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Após 50 anos do homem na lua, bilionários disputam nova corrida espacial

Compartilhe:     |  18 de julho de 2019

“Bem-vindo ao clube”. Foi dessa forma que Jeff Bezos parabenizou a SpaceX pelo sucesso com o retorno do primeiro estágio do Falcon 9 em dezembro de 2015, um marco no desenvolvimento de foguetes reutilizáveis. Elon Musk não deixou barato: “É importante esclarecer a diferença entre ‘espaço’ e ‘órbita’”, referindo-se ao fato de que o feito alcançando poucos dias antes pelo fundador da Amazon e da companhia espacial Blue Origin — o pouso vertical de seu veículo New Shepard — não poderia ser comparado com o feito da SpaceX por não ter alcançado a órbita do planeta.

Cinquenta anos após a missão que levou o homem pela primeira vez à Lua, as mensagens dão o tom à nova corrida espacial do século XXI. O que está por trás é uma revolução decorrente do rápido desenvolvimento tecnológico, criação de novos modelos de negócio, e mudanças nos marcos regulatórios que incentivam comercialização do espaço. Essas são as bases do chamado “New Space”: sai de cena a geopolítica da Guerra Fria e entra a comercialização do espaço.
Foguete Falcon 9 da Space X é lançado com sucesso do Centro Espacial Kennedy, na Flórida Foto: JIM WATSON / AFP
Foguete Falcon 9 da Space X é lançado com sucesso do Centro Espacial Kennedy, na Flórida Foto: JIM WATSON / AFP

 

MOTIVAÇÃO

Embora sejam apaixonados pelo espaço, os dois bilionários utilizam motivações distintas como fontes de inspiração. Musk chama a atenção para que aquilo que considera riscos existenciais — uma guerra nuclear, mudanças climáticas ou o impacto de um asteroide, por exemplo — como forma de justificar a colonização de Marte e garantir a sobrevivência da espécie humana.

Para Bezos, o espaço gerará soluções para os problemas de desenvolvimento sustentável na Terra. Ele propõe a transferência das atividades industriais para fora do planeta a fim de reduzir a poluição. Também acredita que a abundância de energia solar e recursos minerais em outros corpos celestes ajudará a preservar o planeta. Além disso, Bezos sugere que o desafio com crescimento populacional poderá ser mitigado com a presença de colônias espaciais na órbita terrestre.

MODELOS DE NEGÓCIO

Até alguns anos atrás, pouco se sabia da empresa Blue Origin. A empresa de Jeff Bezos criou seu primeiro veículo suborbital reutilizável New Shepard de maneira quase secreta por quase uma década. Isso só foi possível porque Bezzos tem investido US$ 1 bilhão por ano do próprio bolso, financiando a empreitada com a venda de suas ações da Amazon.

Por outro lado, a SpaceX quase foi à falência quando seus três lançamentos iniciais falharam. Felizmente a empresa conseguiu apoio adicional de investidores privados para continuar os testes e, a partir daí, a empresa de Elon Musk se tornou a principal referência do New Space. Por questão de necessidade, a SpaceX priorizou a geração de receita desde o início, chegando a confrontar o establishment espacial para que pudesse competir por contratos da NASA e das forças armadas americanas.

 

A Blue Origin está desenvolvendo foguetes de lançamento que podem ser reutilizados Foto: Blue Origin
A Blue Origin está desenvolvendo foguetes de lançamento que podem ser reutilizados Foto: Blue Origin

 

DIFERENTES ESTILOS

Se a nova corrida tem uma cara, é difícil imaginar que não seja a de Elon Musk, resultante da ampla exposição pública da SpaceX. Exemplo disso foi a cobertura do lançamento do Falcon Heavy em meados de 2018. O retorno dos foguetes auxiliares num movimento perfeitamente coreografado e o uso de um carro Tesla como teste de carga foi acompanhado por milhões nas redes sociais. Hoje quase ninguém duvida da capacidade da SpaceX, criada em 2002, e de seu fundador. Entretanto, muitos ainda desconfiam das constantes mudanças de prioridades e do histórico de metas quase sempre não cumpridas.

Por sua vez, na Blue Origin os avanços ocorrem de forma gradual e constante, ao estilo de seu fundador. Embora exerça papel protagonista nas decisões estratégicas, a atuação de Jeff Bezos no dia a dia de sua empresa espacial dificilmente se equipara ao envolvimento de Elon Musk, conhecido por sua atenção com detalhes e influência direta no desenvolvimento de novas tecnologias.

O QUE VEM PELA FRENTE

O ano de 2019 representa um marco para o setor espacial. Enquanto o mundo celebra os 50 anos da chegada do homem à Lua, uma série de eventos significativos acontecerá nos próximos meses. O início dos lançamentos tripulados operados por empresas privadas elevará o New Space para um outro patamar. A SpaceX poderá se tornar a primeira empresa americana a levar astronautas à Estação Espacial Internacional. A Blue Origin deverá realizar seus primeiros voos suborbitais com astronautas privados. Uma terceira empresa, a Virgin Galactic, do também bilionário Richard Branson, conseguiu transportar uma passageira num voo teste com sucesso e, dessa forma, salta na frente do turismo espacial.

Com uma nova corrida espacial entre Estados Unidos e China em vista, diversas empresas vislumbram oportunidades na pujante economia cislunar — região entre a Terra e a Lua — para se estabelecer e consolidar a participação privada. Diferente da conquista eternizada por Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin, desta vez a humanidade vai para ficar. Em paralelo, novos modelos de negócios já começam a despontar por meio de parcerias público-privadas. Basta ver que a NASA recentemente selecionou empresas comerciais como parte da estratégia para desenvolver uma cadeia de valor que envolve desde tecnologias de transporte até novas soluções que garantirão a sobrevivência de astronautas na superfície lunar por longos períodos.

O futuro do mercado espacial estará cada vez mais conectado às atividades terrestres, possibilitando que empresas de biotecnologia, farmacêuticas, indústria de alimentos e químicas, entre tantas outras, participem ativamente nesta nova etapa econômica e tecnológica da humanidade. E assim como a chegada do homem à Lua mexeu com o imaginário coletivo em seu tempo, a democratização do espaço também deverá impactar profundamente as futuras gerações no âmbito social, político e cultural.

 

Os primeiros satélites da constelação Starlink, da SpaceX, prestes a serem liberados em óbita após o lançamento Foto: SpaceX
Os primeiros satélites da constelação Starlink, da SpaceX, prestes a serem liberados em óbita após o lançamento Foto: SpaceX

 

E COMO TUDO ISSO AFETA O BRASIL?

A disputa entre Bezos e Musk levará à queda nos custos em função da maior competição, do aumento da frequência de lançamentos e da reutilização dos foguetes. Dessa forma, criam-se oportunidades para o aproveitamento do espaço para fins educacionais, científicos e tecnológicos. Vale mencionar que em julho de 2018, um grupo de estudantes brasileiros do ensino fundamental enviou experimentos científicos para a Estação Espacial Internacional num foguete da SpaceX. Esse tipo de projeto só é possível atualmente pelos preços cada vez mais baixos em função do New Space.

Em segundo lugar, novos negócios vêm sendo criados como resultado da crescente infraestrutura espacial. Imagens de satélite vêm sendo utilizadas na tomada de decisão em setores como agronegócio e mineração. Um exemplo da dependência das atividades espaciais no cotidiano são os aplicativos de transportes, apenas possíveis devido aos sistemas espaciais de geoposicionamento (GPS).

Finalmente, a utilização comercial da base de Alcântara tem sido um dos temas centrais nas recentes tratativas bilaterais entre Brasil e Estados Unidos. O local é um dos melhores lugares em todo o mundo para o lançamento de satélites geoestacionários, e diversas empresas já mostraram interesse em fazer uso das instalações. Com a possibilidade de termos o primeiro espaçoporto de uso pleno por diversos países, uma nova economia espacial brasileira poderá surgir nos entornos da base de Alcântara. Isso faria do estado do Maranhão polo de desenvolvimento do New Space, por se tratar de lugar único de lançamento. Por tabela, também colocaria o Brasil de vez no mapa global das atividades espaciais comerciais.

Nesse momento, é importante conscientizar os diversos atores no país de que investir no acesso ao espaço não se trata de uma extravagância, e sim de necessidade. O famoso bordão “rocket science” deixou de refletir uma barreira intransponível para empreendedores e está cada vez mais associado a oportunidades de negócios e criações de soluções para a sociedade.

Está mais do que na hora de trazer o assunto espacial ao debate público num contexto amplo em que se discuta, além de soberania e tecnologia, o impacto direto das atividades comerciais espaciais na geração de riqueza e capital intelectual e social. Em última instância, trata-se de assegurar que o país faça pleno uso das novas possibilidades, aproveite as oportunidades e ocupe um lugar de destaque num cenário global em rápida transformação.

* Lucas Fonseca recebeu o prêmio 35 under 35, sendo considerado um dos jovens que estão revolucionando a relação da humanidade com o espaço e pioneiro na divulgação do empreendedorismo espacial no Brasil. Trabalhou na missão Rosetta, sendo o único brasileiro a participar do inédito pouso de uma sonda em um cometa. Empreendedor espacial, é diretor da Missão Garatéa, fundador e CEO da Airvantis e co-fundador e CTO da Celestial Data.

** Sidney N. Nakahodo é líder em empreendedorismo espacial, baseado em Nova York. É co-fundador e CEO da New York Space Alliance, plataforma que capacita empreendedores do espaço por meio de orientação, consultoria e investimento. Na academia, atua como professor da Universidade Columbia, tendo sido docente e bolsista da Singularity University, uma comunidade global de aprendizado e inovação com sede no campus da NASA no Vale do Silício



Fonte: Época - Lucas Fonseca e Sidney Nakahodo



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