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As árvores são a pele do planeta, diz o arquiteto e escritor Carlos Solano

Compartilhe:     |  22 de setembro de 2014

Carlos Solano: Carlos Solano é um arquiteto com afeto. Quer um mundo saudável para todos e essa parece ser a sua missão. Ele acaba de lançar o livro Casa Natural, com práticas saudáveis para as cinco casas do ser humano – corpo, vestuário, morada, cidade e planeta. Um livro, segundo ele, feito para “folhear, ler, guardar, reler, cheirar, consultar, acariciar, inspirar, degustar e aplicar”. 

Depois de se formar pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) passou uma temporada em Findhorn, na Escócia, para aprender a viver sustentavelmente em uma ecovila pioneira. Depois estudou Arquitetura Antroposófica, na Escola Waldorf de São Paulo. Conheceu o Feng Shui, a medicina chinesa do ambiente, há mais de 20 anos, e viajou à Europa, China, Hong Kong, Taiwan, Tibete e Nepal para estudar o assunto.

No entanto, ele também aprendeu muito por meio da sabedoria popular. Com Dona Francisca, sua inspiradora faxineira “sabe-tudo”, ele aprendeu a purificar e abençoar a casa com águas de flores, chuva de rosas, ramalhetes dependurados nas portas, e a destralhar, ou seja, tirar da casa e do caminho, o que não serve mais: roupas, acessórios, revistas, medicamentos vencidos, muitas vezes até objetos lascados, mas que, por um valor estimativo, vamos deixando ficar.

Nesta entrevista à Ecológico, Solano nos fala sobre outro tema que o comove: as árvores. Idealizador e coordenador da campanha “Vamos plantar um milhão de árvores”, ele diz que ecologia e bem-estar são inseparáveis. Nessas andanças pelo mundo, aprendeu a dialogar com a Terra e a olhar as árvores de forma mais fraterna. “Uma árvore é tão importante para a cidade quanto um tijolo”, diz ele. Confira:

O que é uma árvore para você?

“É a maior cura ambiental.” Foi o mestre chinês Lin Yun, professor de terapias orientais nos EUA, quem disse isso. E eu concordo: elas se relacionam diretamente com o ar e a água, elementos fundamentais para a manutenção da vida, liberando oxigênio e atuando na dinâmica das chuvas. Mais que nos trazer todos esses benefícios, as árvores nos purificam.

 Você defende a ideia de que as árvores são a pele do planeta. Por quê?

Porque elas cumprem, para a Terra, um papel semelhante ao da pele humana: proteção contra intempéries e desidratação, regulação da temperatura, armazenamento (no caso da pele, de gordura; no caso das árvores, de vida: uma única árvore acolhe milhares de seres, entre musgos, fungos, líquens, insetos, animais e pássaros) e absorção de umidade. Qualquer organismo, seja pessoa seja animal, que perde um percentual grande da pele, inevitavelmente vem a perecer. O mesmo risco ocorre no nosso planeta atualmente. Esse, inclusive, é um alerta do livro O Chamado das Árvores, de Dorothy Maclean.

Qual é a principal mensagem do livro?

Nesse trabalho pioneiro, Dorothy foi capaz de “ouvir” e registrar, com sensibilidade, mensagens incomuns recebidas das árvores. Ela, inclusive, usava a palavra deva (que em sânscrito, antigo idioma hindu, significa brilhante) para nomear a inteligência das árvores, das quais recebia essas mensagens desde 1965. O livro faz um apelo para que a humanidade refloreste a Terra em prol da sobrevivência do próprio ser humano.

Para isso, será preciso mais ação por parte da sociedade, que parece aceitar a destruição do meio ambiente…

Três quartos das florestas originais da Terra já foram cortados. No Brasil, as queimadas são uma das maiores fontes poluidoras da atmosfera, colocando o país entre os grandes poluentes do mundo. Só por isso a restauração das florestas já deveria ser encarada como uma prioridade. Não basta, entretanto, apenas plantar novas árvores. Temos de preservar as antigas, pois as jovens não conseguem realizar o trabalho que uma espécie adulta pode fazer.

Como fazer isso em um mundo onde os homens derrubam árvores para criar gado?

Comer carne é atualmente o maior responsável pela destruição das nossas florestas. Desmata-se para criar o gado. Além disso, bois e vacas também contribuem para aumentar o efeito estufa, pois eliminam gases (o metano) durante o processo de digestão. Isso, sem falar no pisoteio do solo, que impacta a regeneração da floresta, e na questão ética, pois os animais são abatidos cruelmente. Quando comemos carne, também comemos a floresta, o desequilíbrio climático, a dor dos animais, os pesticidas lançados no capim, os hormônios da ração. Em tempos antigos, os homens eram todos canibais e a sociedade evoluiu nesta direção. Hoje, os vegetarianos são a semente de um futuro mais digno e verdadeiramente humano.  

A campanha Vamos plantar um milhão de árvores se tornou um sucesso tão grande no Brasil que já foram plantadas quase dois milhões de mudas. Esperava que ela tivesse a adesão que teve?

Idealizei a campanha como uma forma de atuar positivamente no dramático contexto atual. Ela busca não apenas o plantio de árvores, mas de boas atitudes e de consciência. Ela pede a participação ativa de cada pessoa, neste momento tão desafiador. O planeta é a verdadeira casa de todos nós. Podemos mudar de endereço, mas não de planeta. Queremos que cada um plante a sua árvore e perceba que as pequenas ações do dia a dia, quando multiplicadas por milhares de pessoas, é que fazem a diferença no contexto mundial.

Como surgiu a ideia da campanha?

Em 2000, fiz algumas fotos para divulgar o lançamento do meu livro Feng Shui/Kan Yu – Arquitetura Ambiental Chinesa, no Parque Municipal de Belo Horizonte. Uma delas me surpreendeu: o que era um pequeno agrupamento de árvores parecia, ao fundo, uma grande floresta. Eu, na frente dela. De repente, olhando a foto, me vi como um porta-voz das árvores, como se eu devesse falar em nome delas. Foi uma sensação de dever ou uma espécie de insight, não sei explicar. Esse fato permaneceu adormecido até 2006, quando a ONU sugeria o plantio de um bilhão de árvores para frear o acelerado e dramático aquecimento global. Na hora, aquela sensação antiga voltou. E eu me lembrei do Chamado das Árvores.

Como as pessoas podem participar da campanha?

Primeiro, elas devem escolher onde e que espécie plantar. Depois do plantio, é só acessar o site www.ummilhaodearvores.org.br e indicar no contador o número de árvores plantadas. Pode-se ainda deixar um depoimento, enviar uma foto. Conseguimos, em três meses, 25 mil árvores. Para o próximo ano, estamos preparando um grande evento para estimular o amor pelas árvores.

 

É possível plantar árvores em apartamentos? Quais são as espécies mais adequadas?

Muitas árvores se dão bem em vasos e embelezam os ambientes, como as jabuticabeiras, as pitangueiras, o ficus, a árvore da felicidade, a laranjinha kin kan. Nesses casos, é preferível utilizar vasos de barro porque, assim, as raízes “respiram”. Deve-se colocar brita no fundo para ajudar a saída da água. Misture areia (1/3) a uma boa terra adubada (2/3). A areia vai impedir que a terra vire um tijolo, dificultando a vida da planta. Deixe o vaso receber sol ou muita luz.

E quais benefícios elas podem trazer nesses espaços?

Árvores são purificadores naturais do ar, o que é muito útil nas cidades. Uma rua arborizada costuma ter 30% a menos de poluição. As plantas também absorvem a poluição caseira como a exalação dos produtos de limpeza, a fumaça do cigarro, o gás de cozinha, limpam o ar condicionado. Isso foi provado por pesquisas da Nasa, nos Estados Unidos. Além disso, ter plantas em casa diminui o efeito das ondas eletromagnéticas emitidas por aparelhos elétricos e eletrônicos, e por torres de alta tensão, que também afetam a saúde.

Há uma relação entre a degradação do meio ambiente e a do ser humano?

Essa ideia foi lançada pelo arquiteto austríaco Friedensreich Hundertwasser (1928-2000). Para ele, o ambiente nos circunda não só física, mas psiquicamente. As imagens que vemos, o ar que respiramos, os lugares que atravessamos dialogam conosco ininterruptamente. Daí a ideia de que o feio, o poluído e o degradado corrompem a alma humana e que o belo pode resgatar a saúde integral do ser. Estudos recentes indicam, inclusive, que quem contempla o verde vive mais. O belo é entendido como a presença da natureza viva. Nas cidades, seriam os parques e as praças, as ruas arborizadas, os prédios e as casas com jardins. Outros pensadores compartilham dessa visão, como o filósofo austríaco Rudolf Steiner, criador da antroposofia.

Poderia nos dar um exemplo?

A cidade de Itabira (MG) apresenta o maior índice de suicídios do Brasil. Ela se localiza no centro de uma grande mineração. Pessoas que vivem em um meio ambiente constantemente agredido e degradado e contemplam todo o tempo a agressão ambiental, o desmatamento, a poluição e a fealdade podem ficar deprimidas. Já se fizeram estudos sobre os suicídios de Itabira, mas nunca encontraram uma resposta ou abordaram por esse prisma.

Como foi viver na ecovila de Findhorn, na Escócia? O quevocê aprendeu lá? 

Aprendi que, vendo o caos atual que o mundo vive, tanto ecológica quanto espiritualmente, eu queria ser parte da resposta e contribuir nesse sentido.

Estamos no mês em que se comemora o Dia da Árvore. Que recado você deixaria para os brasileiros nesta data?

O de um antigo provérbio chinês, que diz: “A melhor época para se plantar uma árvore era há 20 anos. A próxima ocasião ideal é agora”.

 



Fonte: Revista Ecológico



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