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Álcool em gel contaminado e bebidas contrabandeadas estão intoxicando as pessoas

Compartilhe:     |  23 de agosto de 2020

Muitas pessoas entraram em coma, e as que permaneceram conscientes tiveram crises de náuseas, vômitos e hiperventilação. Algumas pessoas tiveram problemas renais e de visão, o que é ainda mais assustador. Um mundo que se apresentava de forma nítida, agora parecia um canal de TV com sinal ruim. De repente, a visão parou de funcionar por completo.

Quando esses pacientes começaram a chegar às emergências dos hospitais em todo o Irã no fim de fevereiro, os médicos não conseguiam entender o que estava acontecendo. Hossein Hassanian-Moghaddam, toxicologista clínico do Hospital Loghman Hakim em Teerã, já sabia de que se tratava. Ao mesmo tempo em que casos do novo coronavírus devastavam o Irã em março, uma segunda epidemia assombrava o país: um surto de envenenamento por metanol.

À medida que o coronavírus se espalhava por todo o Irã, começou a circular um boato falso de que bebidas de alto teor alcoólico matavam o vírus no organismo. No desespero de proteger suas famílias, até quem normalmente não consumia álcool começou a procurar etanol, um ingrediente comum em bebidas consumíveis. Fornecedores ávidos por vender mais aproveitaram a oportunidade para ganhar dinheiro rápido e o Irã ficou rapidamente inundado em um líquido venenoso.

O maior — e mais mortal — incidente registrado pelos médicos, gerando 5,8 mil internações e, pelo menos, 800 mortes entre 23 de fevereiro e 2 de maio. Hassanian-Moghaddam conta que crianças pequenas também chegavam aos hospitais com envenenamento por metanol, pois haviam ingerido álcool contaminado dado pelos pais, que estavam preocupados e esperavam que isso pudesse prevenir a infecção por coronavírus.

E isso não aconteceu apenas no Irã. De acordo com os dados coletados pela organização Médicos Sem Fronteiras, 2020 já contabiliza cerca de sete mil casos e 1,6 mil mortes devido a envenenamento por metanol — ano com maior número de mortes já registrado. Knut Erik Hovda, médico do Hospital Universitário de Oslo e um dos principais especialistas em envenenamento por metanol do mundo, afirma que esses casos provavelmente representam apenas a ponta do iceberg.

“O envenenamento por metanol é um problema pouco conhecido”, acrescenta Hovda, “e também sabemos que apenas parte dos casos é diagnosticada”.

Em breve, países como o México, a República Dominicana e os Estados Unidos enfrentarão o envenenamento por metanol, também conhecido como álcool da madeira, que é utilizado como solvente industrial. Por ser barato e imitar as propriedades do etanol, o metanol é com frequência diluído em álcoois mais caros por fabricantes inescrupulosos. O problema é mais comum em países com regulamentações fracas ou que dependem do mercado paralelo de bebidas alcoólicas. Os surtos da covid-19 tornaram o etanol adulterado ainda mais frequente, levando a um aumento no envenenamento por metanol, presente tanto em bebidas alcoólicas comuns quanto no álcool em gel.

“Muitas das bebidas no mercado estavam contaminadas”, relata Hassanian-Moghaddam sobre a situação no Irã, “e não faltou gente para comprar álcool barato”.

Química venenosa

O metanol e o etanol são primos de primeiro grau. Ao passo que o etanol possui dois átomos de carbono, o metanol possui apenas um. Ambos são líquidos de cor clara, evaporam com facilidade e têm um sabor parecido, mas basta ingeri-los para perceber a diferença. Ao consumir uma dose de etanol de alto teor alcoólico, a maioria das pessoas se sentirá levemente alterada. Porém, ao fazer o mesmo com uma dose equivalente de metanol, pode ser que a pessoa não viva para contar a experiência. Menos de uma colher de sopa de metanol puro (10 mililitros) pode matar uma pessoa.

Nosso fígado utiliza enzimas, incluindo a álcool desidrogenase, para transformar o etanol de uma toxina leve em uma substância química inofensiva, denominada acetato. Mas o fígado também usa a álcool desidrogenase para quebrar o metanol — e é aí que começam os problemas.

Em vez de se tornar um alicerce químico inofensivo, o corpo o metaboliza em ácido fórmico tóxico. O ácido fórmico interfere na capacidade que uma célula possui de criar energia. Com o passar do tempo, ele pode privar as células do oxigênio e da energia de que precisam, o que pode se tornar um grande problema para os nervos ópticos que dependem da energia, deixando muitas vítimas de envenenamento por metanol com cegueira permanente.

A quebra do metanol também gera um desequilíbrio nos níveis rigidamente regulados de ácidos e bases no organismo, explica Frank Edwards, médico de emergência do Centro Médico Arnot Ogden em Elmira, Nova York.

“Em um caso de envenenamento por metanol, esse desequilíbrio é gerado pelo acúmulo de ácido fórmico”, esclarece.

Embora exames básicos de sangue muitas vezes forneçam indícios sobre envenenamento por metanol, diagnosticá-lo não é tarefa fácil. A maioria dos álcoois contaminados é composta por uma mistura de metanol e etanol, e a álcool desidrogenase decompõe todo o etanol do organismo antes de começar a formar o metanol. Dependendo da quantidade de etanol ingerida por uma pessoa, pode levar vários dias para que comece a apresentar sintomas de envenenamento por metanol. Portanto, essa pessoa pode não relacionar os seus sintomas atuais ao consumo de álcool, e os médicos nem sempre detectam essa relação, explica Kemal Canlar, fundador da SafeProof.org.

“Nos Estados Unidos, esses incidentes são automaticamente registrados como consumo excessivo de álcool ou intoxicação por álcool”, adiciona Canlar. “Não se faz testes para identificar se era metanol ou não”.

O esquema do contrabando

Diagnosticar envenenamento por metanol é difícil e muitas vezes por razões culturais. Em países islâmicos como o Irã, onde o álcool é ilegal, as pessoas costumam esconder que ingeriram álcool, por medo das repercussões, explica Hassanian-Moghaddam. O mesmo vale para quem, de forma intencional, consumiu produtos contendo metanol, como o fluido limpador de para-brisa. Como o envenenamento por metanol costuma alterar o estado de consciência das pessoas, pode ser uma tarefa impossível entrevistar os pacientes.

Contudo, caso os médicos consigam realizar um diagnóstico a tempo, o tratamento pode salvar vidas. “Desde que a pessoa chegue a tempo no meu consultório, garanto que sairá com vida”, diz Hovda.

Um medicamento de prescrição chamado fomepizol liga-se à álcool desidrogenase e a impede de transformar o metanol em ácido fórmico. Se o fomepizol não estiver disponível, os médicos podem tratar o envenenamento por metanol com o próprio etanol. Ambas as estratégias permitem que o corpo elimine o metanol antes que se transforme em ácido fórmico.

A noção de que o etanol é o principal antídoto para o envenenamento por metanol não é apenas irônica, mas também utilizada como a justificativa por fabricantes desonestos para adulterarem seus produtos, comenta Canlar. Os contrabandistas pensam que, contanto que haja um pouco de etanol, será possível neutralizar os efeitos nocivos do metanol. E há aqueles que simplesmente não sabem que o metanol é tóxico — ou simplesmente não se importam, lamenta. A Euromonitor International estima que cerca de 25% do mercado global de bebidas alcoólicas com valor de US$ 1,6 trilhão seja proveniente de vendas ilícitas. O álcool adulterado pode ser vendido como bebida barata disfarçada de bebida de alto padrão ou a própria mistura em metanol tóxico.

“Não importa se você consegue produzir seu próprio álcool a um custo baixo, pois sempre se consegue obter metanol industrial ainda mais barato. Ao misturar metanol na bebida alcoólica, você conseguiria vender muito mais álcool e ganhar muito mais dinheiro fazendo isso”, explica Hovda.

O assunto chamou a atenção da mídia nos últimos anos, depois que turistas que viajaram para a Indonésia, México e República Dominicana ficaram doentes ou morreram após terem consumido álcool contaminado. Em outros países onde a venda de álcool é proibida, a única forma de adquirir bebida alcoólica é no mercado paralelo. O etanol puro, de uso industrial, às vezes também contém metanol, amplamente utilizado para evitar seu uso indevido na adulteração de bebidas alcoólicas. Isso torna o álcool adulterado um grande problema em lugares como o Irã, segundo Hassanian-Moghaddam.

Apesar disso, nenhum país coleta dados com regularidade sobre o número de casos de envenenamento por metanol, provavelmente porque os cidadãos mais afetados são pobres ou marginalizados, e muitos também bebem em excesso, diz Hovda. É comum não poderem pagar por opções mais seguras, o que os deixa suscetíveis a bebidas alcoólicas contaminadas.

Como consequência, Hovda precisa coletar informações sobre envenenamentos por metanol em reportagens, o que é feito com um orçamento reduzido e em colaboração com alguns voluntários da Médicos Sem Fronteiras. O documento resultante desse trabalho é uma planilha simples da Google, a única fonte de dados que o mundo possui sobre casos de envenenamento por metanol.

O lado sujo da limpeza

Mesmo que o fenômeno seja muito mais raro nos Estados Unidos em comparação a outros países, devido a regulamentações mais rígidas de venda e distribuição de álcool, as pessoas afetadas pelo envenenamento por metanol nesse país tendem a ser desproporcionalmente pobres e pertencer a grupos minoritários, diz Susan Smolinske, diretora do Centro de Informações sobre Venenos e Drogas do Novo México.

Foi o que Smolinske descobriu em maio, quando recebeu um telefonema de seu colega Steve Dudley, do Centro de Informações sobre Venenos e Drogas de Phoenix, Arizona. Brooks havia recebido relatórios de médicos de emergência em todo o Arizona, relatando que algumas pessoas, a maioria homens entre 30 e 40 anos, chegaram aos hospitais com envenenamento por metanol. Depois de realizarem uma pesquisa similar no Novo México, Smolinske, Brooks e uma equipe de epidemiologistas dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças identificaram 15 casos de envenenamento por metanol nos dois estados, entre 1º de maio e 30 de junho. Quatro deles morreram e três ficaram com deficiência visual permanente. Segundo Smolinske, mais quatro pessoas foram hospitalizadas no Novo México em julho.

Todos os casos envolveram álcool em gel à base de etanol, fabricados no México e contaminados com metanol. Como a pandemia realocou o etanol para a produção de álcool em gel em cadeias de abastecimento já sobrecarregadas, os bloqueios impostos em ambos os estados também tornaram mais difícil para os dependentes de álcool encontrarem as bebidas de sua preferência. O resultado foi que as pessoas — quase todos homens entre 21 e 60 anos, com dependência de álcool — beberam um tipo de álcool em gel barato, que encontraram no mercado mais próximo e nos postos de gasolina.

Desde então, a Agência de Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) vem advertindo os cidadãos a respeito de diversos tipos de álcool em gel que podem causar contaminação. Smolinske acrescenta que o maior perigo reside no consumo oral desses produtos, visto que o contato com a pele provavelmente não é suficiente para causar grandes problemas.

“Mesmo com metanol 100%, seriam necessárias seis horas de imersão completa — ou submersão — para atingir o nível tóxico de metanol”, diz Smolinske, que cita um estudo de 1980, o qual mediu a que velocidade o metanol é absorvido pela pele. Porém, o uso de álcool em gel contaminado também pode causar náuseas, vômitos e problemas de visão — sem falar que o metanol não é eficaz para matar micróbios.

Embora o surto devastador de envenenamento por metanol no Irã tenha diminuído nas últimas semanas, a planilha de Hovda mostra um aumento de envenenamento por metanol em outras partes do mundo, de acordo com Hassanian-Moghaddam, incluindo México, Índia, Indonésia e República Dominicana. Reportagens coletadas pela SafeProof.org de Canlar também mostram um aumento nas bebidas adulteradas apreendidas, muitas delas contaminadas com metanol, em lugares como Camboja, Turquia e África do Sul.

Hovda espera que esses incidentes reforcem as características de envenenamentos por metanol em todo o mundo e que sirvam como estímulo para a produção de testes baratos e confiáveis para testar se as bebidas alcoólicas estão contaminadas ou não.



Fonte: National Geographic - CARRIE ARNOLD - FOTO DE NICK OXFORD, REUTERS



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