habitável.

— Queremos agora seguir o “mapa do tesouro”, ir a estes sítios e definir qual é a extensão dessas hidrosfera, ver a extensão de cada era histórica, e tentar entender as diferenças entre os tipos de vista que poderemos encontrar em cada fratura da crosta — enumera a pesquisadora. — E é ainda mais excitante que, se entendermos o limite da vida, entenderemos também o que não vemos na superfície.

Outro estudo, apresentado esta semana pelo Programa Internacional de Descobrimento do Oceano, encontrou micro-organismos que vivem a 2,4 mil metros abaixo do nível do mar, próximo à costa japonesa. Os organismos unicelulares sobrevivem neste ambiente com base em uma dieta de baixa caloria de compostos de hidrocarbonetos. Outro mecanismo fundamental para sua vida seria o metabolismo lento, de acordo com a pesquisadora Elizabeth Trembath-Reichert, do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Como os organismos expelem metano, um gás de efeito estufa, ele poderia ter um grande impacto sobre o clima terrestre. Os pesquisadores também avaliam que, se eles são capazes de sobreviver em condições tão extremas na Terra, poderiam adaptar-se a outros planetas.

A história geológica do planeta também já passou por Juína, no interior do Mato Grosso. Um estudo publicado na “Science” por pesquisadores britânicos, americanos e brasileiros mostrou a existência na região de diamantes a até 600 quilômetros abaixo do solo, no manto interior da Terra. Nenhum outro lugar do planeta tem um grupo de minerais tão significativo. Os diamantes são a matéria-prima ideal para pesquisas de geologia, devido à sua longa durabilidade.



Fonte: O Globo - Renato Grandelle



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