Denúncia

Biólogo denuncia impactos da ocupação humana no Vale do Quilombo, em SP

Compartilhe:     |  1 de julho de 2018

Professor Francini estuda há 40 anos as espécies de borboletas no Vale do Quilombo (Foto: Gabriel Gatto)

A ocupação humana começa a impactar de forma negativa o Vale do Quilombo, na Área Continental de Santos, no litoral de São Paulo, ameaçando diretamente as espécies locais. A avaliação é do biólogo Ronaldo Bastos Francini, que pesquisa a região e observa suas mudanças ao longo de mais de 40 anos. O vale é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) desde 1988.

Por estar cercada pela Serra do Mar, a região sofreu menos impactos da ação humana do que áreas urbanas, principalmente pela intensa urbanização da Baixada Santista nos últimos 50 anos. No entanto, os sinais da ocupação humana começam a aparecer, afirma Francini, e ficam evidentes com áreas desmatadas, visíveis a partir de imagens de satélites e pela iluminação das áreas ocupadas.

O biólogo já fez mais de 500 visitas ao local e acompanhou, assim como quem mora no Vale do Quilombo, as consequências trazidas pela exploração de recursos naturais nas últimas quatro décadas. Ele também se dedica à pesquisa de borboletas, que registrou, coletou e catalogou em dezenas de artigos científicos.

As primeiras pesquisas de campo de Francini no Vale do Quilombo aconteceram na década de 1970. Desde então, o biólogo passou a ir frequentemente à região, registrando cada uma das idas com data e horário, bem como os resultados.

Hoje, a pesquisa de Francini refere-se à conservação de áreas ameaçadas, a fim de criar meios de proteção a ambientes como o Vale do Quilombo. “Meu objetivo é estudar o que ainda pode ser estudado, e criar trabalhos científicos que deem embasamento à criação de novas unidades de conservação florestal”.

Vale do Quilombo (Foto: Divulgação/Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo)

Vale do Quilombo (Foto: Divulgação/Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo)

Francini diz que não é “uma pessoa política”. Sua intenção é criar trabalhos e artigos para que, quando “alguém politicamente ativo” tiver interesse em proteger aquela região, consiga embasamento teórico para garantir que ela seja preservada.

Para o biólogo, a proteção ambiental parte de dois princípios. Um deles é a conscientização das pessoas que já moraram em áreas protegidas. O outro é a punição dos infratores. “A educação é algo que fazemos hoje para vermos os efeitos daqui a 15, 20 anos. Mas só a educação não resolve a situação”.

As unidades de conservação são áreas criadas pelo Poder Público que envolvem territórios e seus recursos ambientais, para fins de preservação ecológica. O Vale do Quilombo, parcialmente protegido, conta com um histórico de ameaças ambientais.

A mais emblemática foi a proposta de criação de um distrito industrial, ainda nos governos militares. Ele explica que, durante a Ditadura, o então interventor general Bandeira Brasil desapropriou a área para construir um distrito industrial. O projeto não teve continuidade por falta de recursos financeiros.

“Isso foi antes da Constituição de 1988, que reformulou as leis de proteção ambiental”, diz Francini. “Caso o distrito tivesse sido implementado, o Vale do Quilombo seria como Cubatão, com todos os seus problemas de poluição e degradação ambiental”, afirma.

As centenas de visitas do biólogo ao local resultaram em um de seus oito livros, lançado em 2010. Nele, estão reunidos mais de 40 anos de pesquisas e coletas de dados envolvendo as transformações da paisagem da região, e a interação com os moradores e as espécies de borboletas locais.

De acordo com o biólogo, as borboletas encontradas no Vale do Quilombo são de incidência endêmica, ou seja, aparecem somente nessa região, e precisam de atenção e cuidados, principalmente referentes à área de mata em que se encontram, protegida parcialmente pelo Parque Estadual da Serra do Mar.

Interesse pela pesquisa

Cercado por instrumentos de laboratório, microscópios, revistas científicas e armários recheados de gavetas contendo exemplares de borboletas e formigas, dos mais variados tamanhos e espécies, Ronaldo relembra as origens de sua paixão pela natureza:

“Eu gosto da natureza desde pequeno — meu primeiro contato foi na casa em que minha avó morava, havia muitas plantas, o que atraía insetos e borboletas. Quando mais velho, e meus pais passaram a me deixar sair de casa, eu e alguns amigos fazíamos, anualmente, o caminho de Santos a São Sebastião — naquela época não havia a Rio-Santos — a pé, e íamos acampando. No caminho, eu ia olhando a natureza e coletando bichos”.

O prazer pela leitura contribuiu para o interesse do biólogo e durante a adolescência, a partir de uma publicação na revista Seleções, Francini entrou em contato com o pesquisador norte-americano Keith Brown — que viria a ser seu orientador de Mestrado e Doutorado —, interessado em seu estudo sobre borboletas.

Posteriormente, na década de 1970, Francini passou a atuar como técnico de laboratório pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), e entrou para a graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Santos (Unisantos), em 1983. Hoje, o biólogo é pesquisador e professor universitário.



Fonte: G1 - Gabriel Gatto



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