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‘Barriga de aluguel’ ajuda a preservar peixes ameaçados de extinção, em laboratório

Compartilhe:     |  23 de maio de 2016

Peixes comuns, lambaris e mandis podem ser a salvação de espécies com risco de extinção em rios brasileiros. Um estudo de um órgão do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) utiliza uma técnica semelhante à barriga de aluguel humana para a reprodução em laboratório.

As espécies estão sendo reproduzidas pelo Cepta (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais), em Pirassununga (a 211 km de São Paulo).

A pesquisa começou há cinco anos, mas os primeiros resultados foram obtidos nos últimos meses. Ela constatou a viabilidade de lambaris de rabo amarelo produzirem ovos ou espermatozoides de lambaris de rabo vermelho ou de espécies ameaçadas –como piracanjuba, corimba e pacu.

Pierre Duarte/Folhapress
Pesquisadores utilizam técnica semelhante à barriga de aluguel humana para a reprodução em laboratório
Pesquisadores utilizam técnica semelhante à barriga de aluguel humana para reprodução em laboratório

Do momento em que se adota a técnica de “barriga de aluguel” ao nascimento dos peixes, leva-se um prazo de três anos, que consiste em dominar a técnica de reprodução e cumprir protocolos. Além disso, diz o pesquisador do Cepta George Yasui, que estudou o tema por seis anos na Universidade de Hokkaido (Japão), é preciso desenvolver receptores estéreis, condição para que o peixe não produza esperma dele mesmo e do doador.

“Todos temos conjunto de cromossomos da mãe e do pai. Esse peixe tem dois da mãe e um do pai. Aí ele não consegue produzir ovos ou espermatozoides.”

Agora, os testes são feitos com células de bagre-sapo implantadas em mandis. O objetivo é que, como o lambari, ele produza ovos ou espermatozoides do doador. “A célula do bagre-sapo está inteirinha no corpo do mandi, isolada. Não se trata de algo híbrido ou transgênico, não misturamos DNA. É igual barriga de aluguel humana mesmo.” Com isso, não há possibilidade de surgir uma terceira espécie a partir do método.

RESISTENTES

Os receptores foram escolhidos por serem resistentes e povoarem todo o país. “Há quem diga que o lambari é praga e tem em qualquer lugar, mas é o que queremos. Ele aguenta tudo, assim como o mandi. Transformamos os dois em modelos”, diz Yasui.

A intenção é que mais peixes sejam usados no futuro com tal finalidade, pois não existe um modelo universal que gere descendentes de todas as espécies. Atingidos pela lama de rejeitos de minério da barragem que se rompeu em Mariana (MG), peixes do rio Doce foram resgatados por uma expedição do Cepta e podem ser reproduzidos da mesma forma no futuro. A tragédia poluiu rios de Minas e Espírito Santo e matou 19 pessoas.

Analista ambiental do Cepta, o biólogo Wellington Peres diz que o órgão constatou a mortandade de ao menos 21 espécies, a maioria introduzida –não nativa. A bacia tem cerca de 70 espécies nativas e 30 introduzidas.

“Não dá para falar em extinção das espécies, para isso é preciso mais expedições. Mas já trouxemos exemplares para formar um banco genético. Se precisar de reforço de estoque, podemos usar.” Entre as espécies com morte registrada estão tucunaré, dourado, traíra, cascudo e peixe-cachorro.

PEIXES ÓRFÃOS

Peixes órfãos que nunca conhecem seus pais, os rivulídeos têm metade das espécies conhecidas pelo Cepta ameaçadas de extinção. A criação de um banco genético é a esperança deles. Esses animais são de pequeno porte –normalmente entre 6 e 10 cm. São 262 espécies catalogadas, das quais 125 podem desaparecer, de acordo com o órgão.

Os rivulídeos vivem em ambientes aquáticos muito rasos, por vezes isolados de rios e lagos, e sazonais. Podem se reproduzir de uma forma que foge do padrão habitual: o local seca após a temporada de chuvas e os exemplares que ali vivem morrem, mas os ovos ficam depositados. Quando chove novamente, ainda que seja um ano depois, os ovos eclodem e novos peixes surgem.

São portanto animais que não conhecem nem nunca conhecerão seus pais. “A população inteira morre e surge uma nova. São espécies órfãs, não há chance de ter duas gerações no mesmo ambiente”, afirma a ecóloga Izabel Boock de Garcia, analista ambiental do Cepta.

Eles são restritos em São Paulo às faixas litorâneas e existem mais comumente no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Brasília e na Bahia.

BANCO GENÉTICO

Após três anos de coleta, o Cepta amealhou dez das 262 espécies, quatro delas ameaçadas, e pretende criar um banco genético para reduzir o risco de desaparecimento. Entre os principais motivos para o risco de extinção está a ação humana, como o asfaltamento desses locais para o surgimento de ruas ou rodovias, e o aterramento para obras da construção civil.

“No Rio Grande do Sul, em Chuí, construíram uma pista de motocross que aterrou metade de um ambiente”, disse. Segundo a veterinária do Cepta Maria Rita de Cássia Barreto Netto, esses peixes surgem mesmo após uma seca superior a dois anos.

“As espécies evoluíram nesse tipo de ambiente, precisam da seca para os ovos entrarem em estado de dormência. Voltando a chover, os ovos vão eclodir e eles ocuparão aquele ambiente. Por isso muitas vezes as pessoas chamam de ‘peixes das nuvens’, por não terem ideia de onde esses animais surgiram.”



Fonte: Folha de São Paulo - MARCELO TOLEDO



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