Crônicas e Poesias

Caminho de luz

Compartilhe:     |  20 de dezembro de 2020

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Foi só no que pensei… A surpresa era imensa, pois sequer imaginava-o doente… Doente do corpo, claro, porque da mente dificilmente seria.

Era verdade. Ele havia-se ido deste mundo. Mas, assim… de repente? Sim, muitas coisas acontecem sem aviso prévio, e nem sempre os fatos costumam ser cordatos, sensatos, como deseja nossa filosofia. Há tantas além dela…

Surpreendi-me comigo mesmo. Exatamente porque a tristeza não se sobrepunha à surpresa. Alexandre morreu? Não, Alexandre Nunes não morre, já se imortalizou faz tempo. É impossível alguém como ele morrer. Alguém assim se ilumina, se encanta, se transporta, se divide. Deixa uma parte grande aqui, do bem que fez, que semeou, que transmitiu, ensinou. A outra parte, maior ainda, a etérea, espiritual, prossegue, “tal é a Lei”.

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 Somia DCosta

Foi só no que pensei… Na obra enorme a que se dedicou por tantos anos. Incansavelmente entusiasmado, o olhar brilhava quando contava, quando fazia. E como fazia! O centro espírita de Santa Rita – “Sociedade Espírita Caminho do Bem” – só crescia. De público, de luz, de novas paredes, cobertas, escolinha, sopão, palestras, reuniões, atendimento fraterno, e muito amor.

Vivia nos convidando para aparecer. “Traga seu pai!” E a gente adiando, sob o velho comodismo, a distância, eram à noite as palestras… Mas, chegaria o dia.

Certa manhã, ele liga. “Vamos fazer uma matéria no Correio das Artes com Carlos Romero”. “Jura?” “Que maravilha, Alexandre!” “Ele topa?” “Claro”. É só marcar.” E numa tarde, final de Primavera, deu-se o bate-papo. O Correio das Artes também virou assunto. Lá vem papai com um volume enorme, encadernado com várias edições antigas. Alexandre ficou besta. Besta, não, sabido!

Depois da conversa, entrevista gravada, anotada, fomos à enseada do Cabo Branco. Que passeio! Na areia, à beira-mar, no calçadão, habitat do cronista, de José Américo, de tantas boas lembranças. O crepúsculo ajudou a dourar tudo. Inclusive as belas fotos.

Um mês depois, uma edição primorosa, memorável. Ao abrir, estava tudo ali. Impecável. A bondade de Alexandre, a escrita talentosa, o carinho, a dedicação, o crepúsculo daquela tarde, inesquecível. Este foi apenas um gesto, de muitos do tamanho de sua gentileza, da alma boa. De muitos que compuseram sua vida.

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 Meg Else

Foi só no que pensei… Não havia espaço para a tristeza. Mas, Germano, Alexandre morreu!… Como Alexandre morreria? – insistiam meus teimosos botões. Ninguém como Alexandre morre. E a tristeza não chegava, não era bem-vinda.

Seria a música que eu escutava? Sim, claro. Era viva. De trezentos anos, mas viva. A cantata nº 140, de Bach, que se intitula “Acordai, a Voz nos chama!”. Que coincidência. A Voz chamara Alexandre! Precisava dele lá. Havia tanto ou mais para se fazer.

Mas, o que foi mesmo que pensei? Ao som do coral “Zion hört die Wächter singen” (Sião ouve os guardiões a cantar), só me vinha a ideia de Alexandre chegando e sendo recebido por flores e tulipas que brotavam à margem do caminho que se estendia à sua frente. A atmosfera brumosa, dourada, se difundia por toda a paisagem.

À medida que Alexandre caminhava, as flores surgiam do solo, sorridentes, de toda cor, iluminadas, muitas e muitas se sucediam. Era um caminho longo, o caminhar suave, o olhar embevecido, a música linda: 

“Sião ouve os guardiões a cantar,
seu coração de alegria está pulando,
ela acorda e se levanta com pressa.
Seu amigo vem do céu em esplendor,
forte em misericórdia, poderoso em verdade.
Sua luz fica mais forte, sua estrela cresce em brilho”


Foi só no que pensei. Na adorável noite em que fomos ao seu centro. O centro dos filhos de Soares, outro santo que virou anjo. Foi só no que pensei… Nas pontas de vidas que se unem quando o caminho é de luz.



Fonte: Ambiente da Leitura Carlos Romero



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