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Aquecimento e subida do nível do mar podem agravar inundações

Compartilhe:     |  26 de setembro de 2019

Segundo relatório do IPCC, grandes investimentos e cortes drásticos das emissões são necessários para evitar desastres, à medida que glaciares se derretem e cidades afundam. “É preciso ação urgente e ambiciosa”, afirma.

Os oceanos estão se aquecendo, e os níveis do mar sobem cada vez mais rápido, gerando consequências desastrosas para os seres humanos e o planeta, adverte um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, divulgado nesta quarta-feira (25/09).

Os mais de 100 cientistas envolvidos no estudo constataram que o rápido aquecimento dos oceanos, das regiões polares e geleiras está exterminando cada vez mais a vida marinha e acelerando as mudanças climáticas.

Mesmo no melhor cenário de uma redução significativa das emissões de gases do efeito estufa, várias cidades costeiras e pequenos Estados sofrerão inundações extremas por volta de 2050, repetindo-se todos os anos. Até agora, isso só ocorria a cada 100 anos.

“Embora os oceanos e a criosfera [componentes congelados do sistema terrestre] pareçam estar longe da maioria, eles estão ligados a cada um de nós”, afirma Lijing Cheng, oceanógrafa da Academia Chinesa de Ciências e uma das principais autoras do estudo. “A conclusão central é que os dois grandes sistemas estão mudando, e muito rapidamente, já tendo sérios impactos sobre os seres humanos.”

Degelo e aumento do nível do mar

Aproximadamente uma em cada dez pessoas vive numa região a menos de dez metros acima do nível do mar, e muitas já são afetadas por tempestades e inundações mais graves do que as vivenciadas por seus pais e avós.

Alguns autores do relatório advertiram em entrevistas que os efeitos do aquecimento também se projetarão terra adentro, reduzindo as reservas de alimentos e forçando as populações costeiras deixarem suas casas.

De acordo com o estudo, a subida do nível do mar gera tempestades mais fortes e a uma salinização crescente, por exemplo, do delta do rio Mekong, no sudeste asiático. Isso pode resultar em perdas de colheitas e aumento dos preços de alimentos em países sem acesso ao mar de outros continentes.

Ao mesmo tempo, o degelo do permafrost no Ártico e na Sibéria está bombeando cada vez mais o metano e dióxido de carbono para a atmosfera, acelerando ainda mais o aquecimento global e gerando um perigoso círculo vicioso. E projeta-se que um terço do gelo cordilheira do Hindu Kush, no Himalaia – cujos rios alimentam hoje quase 2 bilhões de pessoas –, terá desaparecido quando as crianças de hoje forem idosos.

Quando as geleiras derretem, a água doce flui inicialmente para os oceanos, inundando as cidades costeiras e ilhas de baixa altitude. Quando o gelo se esgota, os rios secam, podendo causar estiagem.

“A água é o elemento de conexão”, explica Zita Sebesvari, da Universidade das Nações Unidas, uma das principais autoras do relatório, especializada no significado da subida do nível do mar para as costas e ilhas. “O que acontece agora é a realocação de água em grande escala, da parte congelada do planeta para o oceano. E isso causa problemas em ambas as extremidades.”

Os oceanos, que absorveram a maior parte do calor excessivo do aquecimento global, reagem apenas lentamente às alterações climáticas. Isso também significa que as emissões do passado continuarão aquecendo os oceanos, mesmo que deixemos hoje de queimar combustíveis fósseis e de derrubar florestas.

“Como não podemos voltar com o clima ao seu estado original, temos que nos adaptar”, explica Hans-Otto Pörtner, climatólogo do Centro Helmholtz de Pesquisa Polar e Marinha, na Alemanha, e copresidente do grupo de trabalho que produziu o relatório. “Não há tempo para esperar.”

Subida do nível do mar causou inundações em agosto de 2018 em Funafuti, TuvaluSubida do nível do mar causou inundações em agosto de 2018 em Funafuti, Tuvalu

Limites da adaptação

No front de uma batalha unilateral com a natureza, as cidades costeiras e ilhas de atóis já começaram a agir. Megacidades como Jacarta e Xangai construíram enormes muros para proteger a população da subida do nível do mar e de tempestades mais fortes. Nações insulares pouco povoadas como Fiji estão deslocando comunidades inteiras: as pessoas deixam suas casas, no que os cientistas denominam “retiradas coordenadas”.

Os pequenos Estados insulares e as ilhas de baixa altitude são particularmente vulneráveis por falta de recursos, afirma Hélène Jacot des Combes, baseada em Fiji, especialista em gestão de riscos para desastres na Universidade do Pacífico Sul, e uma das principais autoras do relatório.

“Qualquer que seja a solução encontrada, deve ser feita em cooperação com a comunidade global”, reivindica. Quanto à proteção costeira, o relatório salienta a importância de preservar as barreiras naturais contra as marés, como os mangues e zonas úmidas.

Mas a capacidade de adaptação tem limites, se as emissões continuarem aumentando, adverte o também coautor do relatório Matthias Garschagen, professor de geografia e especialista em pesquisa de risco na Universidade Ludwig Maximilian, em Munique.

Com cada metro de elevação do nível do mar, os custos para a proteção das costas aumentam, e o espaço nas pequenas ilhas diminui, afirma Garschagen. “Os modelos mostram que as populações só têm uma chance de adaptação bem-sucedida nos cenários de baixas emissões.”

As principais vítimas

Os cientistas do IPCC sublinham que os países menos responsáveis pela mudança climática são os mais afetados pelas alterações no oceano e na criosfera. O degelo nas montanhas e no Ártico tem tido um impacto negativo na saúde humana, nos meios de subsistência e mesmo no acesso a comida e bebida, aponta o relatório. Prevê-se que o risco de catástrofes para os povoados nas montanhas e no Ártico aumente à medida que habitantes e edifícios forem ficando mais expostos a riscos como inundações e avalanches.

A perda de populações de peixes, devido à acidificação dos oceanos, poderá ameaçar a dieta de centenas de milhares de seres humanos, muitos das quais já lutam para se alimentarem. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), os peixes representam 17% da proteína animal consumida. Além disso, algumas comunidades indígenas nas montanhas verão secar suas fontes de água.

“Há bem pouco de positivo para se ver”, afirma John Tanzer, especialista em oceanos da organização ambiental WWF. “Eu não sei se nos países ricos ‘caiu a ficha’ quanto às possíveis consequências humanitárias, que provavelmente vão se acelerar.”

Se agirem agora, contudo, as autoridades poderão limitar os danos. A proteção costeira pode reduzir o risco de inundações em dezenas a centenas de vezes neste século, indica o relatório – se os governos investirem até centenas de bilhões de dólares. Os autores acrescentam que mudanças econômicas e institucionais “profundas” permitirão o desenvolvimento sustentável, em face das mudanças nos oceanos e nas regiões geladas. “Realizar esse potencial depende de mudanças transformadoras”, concluem.



Fonte: Deutsche Welle



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