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Ameaça de hidrelétrica persiste na Patagônia chilena, segundo ambientalistas

Compartilhe:     |  25 de agosto de 2014

Após terminar em vitória a luta de quase uma década contra um projeto da HidroAysén, que pretendia construir cinco grandes hidrelétricas, a Patagônia se prepara para uma nova batalha: frear o avanço silencioso de outra represa no rio Cuervo. Esta central seria erguida em uma área despovoada, no entorno do lago Yulton, na região de Aysén, o paraíso hídrico do Chile.

Seu objetivo seria aliviar a precariedade que há décadas afeta o país em sua oferta de energia e que o mantém em acelerada busca por diversificar, aumentar e consolidar a matriz do setor. Entretanto, o projeto de Cuervo é “muito menos viável do que o da HidroAysén, por razões ambientais, de riscos e técnicas”, afirmou ao Terramérica o coordenador da coalizão da sociedade civil Aysén Reserva de Vida, Peter Hartmann, em uma opinião comum entre os ambientalistas da região.

O grande temor dos opositores ao novo grande projeto hidrelétrico é que sua aprovação ocorra sem problemas, a título de moeda de troca, após a rejeição definitiva da HidroAysén pelo governo da presidente Michelle Bachelet, no dia 10 de junho. Essa aprovação seria favorecida com uma decisão judicial que, no dia 21, deu um respaldo à central de Cuervo.

O Projeto Central Hidrelétrica Cuervo é desenvolvido pela Energia Austral, uma empresa mista dos grupos Glencore, da Suíça, e Origin Energy, da Austrália. Seria construída na nascente do rio, a 45 quilômetros de Puerto Aysén, a segunda cidade da região depois de Coyhaique, a capital.

Promete uma capacidade de geração total de aproximadamente 640 megawatts (MW), com potencial de reduzir sua emissão anual de 1,5 milhão de toneladas de dióxido de carbono por meio do Sistema Interligado Central do Chile (SIC). Sua linha de transmissão, ainda não confirmada, estuda as opções de um traçado submarino e outro aéreo-submarino.

Em 2007, a Comissão Regional do Meio Ambiente rejeitou um primeiro estudo de impacto ambiental (EIA) apresentado pela companhia. Dois anos depois, a Energia Austral apresentou um novo EIA, desta vez para a construção de um complexo hidrelétrico que acrescenta mais duas centrais, Rio Blanco, de 360 MW, e Lago Condor, de 54 MW, a ser desenvolvido posteriormente.

“Cuervo surgiu quando estava no auge a HidroAysén, e ela foi segunda prioridade na Campanha Patagônia Sem Represas”, explicou Hartmann, também diretor-regional do Comitê Nacional Pró-Defesa da Flora e da Fauna. “No início houve um acompanhamento bastante diligente do processo no âmbito legal, mas ficamos sem dinheiro e todas as prioridades foram para a HidroAysén e não para a hidrelétrica do rio Cuervo”, acrescentou.

Segundo os especialistas, a central de Cuervo implica um risco que transcende o ambiental, pois projeta sua construção sobre a falha geológica Liquiñe-Ofqui, uma zona formada por montanhas vulcânicas ativas. Por exemplo, o vulcão Hudson – que registrou, em outubro de 2011, um processo de erupção menor que manteve a região em alerta vermelho – está localizado “atrás da área onde seria construída a central Rio Blanco. A Energia Austral faz de tudo para não mencionar o vulcão Hudson, porque sabe no que está se metendo”, apontou Hartmann.

Em resposta, a empresa insiste que a central “será segura diante de fenômenos naturais, como terremotos e erupções vulcânicas”, e acrescenta que “a presença de falhas geológicas não é uma realidade exclusiva de Cuervo”. E mais, assegura que no Chile e no mundo existem muitas experiências de obras construídas sobre alguma falha geológica ou nas proximidades de um vulcão e que operaram normalmente mesmo depois de um evento sísmico.

Em 2013, as autoridades nacionais aprovaram a construção de Cuervo. Mas, alguns dias depois, o Supremo Tribunal de Justiça acolheu recurso de proteção apresentado por organizações ecologistas e civis, e ordenou um estudo integral sobre os riscos de sua construção. No dia 21, o Tribunal finalmente ratificou, por unanimidade, as autorizações ambientais dadas pelas instâncias do Executivo, o que facilitaria a aprovação do governo, para equilibrar a rejeição à HidroAysén.

“O Estado não é neutro em relação aos projetos de energia porque estamos interessados em projetos que nos ajudem a sair do déficit de infraestrutura que temos”, declarou em junho o ministro de Energia, Máximo Pacheco. Em julho, acrescentou que “o Chile não pode se sentir cômodo com uma participação tão baixa da hidroeletricidade em sua matriz energética, tratando-se de uma fonte limpa e abundante em nosso país”.

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O Chile tem capacidade instalada de aproximadamente 17 mil MW. Do total, 74% estão no SIC, 25% no Sistema Interligado Norte Grande, e menos de 1% nos sistemas médios das regiões de Aysén e Magalhães. Segundo o Ministério de Energia, a previsão é que a demanda elétrica chilena chegue em 2020 aos cem mil MW. Para atendê-la, é necessário incorporar oito mil megawatts de capacidade instalada ao sistema.

O Chile importa 60% da energia primária que consome. A hidroeletricidade fornece 40% e o restante vem dos combustíveis fósseis e contaminantes das centrais termoelétricas. Atualmente, 62% dos projetos em construção são térmicos. Além disso, 94% da capacidade térmica em construção é a carvão.

O secretário-geral de Energia, Juan Antonio Bijit, afirmou ao Terramérica que, além do enorme potencial hídrico que Aysén possui, “se analisarmos a matriz energética, veremos que está bastante carregada à termoeletricidade, assim, se considera lógico aumentar pelo lado da energia hidrelétrica”. A região de Aysén “possui atualmente uma geração de energia da ordem de 40 MW, que bastam somente para o consumo interno”, destacou.

Bijit pontuou que “nosso potencial é bastante grande” na área da hidroeletricidade, mas também em energia eólica e inclusive fotovoltaica. “A capacidade de geração é bastante grande na região. Porém, é preciso ver o que será gerado e como vamos fazê-lo”, acrescentou. E alertou que “é preciso analisar com a comunidade” as contribuições de energia que se fizer ao resto do país.

“Não podemos fazer coisas entre quatro paredes, por isso precisamos conversar com as pessoas. Foi realizado um painel prévio à decisão que foi tomada sobre a HidroAysén e agora estamos fazendo o mesmo com o projeto da Energia Austral e outros”, ressaltou Bijit. “A ideia é que as pessoas participem do que está sendo feito, ou deve ser feito, na área energética”, acrescentou.



Fonte: Terramérica



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