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“Amamentar é muito mais do que engordar um bebê. E pressionar a mãe por esse peso não ajuda em nada”

Compartilhe:     |  18 de julho de 2019

Conversávamos sobre o peso do bebê e eu tentava explicar para ela que essa informação sozinha, isolada das outras, não era suficiente para que se concluísse se o desenvolvimento da criança evoluía bem ou não, a não ser que fosse um caso extremo de ganho de peso muito baixo ou se fossem as primeiras semanas de vida de um recém-nascido. Mas não era o caso. Seu filho já tinha três meses.

Ela estava muito tensa com a aproximação da consulta pediátrica, pois ficava apavorada com a avaliação do médico quanto ao sucesso da amamentação.
Aquilo era um verdadeiro pesadelo para ela.
Foi durante essa troca de mensagens que ela então me disse que pesava seu filho várias vezes por dia. Ela não pensava em outra coisa o tempo todo.
Além disso, media sua produção de leite com a bombinha, o que é absolutamente inútil, ainda mais quando se está neste nível de ansiedade e angústia, aí é que o leite não desce mesmo, parece que faz greve!

Num certo momento ela me explicou que o pesava sempre antes e depois de cada mamada.
– Mas como assim? Perguntei incrédula.
– Assim mesmo. É porque eu quero saber o quanto ele está ganhando de peso a cada mamada.
Essa preocupação toda, ela me contou, começou quando, durante uma consulta, o pediatra lhe disse que se o bebê não ganhasse X gramas por dia ela teria que complementar as mamadas com leite artificial. Como ela estava determinada a amamentar exclusivamente no peito por seis meses e nem cogitava dar leite em artificial, resolveu perseguir seu objetivo obstinadamente.

A próxima consulta, tão temida, seria o dia D, quando haveria o confronto entre ela e este profissional.
Perguntei se ele havia observado a mamada, se a havia ensinado como aperfeiçoar a pega, para que o seu filho fizesse mamadas mais eficientes… e tudo aquilo que sabemos ser tão importante na consulta de um bebê que mama. Nada!
– E uma consultora em amamentação, ele indicou?

– Não. A consulta é muito rápida, nem dá tempo para eu contar como está correndo a amamentação.
O que temos aqui: uma mãe tensa e insegura, um pediatra inábil e um bebê esquecido. Sim, porque dele só se espera o ganho de peso.

Não faz o menor sentido controlar o peso de alguém assim, de hora em hora, seja bebê, criança ou até mesmo adulto.
E o mais importante, não faz o menor sentido colocar uma mãe nesta situação, em que ela fica sujeitada a prestar contas à um profissional que não tem o mínimo interesse por ela e pelo seu processo materno.

Amamentar é muito mais do que engordar um bebê, e é claro que, sim, ele tem que ganhar peso, que é aliás o que acontece natural e espontaneamente se a mãe é auxiliada, orientada, acolhida e apoiada. Mas não nessas circunstâncias de pressão, cobrança e terrorismo.

Por favor! Vamos abraçar a mãe que acaba de ter seu bebê. Vamos ouvi-la, respeitá-la, considerar sua condição tão única. A maternidade é um processo, uma construção que não está só a encargo da mãe e sim de toda a sociedade.
É isso que eu tenho para dizer hoje, e sempre, aliás acho que vou ser enterrada dizendo isso.

Chris Nicklas (Foto: Edu Rodrigues )


Fonte: Revista Crescer - Chris Nicklas



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