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Café ‘sustentável’ avança no Brasil e já representa cerca de 15% da safra

Compartilhe:     |  9 de maio de 2021

O cafeicultor Marcelo Montanari aboliu o uso de agrotóxicos nos 200 hectares de café cultivados em sua fazenda no município de Patrocínio (MG). Ele deixou o combate às pragas por conta de vespas que predam os insetos daninhos e que, assim como as abelhas que polinizam os cafezais na florada, seriam extintas durante a aplicação de inseticidas.

Montanari faz parte de um contingente cada vez maior de cafeicultores brasileiros que produzem café “carbono zero”, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global. A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) avalia que os cafés com certificados socioambientais já representam mais de 15% da produção brasileira, de 60 milhões de sacas por ano. O ágio médio, valor pago a mais para o produtor, chega a 30%.

Segundo Vanusia Nogueira, diretora da BSCA, a pegada de carbono virou ativo importante para o setor. “Propriedades com a certificação de carbono sustentável estão com forte procura, principalmente por europeus, que se dispõem a pagar prêmios por esse café.” Ela aponta que muitos produtores estão com saldo positivo de carbono. “A indústria do café, que tem mais emissões de gases, precisa desse saldo gerado no campo para fazer o equilíbrio na própria cadeia, para que ela se torne, pelo menos, neutra.”

Marcelo Montanari aboliu o uso de agrotóxicos em sua lavoura em Patrocínio (MG). © Beto Oliveira/Estadão Marcelo Montanari aboliu o uso de agrotóxicos em sua lavoura em Patrocínio (MG).

O carbono zero é uma espécie de balança ecológica na qual, se uma empresa produz certa quantidade de gases de efeito estufa durante seu processo, deve compensar o desequilíbrio neutralizando os gases na atmosfera. Para isso, os créditos de carbono podem ser adquiridos de quem possui emissão negativa de carbono, ou seja, fixou mais carbono no solo, por exemplo, do que a emissão de gases. Maior produtor mundial, o Brasil produz 35% do café global e, segundo a especialista, é o país que mais avança na produção sustentável.

O cafeicultor Luiz Carlos Gomes, de 65 anos, vem colhendo bons resultados com o manejo do solo na fazenda São Bento, no município de Santa Teresa (ES). São 250 mil plantas das espécies arábica e conilon cultivadas com práticas sustentáveis, que estão resultando em ganho econômico. “O consumidor se preocupa com a parte ambiental, mas quem produz de forma sustentável precisa ser bem remunerado.” Com o manejo do solo, ele contabiliza uma economia de 30% em adubos e herbicidas.

A propriedade de Gomes produz café desde 1899, quando os imigrantes italianos se estabeleceram na região. “Naquela época, o governo dava a terra, mas tinha de desmatar para produzir. Hoje, estamos no caminho inverso, plantando essências nativas para recuperar matas ciliares e enriquecer as APPs (áreas de preservação permanente)”, disse. “Para melhorar a pegada de carbono, plantamos árvores no meio do cafezal e bambu nas bordas.”

As boas práticas geraram mais produtividade e acresceram valor à produção. Gomes colhe média de 43 sacas por hectare de arábica e 73 de conilon, acima da média regional. “Enquanto o café commodity está a R$ 350 a saca, estamos vendendo a R$ 550.” Já os lotes de café especial chegam a até R$ 1,7 mil por saca.

Cereja

O agrônomo Pedro Malta, chefe do departamento de agricultura da Nescafé, braço da gigante Nestlé, vê o carbono zero alinhado a outras iniciativas em curso há dez anos na cafeicultura. “A pegada de carbono é a cereja do bolo da parte ambiental da sustentabilidade, que está organizada também nos aspectos social e econômico”, disse. Uma década atrás, agrônomos da empresa percorreram as várias regiões do País buscando parceiros para o projeto Cultivado com Respeito, apoiando-os em práticas de agricultura inovadoras, como as que são usadas por Gomes.

O trabalho foi iniciado no norte do Espírito Santo, onde a maioria dos produtores fazia a cafeicultura convencional. “Para ser sustentável, o produtor não precisa tirar o café velho e plantar um novo, pois onde ele mais pode reservar carbono não é na planta e, sim, no solo”, diz. Uma medida simples adotada no projeto foi plantar ervas nas entrelinhas para cobertura do solo e adubação verde, reduzindo o uso de adubo e defensivos. “É ganho em produtividade com menos custo.”

Parcerias locais

A Nescafé investiu em uma parceria com um “pool” de cafeicultores brasileiros para, com eles, chegar à meta do carbono zero em algumas linhas de produtos até o fim do ano que vem. De acordo com a diretora de cafés da Nestlé para a marca, Rachel Muller, esse trabalho começou com educação e apoio aos produtores para a sustentabilidade, além de prêmios para a qualidade. “A gente acredita que o caminho do café premium passa por agregar mais valor para o produtor também.”

A executiva afirma que o mercado de carbono zero na cafeicultura ainda é pequeno, mas a previsão é de um avanço contínuo. “Quando grandes empresas como a Nestlé passam a fazer parte, essa jornada ganha outras proporções.”

Em parceria com a startup AgroBee, a Nescafé lançou o programa de polinização dos cafeeiros com enxames de abelhas. De acordo com a agrônoma Taissara Martins, responsável pelo projeto, a AgroBee aluga as caixas de abelhas de apicultores e elas são distribuídas nesses cafezais durante as floradas. Ali, os insetos fazem o seu trabalho natural de coleta do mel e polinização das flores. “Quando a flor do café é polinizada, a gente tem mais produtividade e frutos maiores, ou seja, mais café ao fim da colheita.”



Fonte: MSN - Estadão



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