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Caju em cores, do grafite ao rosa, no tingimento de fios de lã e algodão

Compartilhe:     |  24 de outubro de 2014

Por Liana John*

Os cajueiros – essas extraordinárias espécies do gênero Anacardium, nativas das regiões mais quentes do Brasil – já frequentaram o nosso Biodiversa mais vezes do qualquer outra planta. Mais até do que a carnaúba (Copernicia prunifera), chamada pelos nordestinos de “árvore da providência”. Já falamos do caju em gel contra placa bacteriana, como corante alimentício amarelo, como embalagem comestível, como biomassa para a construção civil e até como agente redutor de nanossistemas. Ainda assim encontramos outros usos, como o das cascas de cajueiro para tingimento de fios de lã e algodão ou peças já prontas de tecidos naturais. E não é para produzir uma cor só, não: é para obter desde um rosa envelhecido até tons de grafite beirando o preto!

O cajueiro comum (Anacardium occidentale) hoje tem sua área de distribuição original confundida com a área de cultivo, conforme observa a analista ambiental Vanja Maria Xaud Lucena. Ela fez a caracterização genética dos cajueiros de Roraima em seu mestrado em Recursos Naturais pela Universidade Federal de Roraima (UFRR). Os cajueiros nativos, segundo sua tese, têm como centro primário de diversidade genética os cerrados, as matas de galeria e as florestas úmidas da Amazônia, enquanto o centro secundário está nos cerrados de Mato Grosso, Goiás e no Nordeste. Ela menciona, inclusive, uma das três hipóteses etimológicas da palavra indígena Roraima, que deu nome ao estado: a contração do termo roro = caju e imã = monte ou serra. Ou seja, Roraima em bom português seria a Serra do Caju.

Após o Descobrimento, navegadores portugueses e espanhóis foram responsáveis pela disseminação dos cajueiros pelo mundo. E atualmente 26 países se dedicam à produção comercial da castanha, com destaque para Índia, Vietnã, Tanzânia, Indonésia, Moçambique e Guiné-Bissau, além do Brasil. O cultivo é fácil, desde que feito na zona tropical, pois o cajueiro não tolera nadinha de frio. As árvores chegam a 12 metros de altura e sustentam copas de grandes dimensões, oferecendo sombra farta debaixo de suas folhas largas. A copa do maior cajueiro do mundo, famoso como o “Cajueiro de Pirangi” (RN), tem cerca de 8.500 metros quadrados! É copa suficiente para sombrear, sozinha, até um estacionamento de shopping!!

Essa facilidade de crescimento é uma vantagem para confecções e tecelões interessados no tingimento de fios ou tecidos de lã e algodão. As lascas de cascas utilizadas como corantes podem ser retiradas dos galhos maiores, sem matar a árvore, conferindo mais sustentabilidade a essa prática.

Rodrigo Monteiro, de Penedo (RJ) é tecelão por hobby desde 1984 e de profissão desde 1992. Usa todo tipo de fibra natural em suas peças: algodão, lã, seda, juta, sisal, rami, buriti, taboa, palhas, cipós, gravetos. Mas só faz o tingimento pessoalmente em sisal para a confecção de painéis decorativos. Com base em suas observações de todos esses anos de tecelagem, reconhece que “a durabilidade do tingimento natural é bem menor que a do químico. Não somente por se tratar de material orgânico e naturalmente perecível, mas também por influência dos diferentes fixadores (ou mordentes) usados nas diferentes técnicas”. Ele já viu tingimentos naturais que desbotaram em questão de meses, no entanto também viu outros que duraram alguns anos, mesmo expostos à luz.

Seja qual for a durabilidade, a vantagem é que “as peças e os fios tingidos naturalmente não despejam, na natureza, componentes tóxicos ou nocivos, no processo de enxague ou nas lavagens”, diz. Mas é preciso ter cuidado com a preservação das plantas tintórias, por meio do “replantio das espécies cultiváveis e do extrativismo consciente das espécies espontâneas ou nativas”. Ou seja: deve-se colher apenas a quantidade necessária das plantas ou partes delas, deixando matrizes suficientes para sua regeneração e proliferação.

O tingimento com caju é usado tanto no artesanato regional – de redes, tapetes e toalhas de mesa – como em peças de roupas para exportação, feitas com algodão orgânico. As tonalidades variadas de grafite, ferrugem, vermelho ou rosa são obtidas com diferentes concentrações da casca na água, combinadas ao tempo de fervura e à forma de utilizar o mordedor da tintura – que vem a ser a substância fixadora da cor. O mordedor mais utilizado é o limão.

Quem quiser saber detalhes sobre todo o processo ou procurar dicas de outras cores obtidas com corantes da natureza brasileira pode fazer uma visita ao site mantido pelo Rodrigo, O Tecelão, como é mais conhecido Ali estão reproduzidas algumas páginas do livro A Tecelagem Manual no Triângulo Mineiro, com os passos do tingimento natural, e uma relação de plantas nativas e cultivadas, usadas para produzir as diferentes cores. Caju inclusive.

De acordo com as instruções publicadas, o preparo para tingimento começa com a lavagem e a organização das meadas. Para uma tintura homogênea, os fios devem estar desembaraçados e livres de amarras; limpos de gorduras e poeira e homogeneamente úmidos. As peças de roupas já confeccionadas, em especial, precisam ser movimentadas constantemente para dar uniformidade no tingimento, evitando manchas mais escuras ou mais claras. Como diz Francisca Vieira, da Natural Cotton Color, de João Pessoa (PB): “É só ter cozimento, paciência e quantidade de casca”!

Foto: Liana John (Fios de algodão tingido e cascas de caju usadas no tingimento)

*LIANA JOHN é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.



Fonte: Planeta Sustentável



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