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Artista plástico transforma 3 toneladas de lixo em arte de rua em Salvador

Compartilhe:     |  18 de junho de 2018

Um eletricista que virou professor de natação. Um professor de natação que virou artista plástico. Pelo visto, a mudança, a transformação, é algo natural para André Fernands, 43 anos. O maior exemplo disso não está na sua trajetória de vida, mas nas suas obras. Basta ver a metamorfose à qual submete suas peças. Há 4 anos, André largou tudo para transformar lixo em arte.

Com três toneladas, seu último ‘lixão’ foi transmutado em 30 peças coloridas expostas desde quinta-feira (30) na Praça Mestre Bimba, em frente ao Quartel de Amaralina.

As obras são feitas de garrafas de óleo de motor, água sanitária e alvejante, além de tubos de PVC, pedaços de madeira, pneus, baldes de tinta, canudos, aço, arames e parafusos. A transformação levou um ano e meio para ser concluída.

“A ideia é devolver tudo à cidade, mas não mais como lixo”, explica.

A maioria ganhou a forma de animais. Elefante, coruja, lagarto, aranha, golfinho. Mas também um palhaço e até um Michael Jackson com a camisa do Bahia feito todo de tampinha de garrafa. “Já passou um (torcedor do) Vitória retado ali perguntando porque eu não fiz o rubro-negro”.

A inspiração para usar o lixo vem de uma outra veia que André Fernands tem (Fernands assim mesmo, sem um ‘e’, apesar da camiseta). Antes de tudo, ele é ambientalista.

“Cara, minha infância foi no mato e minha adolescência na praia. Ver o ser humano destruir esses locais com o lixo é algo que me toca muito. Tenho um amor incondicional pelo meio ambiente”, comenta.

Seja nos carros ou a pé, os passantes se surpreendem ao ver as peças encostadas nos coqueiros ou colorindo o gramado. Adultos e crianças pedem para tirar fotos. “Meu neto ficou encantado e eu também. Além de tirar o lixo do meio ambiente, ainda alegra a nossa praça”, diz o aposentado Aloísio Pedro, 68.

De repente, uma Kombi da Superintendência de Obras Públicas (Sucop) diminuiu a velocidade e o motorista começou a fotografar. “Fiquei assustado. Pensei que era a prefeitura querendo embarreirar”. Que nada. O funcionário achou bonito e quis registrar.

As 30 obras de Fernands mudaram a paisagem da Praça Mestre Bimba, em Amaralina (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Praia Limpa
André começou a ser conhecido em 2014, quando, na Copa do Mundo, fez uma bandeira do Brasil com 100 mil tampinhas de garrafas pet. Com 12 metros de comprimento e oito de largura, a bandeira só não foi maior pela dificuldade de encontrar tampinhas verdes e amarelas.

Na verdade, a peça só ficou pronta porque André lançou o projeto Praia Limpa, que desde então reúne crianças do Nordeste de Amaralina para catar o lixo das praias usados em suas obras. “Foram elas que me ajudaram a encontrar as tampinhas. Por outro lado, a gente despertou nelas a consciência ambiental”, explica.

A bandeira acabou exposta na Arena Fonte Nova, inclusive com direitos de imagem pagos pela Secretaria Estadual da Copa (Secopa).

Com a decepção dos 7 x 1, André enrolou a bandeira e nunca mais abriu. Fez uma promessa. “Só abro quando o Brasil voltar a ser campeão do mundo. Já me ligaram para fazer matéria com a bandeira, já me convidaram para expor em eventos, mas não vou descumprir a promessa”. Quem sabe este ano?

Quatro anos atrás, na Copa, André criava bandeira do Brasil com 100 mil tampinhas (Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)

Pelo mundo
Desde a Copa de 2014, André resolveu largar as outras atividades para ser artista plástico. Uma decisão difícil. Especialmente quando se tem um filho de 2 anos, hoje com 6. Mas, depois da bandeira do Brasil, suas obras começaram a dar um retorno financeiro. Já garante a pensão do pequeno João Paulo. “Depois que eu garanto a pensão dele, fico tranquilo. O que vem depois é lucro”.

Pouco a pouco, vai se inserindo no mercado. Até alguns gringos já se interessaram por sua arte. Na verdade, quem mais adquire suas peças são turistas.

“Mês passado um turista português e um chinês compraram dois painéis em mosaico feitos a partir do entulho de construções”, conta.

De todo modo, é uma vida incerta. “Hoje você não tem um real para comer um cachorro quente na esquina. Amanhã você tá em São Paulo, Rio de Janeiro ou até Paris expondo sua arte. Vida de artista de rua é assim”, define.

Algumas das peças expostas em Amaralina, inclusive, estão à venda, mas tem que conversar, afinal, não são de todas que ele pretende abrir mão. “O Michael Jackson tricolor, por exemplo, não tem preço”.



Fonte: Correio - Alexandre Lyrio



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