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Aquecimento global deixa furacões sem “freio”

Compartilhe:     |  17 de novembro de 2020

Um alerta que vem sendo feito há anos por especialistas, de que o aquecimento global está aumentando a frequência e a intensidade de furacões, foi reforçado na última quarta-feira (11) por um novo estudo publicado na revista revista Nature. A partir de uma análise sobre a ação dos ciclones tropicais nas últimas seis décadas, uma dupla de especialistas da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, identificou que os furacões estão perdendo o “freio” que faz com que sua força caia rapidamente no momento em que eles atingem a terra. Esse fenômeno está diretamente relacionado ao aumento das temperaturas da superfície oceânica. Como consequência, o potencial devastador dos furacões está cada vez maior.

“Nossa pesquisa sugere que, conforme o clima vai esquentando, o declínio da intensidade dos furacões vai ficando cada vez mais lento (ao chegar na superfície do continente) e, consequentemente, regiões mais para o interior enfrentarão a ira de tempestades cada vez mais fortes”, explica Pinaki Chakraborty, um dos autores do estudo. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram dados históricos da intensidade de tempestades que atingiram a América do Norte entre 1967 e 2018. Eles avaliaram o grau de diminuição da intensidade dos eventos climáticos nas 24h após atingirem a terra e encontraram uma mudança significativa conforme o registro dos termômetros. Ao avaliar o aumento da temperatura média da superfície das águas do Golfo do México e oeste do Caribe, identificaram que a tendência de aquecimento estava alinhada com o grau de destruição das tempestades tropicais.

“Deixe-me ilustrar com um exemplo: considere dois furações típicos. Um deles, de categoria 4, alcança a terra 50 anos atrás com intensidade de 70m/s. Em um dia, ele viaja 430 km para o interior e sua intensidade diminui para 17 m/s. Outro furacão com a mesma intensidade atinge a costa em 2018. Em 24h, ele viaja os mesmos 430km para o interior, mas agora sua intensidade diminui para 34m/s, o que é considerado um furacão de categoria 1”, exemplifica Chakraborty.

A explicação para essa tendência é que a principal fonte de energia para um ciclone tropical é a evaporação da água oceânica que está no centro do evento climático, e esta é rapidamente eliminada quando a tempestade chega ao continente. No entanto, existe uma umidade residual, que fornece uma fonte secundária de energia e é capaz de manter a intensidade da tempestade por mais tempo. Esta tende a aumentar conforme a temperatura das águas aumenta.

Climatologista do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Francisco Aquino aponta que, além da maior intensidade dos eventos climáticos, o aquecimento das águas influi também na quantidade de tempestades tropicais que se formam e atingem a terra, o que ficou evidente no início deste mês, com a formação do furacão Eta, a 29º tempestade climática da temporada. Além de deixar um rastro de devastação e mais de 200 mortos e desaparecidos por diversos países da América Central, o furação agora avança para os Estados Unidos e consagra o ano de 2020 com mais um recorde:

“Nos últimos 140 anos de monitoramento de ciclones no Atlântico Norte, esta é a temporada com maior número de tempestades com nome (tempestades tropicais que evoluem para um furacão). Com o Eta, este ano supera 2005, que havia sido recorde até então”, afirma.

Ainda de acordo com o pesquisador, a tendência para os próximos anos não é nada animadora. “Mesmo se a partir da semana que vem todos os países passassem a cumprir rigorosamente as metas do Acordo de Paris, não iríamos observar nenhuma diferença na tendência dos furacões pelos próximos 30 anos, já que demora muito tempo para que a energia armazenada nos oceanos possa ser dissipada”, explica. Para Chakraborty, o estudo serve como um alerta principalmente para as zonas interioranas dos locais vulneráveis, já que, pelo menos nas próximas décadas, eles estarão cada vez mais suscetíveis às fortes tempestades.



Fonte: Envolverde - por Jaqueline Sordi, Observatório do Clima



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