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Atividade humana ameaça jazida de pegadas pré-históricas na Bolívia

Compartilhe:     |  4 de outubro de 2014

Um morro íngreme no sudeste da Bolívia guarda mais de 5 mil pegadas de animais, algumas de até um metro, que datam de mais de 65 milhões de anos. Mas esse tesouro paleontológico está ameaçado pela atividade humana.

O morro, chamado Cal Orcko (montanha de cal, em quéchua), é uma das maiores jazidas de fósseis de pegadas do mundo. Fica nos arredores da cidade de Sucre, no sudeste dos vales bolivianos.

Na esplanada de terra, é possível ver fileiras de pegadas em diferentes direções. Os diâmetros variam em tamanho, e as formas revelam o contorno das patas, sobretudo, de saurópodes, tiranossauros, terópodes, ornitópodes e anquilossauros.

Ao todo, há 5.055 pegadas individuais de animais de pelo menos oito espécies diferentes e 462 rastros contínuos, ou seja, sequências de pegadas.

“Como jazida paleontológica de pegadas, Cal Orcko é uma das maiores do mundo”, afirmou o cientista boliviano Omar Medina, integrante da Sociedade Científica Universitária de Paleontologia (Sociupa).

O local recebe 120 mil visitas ao ano.

“É a maior jazida paleontológica do mundo e, para mim, é o máximo. Os turistas vão embora alucinados, surpresos”, contou o morador Juan Carlos Molina.

Perto desse sítio natural, fica a fábrica de cimento Fancesa, que retira calcário da pedreira vizinha, ininterruptamente. Os donos da empresa são o governo regional, a prefeitura da cidade e a universidade estadual local.

“O precipício foi bastante afetado, porque foram muitos anos de trabalho tirando matéria-prima”, explicou à AFP Elizabeth Baldivieso, administradora do Parque Cretáceo, fundação privada que cuida do local.

Segundo Elizabeth, uma parte norte da região está em perigo, enquanto a parte sul será protegida.

Turista observa pegadas de dinossauros no morro Cal Orcko, em Sucre, na Bolívia (Foto: AFP Photo/Aizar Raldes)
Turista observa pegadas de dinossauros no morro
Cal Orcko, em Sucre, na Bolívia (Foto: AFP Photo/
Aizar Raldes)

Já o secretário de Turismo e Cultura do Governo de Chuquisaca, Juan José Padilla, disse à AFP que essa é “uma visão um pouco alarmista do tema”, alegando que Fancesa se comprometeu a apoiar a preservação do local.

Os vestígios registrados em Cal Orcko são maiores do que os existentes em outras reservas, como Lark Quarry (Austrália), Yanguoxia (China) e Altamira (Espanha), de acordo com uma pesquisa feita pelo Parque Cretáceo.

Pegadas em uma superfície quase vertical

Curiosamente, as pegadas registradas nesta montanha de cal, com 1,5 km de extensão e 110 metros de altitude, estão sobre uma rocha com 72 graus de inclinação.

A presença desses rastros em uma superfície quase vertical é um fenômeno que sempre desperta a curiosidade dos visitantes, contou Medina, mas a explicação é o movimento das placas submarinas.

“Uma vez que os dinossauros se extinguem no Terciário, nosso planeta começa a sofrer grandes movimentos orogênicos, movimentos de placas tectônicas, de deslizamento de continentes, e as placas marinhas começam a provocar aqui uma espécie de efeito sanfona”, afirmou o especialista.

Em outras palavras, até 65 milhões de anos atrás, ao final do Cretáceo, esse morro era uma lagoa, habitada por diferentes espécies que deixaram suas pegadas no barro. O espaço aquífero secou, as marcas foram seladas e, finalmente, os movimentos orogênicos colocaram a planície em posição quase vertical.

A visualização das marcas começou em meados da década de 1990, pela própria ação do tempo, da chuva e da erosão. Além disso, parte do morro ficou descoberto depois que a fábrica Fancesa começou a explorar a pedreira de calcário.

Em 2009, a Bolívia inscreveu Cal Orcko na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como patrimônio natural da humanidade. A entidade recusou o pedido, justamente em observação às políticas de preservação.

Após as objeções, o projeto será reformulado e apresentado novamente ao órgão em 2015.



Fonte: G1 - France Presse



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