Geografia Ambiental

Baía das Tartarugas: recanto de biodiversidade marinha em Vitória

Compartilhe:     |  11 de outubro de 2020

Baía das Tartarugas: recanto de biodiversidade marinha em Vitória | A Gazeta

Paraíso para turistas, mergulhadores e pesquisadores em Vitória, a Baía das Tartarugas é uma Unidade de Proteção Ambiental (APA) que se estende do final da Praia de Camburi até a Terceira Ponte. Foi estabelecida em 2018 e tem o objetivo de preservar a grande biodiversidade presente nas águas do mar que banha a Capital. A baía recebe, durante todo o ano, diferentes espécies de animais, como tartarugas, baleias, golfinhos, arraias dentre outros, que desfrutam da vasta disponibilidade de alimentos da região e aproveitam as águas calmas para se reproduzir.

Vários projetos sócio-ambientais participaram da criação da Baía, dentre eles, o Instituto Últimos Refúgios, que produz projetos fotográficos e audiovisuais relacionados ao meio ambiente. O presidente da organização, Leonardo Merçon, explicou que o nome da APA foi escolhido por conta da espécie que, segundo ele, melhor representa a biodiversidade marinha de Vitória: a tartaruga-verde.

“A APA foi criada por causa da grande biodiversidade, mas o símbolo escolhido para representar a baía foram as tartarugas. Temos uma grande concentração de tartarugas-verdes aqui em Vitória, elas se alimentam por aqui nessa fase mais jovem. Se alimentam principalmente das algas e de águas-vivas, o que explica a grande concentração delas”, disse.

Leonardo Merçon

Presidente do Instituto Últimos Refúgios

“As tartarugas têm uma presença muito marcante na baía. Graças à atuação do projeto Tamar com as tartarugas brasileiras, elas estão repovoando, está aumentando a população, então elas são o grande personagem da baía. Todos os turistas que vêm pra cá e vão aos píers, vão às praias, conseguem nadar com tartarugas por aqui, além de arraias, peixes, cavalos-marinhos, dentre vários outros animais”

Leonardo complementou, afirmando que a biodiversidade da Baía das Tartarugas é semelhante à do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, o primeiro parque marinho criado no Brasil e que fica localizado no estado da Bahia. Abrolhos possui um banco de corais reconhecido como um dos mais ricos em natureza marinha do Oceano Atlântico e, como informou Leonardo, a Baía de Vitória é o começo do banco de corais do parque, o que justifica a imensa biodiversidade marinha do mar da Capital.

“Na Baía de Vitória tem muitos golfinhos, arraias, peixes coloridos, porque aqui é o início do banco dos abrolhos. O famoso Abrolhos, lá da Bahia, começa aqui em Vitória, nessa região. Então muitas das espécies que temos lá, temos aqui também. Apesar da água não ser tão clarinha, a biodiversidade é muito semelhante”, contou.

Baía das TartarugasA tartaruga-verde é o animal símbolo da Baía das Tartarugas. Crédito: Leonardo Merçon

Ele chamou a atenção, porém, para um problema grande que afeta a Baía das Tartarugas; a degradação ambiental, principalmente causada pelo avanço da cidade na natureza de Vitória. Mas, para Leonardo, a presença de tantos animais diversos na Baía das Tartarugas, mesmo com o impacto causado pela degradação, é um indicativo da grandeza e importância da biodiversidade no local.

“Pela degradação que acontece aqui, a gente encontrar tamanha biodiversidade como a gente encontra, é possível ver o potencial biológico da região. Aqui fica bem no encontro das correntes do sul e do norte, sendo as do sul frias e as do norte quentes. Isso traz muita riqueza orgânica para essa região, muitos seres vivos vêm se alimentar por aqui. O mangue é um grande repositor biológico, um grande berçário. Acredito que é possível manter a biodiversidade de Vitória por causa do mangue, que repõe bastante o que é destruído”, afirmou Leonardo.

ZONEAMENTO DA BAÍA DE VITÓRIA

Leonardo Merçon explicou também que a Baía das Tartarugas foi criada para que fosse possível delimitar um zoneamento, ou seja, dividir a Baía de Vitória em áreas para a preservação das espécies e outras regiões nas quais a pesca e caça fosse permitida.

“A ideia inicial era que fosse criada a APA para ter um zoneamento, ou seja, haver algumas áreas protegidas e outras para as pessoas utilizarem, na pesca submarina, na caça. Nessas áreas protegidas, as espécies poderiam crescer, ter os filhotes e repovoar e teriam as áreas em que as pessoas poderiam caçar. Seria bom para todo mundo, pois as espécies poderiam reproduzir e as pessoas que pescam e caçam conseguiriam manter as atividades”, contou.

Baía das TartarugasTartaruga fotografada na Baía das Tartarugas, em Vitória. Crédito: Leonardo Merçon

O presidente do Instituto Últimos Refúgios ressaltou, porém, que o zoneamento ainda precisa ser colocado em prática. Apesar disso, ele explica que a criação da Baía das Tartarugas já garante que as espécies sejam preservadas, para que seja feita a manutenção da biodiversidade da região e que as pessoas que dependem da pesca não sejam prejudicadas.

“A criação da Baía das Tartarugas já permite um certo nível de proteção para as espécies que coabitam. Não só em relação à pesca, mas a gente fomenta o turismo e tem muita gente que vive disso. Temos que fazer um trabalho super forte em relação aos pescadores, de forma nenhuma podemos criminalizá-los, a não ser aqueles que sabem que estão cometendo um erro e escolhem cometer o crime. Mas isso tem que ser acompanhado de um trabalho social muito grande pra não prejudicar ninguém”, finalizou.

CONSELHO IRÁ ADMINISTRAR A APA

A Prefeitura de Vitória publicou um decreto no último dia 9 de setembro que definiu o conselho gestor da Área de Proteção Ambiental da Baía das Tartarugas. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Ademir Filho, o grupo é formado por órgãos ambientais, sociedade civil e empresarial, que decidirão as normas da utilização do espaço.

“O conselho gestor da APA foi publicado na semana passada. A APA é criada para ordenar o uso desse espaço e, agora, o conselho gestor vai decidir o que pode e o que não pode acontecer nesse espaço. É formado por órgãos ambientais, sociedade civil e empresarial e qualquer atividade que quiserem empreender nessa área, terá de ser discutida nesse conselho”, disse.

Delimitação da Baía das Tartarugas, da ponta do Porto de Tubarão, em Jardim Camburi, até a Terceira PonteÁrea delimitada da Baía das Tartarugas. Crédito: Reprodução/Instituto Últimos Refúgios

Ademir Filho reiterou que a quantidade de tartarugas e de outros animais marinhos que podem ser vistos no local é algo sem precedentes e, por isso, foi feito um estudo técnico por parte da Prefeitura de Vitória para que a criação da APA pudesse ser aprovada em 2018.

“Toda a criação de APA precisou de um estudo técnico que fundamenta essa característica do espaço, foi o caso ali da Baía das Tartarugas. É um local bem conhecido e todos sabem a importância ambiental para a cidade, e fizemos estudos ambientais que revelaram essa importância. O avistamento de tartarugas ali é sem precedentes. O ambiente é muito propício para o desenvolvimento e estadia delas, então elas acabam tendo um sucesso de habitação”, contou o secretário.

AVISTAMENTO DE BALEIAS 

Outro instituto que participou da criação da Baía das Tartarugas é o Projeto Amigos da Jubarte, que pesquisa e faz o acompanhamento dos mamíferos que aparecem na região costeira do Espírito Santo. O coordenador do projeto, Thiago Ferrari, explicou que o avistamento de baleias dentro da Baía das Tartarugas não é comum, mas já aconteceu em algumas oportunidades nos últimos anos.

“Não é a área de preferência das baleias jubarte. Na época de reprodução, entre junho e novembro, quando elas vêm para a costa do Espírito Santo e da Bahia para ter seus filhotes, amamentá-los, treiná-los, buscam áreas um pouco mais afastadas, entre 15 quilômetros da costa até 30, 40 quilômetros. Mas, com o aumento da população das baleias, estão voltando a ocupar áreas das quais tinham desaparecido por conta da caça”, disse Thiago.

Baleia jubarte avistada na Baía das Tartarugas, em VitóriaEm 2018, uma baleia jubarte entrou na Baía das Tartarugas, em Vitória. Crédito: Karen Bof/Projeto Amigos da Jubarte

Os casos mais recentes de aparecimento de baleias perto da cidade aconteceram em 2014 e 2018, quando os animais de fato entraram na Baía das Tartarugas. Thiago ressaltou, porém, que outras espécies de cetáceos, como golfinhos e botos cinzas também aparecem na baía.

“Em 2018, uma baleia entrou na Baía de Vitória, ficou algumas horas circulando e depois foi embora. E também em 2014, houve o aparecimento de duas baleias-francas, que têm o comportamento mais costeiro, entre as Ilhas do Boi e do Frade. A diversidade marinha aqui na Baía das Tartarugas é riquíssima, então não só os cetáceos, como baleias, mas aqui temos ocorrências de várias espécies de golfinhos, inclusive o boto cinza. Os golfinhos – principalmente o boto cinza – nascem, crescem, se reproduzem e se alimentam aqui. Ou seja, passam todo seu ciclo de vida aqui, na Baía das Tartarugas”, contou.

Cardume de botos cinzas na Baía das TartarugasO boto cinza nasce, se alimenta e se reproduz na Baía das Tartarugas. Crédito: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios

TAMAR ATUA NA CONSCIENTIZAÇÃO

O projeto Tamar, que atua na pesquisa e conservação das tartarugas marinhas em todo o Brasil, também tem participação no processo de conservação da Baía das Tartarugas. A coordenadora técnica do projeto, Ana Claudia Marcondes, afirmou que há um auxílio no acesso à informação da população em relação à necessidade de conservação da biodiversidade da baía.

“No Espírito Santo, o Tamar tem uma vocação de divulgação do trabalho, educação ambiental e conscientização da população. A gente auxilia, por ser um ponto de informação e direcionamos as perguntas. Passamos a informação e ajudamos também em caso de resgates de animais”, disse.

Um exemplo dessa atuação no resgate de animais é a presença de ninhos de tartarugas na Praia de Camburi, fato raro, mas que pode acontecer.

“Quando ocorre ninhos na Praia de Camburi, o Tamar atua também na preservação desses ninhos. Colocamos estacas e placas de informação. Quando está para nascer, vamos ao local para auxiliar os filhotes. A gente também apoia as pesquisas que as universidades possam querer realizar nessa área”, contou.



Fonte: A Gazeta - Daniel Pasti



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