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‘Aposentadas’ por antibióticos, larvas de mosca voltam a ser usadas para tratar feridas crônicas

Compartilhe:     |  9 de julho de 2018

Uma antiga forma de tratamento de feridas crônicas, que havia sido descartada com o surgimento dos antibióticos, está voltando a ser usada em alguns hospitais dos EUA, Europa e América Latina. No Brasil, ela vem sendo pesquisada em algumas universidades e é aplicada rotineiramente em pelo menos um hospital, o Universitário Onofre Lopes (HUOL), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Trata-se da terapia larval ou larvoterapia, que, como o nome sugere, é o uso de larvas, no caso de moscas, para a cicatrização de ferimentos recalcitrantes.

Elas agem na ferida por meio de quatro mecanismos: removem o tecido necrosado (morto), rompem o biofilme bacteriano (uma comunidade de microrganismos extremamente organizada que interfere muito no processo de reparação da ulceração), promovem o crescimento de tecido sadio e eliminam bactérias que causam a infecção.

Apesar de parecer repulsivo para muita gente, o tratamento tem se mostrado em alguns casos mais eficiente do que os medicamentos e cicatrizantes tradicionais.

“Todos os nossos pacientes que usaram a terapia apresentaram melhora significativa do processo infeccioso, tiveram suas feridas ‘limpas’ com rapidez, relataram que o odor (mau cheiro) da lesão desapareceu nas primeiras aplicações”, garante Julianny Barreto Ferraz, enfermeira presidente da Comissão de Curativos do HUOL, onde o procedimento é usado desde 2012.

“Usamos as larvas da mosca da espécie Chrysomya megacephala, encontradas em todo o território brasileiro”, diz.

Em São Paulo, a pesquisadora colombiana Andrea Diaz Roa, doutoranda no Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada do Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vem realizando, desde 2015, pesquisas com larvas de outra espécie, a Sarconesiopsis magellanica.

“Nos hospitais dos Estados Unidos e de alguns países na Europa e da América Latina, a mosca utilizada para tratamento de feridas crônicas de difícil cicatrização é a Lucilia sericata”, conta.

Ela explica que ulcerações crônicas são aquelas que permanecem inflamadas por mais de seis meses sem cicatrizar.

É o caso, por exemplo, das lesões provocadas por leishmaniose ou aquelas conhecidas como pé diabético que, muitas vezes, resultam em amputação.

Terapia antiga, abordagem nova

Ao contrário do que ocorria antigamente, a terapia larval moderna é feita em condições de assepsia muito melhores.

As moscas são criadas em laboratório e colocam seus ovos sobre material orgânico. As larvas estéreis são colocadas no interior das feridas, onde permanecem por 24 a 48 horas. Utilizam-se em média 20 delas por centímetro quadrado.

“O ferimento é coberto durante o procedimento e lavado depois da retirada das larvas”, explica Andrea. “Dependendo do caso, uma única aplicação é suficiente. Elas se alimentam apenas da parte necrosada da lesão.”

Antes de vir fazer seu doutorado no Brasil, Roa utilizou em seu país larvas em muitos pacientes com problemas de feridas crônicas, com bons resultados e sem necessidade de amputações.

“Usei também em coelhos com diabete induzida e ferimentos provocados, também com bons resultados”, revela. “Esse trabalho foi feito durante o meu mestrado, sob orientação de professores e médicos colombianos.”

No Brasil, seu orientador é o pesquisador científico do Instituto Butantan, Pedro Ismael da Silva Jr.

“Iniciamos uma nova fase do trabalho”, diz ele. “Durante a terapia, as larvas, além de removerem os tecidos mortos, liberam várias substâncias envolvidas na cura e cicatrização. Algumas delas são peptídeos (pequenas moléculas) antimicrobianos.”

De acordo com Silva Jr., Roa veio ao Brasil para, junto com ele, isolar e caracterizar esses peptídeos antimicrobianos, que apresentam um papel importante nesse tratamento.

No momento, eles já têm isolados várias dessas pequenas moléculas, mas apenas duas caracterizadas. Uma delas é a sarconesina, descoberta pela pesquisadora colombiana. O nome deriva da espécie de mosca que ela estuda (Sarconesiopsis magellanica).



Fonte: G1



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