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Anfíbios infectados por ranavírus são detectados na Mata Atlântica

Compartilhe:     |  3 de julho de 2019

Descoberta causa preocupação pois o vírus, já detectado na natureza em outras partes do mundo, está associado a declínios de populações de anfíbios – o grupo de vertebrados mais ameaçado do planeta

Em duas lagoas na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, pesquisadores encontraram rãs, sapos e pererecas com sinais claros de infecção por ranavírus. O patógeno, que pode ser letal para esses animais, mas não afeta humanos, provoca ulcerações na pele, edemas e hemorragia interna.

Para além da cena de extermínio dos animais, o episódio ocorrido em novembro de 2017 revelava algo inédito: a detecção de anfíbios infectados por ranavírus na Mata Atlântica.

“A descoberta causa preocupação, pois pela primeira vez no Brasil foram identificadas a presença e a ação desse vírus na natureza. Houve relatos de epidemias em 2006 e 2009, porém, elas ocorreram em ranários, portanto em cativeiro. O vírus, já detectado na natureza em outras partes do mundo, está associado a declínios de populações de anfíbios – o grupo de vertebrados mais ameaçado do planeta”, disse Joice Ruggeri, pesquisadora do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) e primeira autora do artigo publicado no Journal of Wildlife Diseases.

A descoberta é fruto da pesquisa de pós-doutorado de Ruggeri, apoiada pela FAPESP. O objetivo do projeto foi identificar a dinâmica desse vírus em diferentes espécies de anuros e sua interação com outros patógenos, bem como possíveis desequilíbrios ou ameaças na Mata Atlântica.

Para isso, a pesquisadora coletou espécimes de anuros na natureza, desde o Rio de Janeiro até o Rio Grande do Sul. As lagoas em Passo Fundo, com os animais infectados por ranavírus, estavam entre os pontos de coleta.

“Encontramos esses lagos com muitos girinos e peixes mortos. Era um cenário de destruição. Agora estamos analisando todos os dados coletados, o que deve nos dar respostas interessantes sobre a relação entre os diferentes patógenos que ameaçam as populações de anuros na Mata Atlântica”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP.

A descoberta também levanta questões sobre a relação entre espécies invasoras e nativas. No artigo, pesquisadores relatam ter encontrado tanto girinos de espécies nativas quanto da invasora rã-touro (Lithobates catesbeianus) infectados pelo vírus. A rã-touro geralmente é tolerante ao ranavírus, podendo atuar como vetor do patógeno, o que reforça a hipótese, ainda não confirmada, de que as espécies invasoras estariam infectando as nativas.

O peso das espécies invasoras

A rã-touro, originária da América do Norte, é a principal espécie de anuro criada para o consumo humano. No Brasil, o segundo maior produtor de rãs do mundo, os ranários estão instalados sobretudo na região da Mata Atlântica que vai do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, a mesma em que os pesquisadores fizeram as coletas.

“Essa é uma atividade econômica que oscila muito. Desde 1990, vários ranários vêm sendo abandonados, o que resultou em diversos animais sendo liberados para a natureza”, disseLuís Felipe de Toledo, professor do IB-Unicamp e coautor do artigo.

Uma das hipóteses dos pesquisadores é que o vírus poderia ter se disseminado pela Mata Atlântica a partir dos ranários. “Sabemos que muitas dessas rãs escapam do cativeiro, podendo levar o vírus para a natureza. Mas ainda não sabemos ao certo se elas têm relação com o vírus detectado nos anuros nativos do Brasil”, disse Ruggeri.

Dupla ameaça

As descobertas não param por aí. Duas rãs-touro estudadas apresentavam coinfecção por ranavírus e pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis, causador da quitridiomicose e responsável pela maior perda de biodiversidade atribuível a um único patógeno em toda a história.

Em artigo publicado na revista Science, em março de 2019, pesquisadores de 16 países – entre eles Toledo – revelaram que o fungo provocou, nos últimos 50 anos, declínio nas populações de pelo menos 501 espécies de anfíbios.

“É mais uma ameaça a esses animais. Já se relacionou o fungo com extinções de anfíbios aqui no Brasil. Agora que encontramos casos de infecção pelo ranavírus questionamos: será que ele também não causou algum declínio ou extinção?”, disse Toledo.

Tanto o fungo quanto o vírus são transmitidos pela água ou pelo contato direto entre os indivíduos, o que torna a dispersão desses microrganismos extremamente eficaz. Enquanto o fungo compromete o equilíbrio eletrolítico dos animais, que morrem por parada cardíaca, o vírus pode causar morte celular em múltiplos órgãos.

“Ao ser infectado pelos dois patógenos, o anfíbio torna-se ainda mais vulnerável. Porém, ainda não sabemos as consequências dessa coinfecção”, disse Ruggeri.

Com a análise dos dados coletados, os pesquisadores vão investigar as estirpes do vírus encontrado no Sul do Brasil. “É possível que a linhagem do vírus seja brasileira. Vamos pesquisar também se a linhagem identificada na natureza é a mesma encontrada nos ranários. A descoberta abre várias linhas de pesquisa”, disse Toledo.

Matança de animais

Em uma das lagoas em que não havia girinos de rãs-touro, os girinos de anuros nativos que viviam por lá apresentavam níveis baixos do vírus.

Na outra lagoa, foram encontrados mais de 20 girinos de rãs-touro mortos e nenhuma espécie nativa de anuro. Todos os animais ali apresentavam lesões severas na pele e a presença de ranavírus. Os únicos dois girinos encontrados vivos na lagoa tinham índices baixos de infecção.

O fungo foi detectado em sete de 19 amostras de girinos mortos, incluindo os nativos e espécies invasoras (amostras coletadas nas duas lagoas). Porém, a carga de infecção por quitrídio era baixa, o que fez com que os pesquisadores descartassem a quitridiomicose como causa potencial de morte de anuros nessa lagoa.

Para os pesquisadores, apesar de as rãs-touro serem geralmente tolerantes ao ranavírus, foram detectadas altas cargas do patógeno no sangue dos animais e claros sinais clínicos de doença.

O artigo First Case of Wild Amphibians Infected with Ranavirus in Brazil (doi: 10.1038/s41467-019-08909-4), de Joice Ruggeri, Luisa P. Ribeiro, Mariana R. Pontes, Carlos Toffolo, Marcelo Candido, Mateus M. Carriero, Noeli Zanella, Ricardo L. M. Sousa e Luís Felipe Toledo, pode ser lido emhttps://www.jwildlifedis.org/doi/pdf/10.7589/2018-09-224 .

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.



Fonte: Revista Planeta - Maria Fernanda Ziegler - Agência FAPESP



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