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Cápsulas de fertilizante feitas com gás carbônico reduzem impacto ambiental

Compartilhe:     |  9 de junho de 2019

Apontado como um dos principais responsáveis pelo efeito estufa, o gás carbônico emitido por indústrias pode voltar à cadeia produtiva. Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram uma solução que usa o CO2 liberado por termoelétricas como matéria-prima na produção de agroquímicos. Combinado com um polímero natural, ele se transforma em nanocápsulas capazes de liberar o seu conteúdo — fertilizantes e antibióticos, por exemplo — de forma mais estratégica.

Coordenador do projeto, Sílvio Vaz Jr. explica que, com a solução, é possível ter mais controle sobre a liberação de agroquímicos. Dessa forma, pode-se aumentar a eficácia de aplicação dessas substâncias em plantações e animais e reduzir a poluição ambiental. “Tecnologias como a liberação controlada de agroquímicos podem contribuir para a redução da quantidade de agroquímicos e otimizar o uso, o que é benéfico ao meio ambiente e à saúde da população brasileira”, ressalta o também doutor em química analítica pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Embrapa Agroenergia.

A partir de estudos prévios em laboratórios e em campo durante 2015 e 2016, a equipe da Embrapa optou pelo desenvolvimento de formulações compostas por três elementos: nanocarbonatos, lignina e um agroquímico de interesse. Os nanocarbonatos são obtidos a partir do gás carbônico emitido por termoelétricas e têm a função de fixar o agroquímico. A lignina, polímero natural presente em plantas, é adquirida do processamento da indústria de papel e celulose. No processo, funciona como aditivo para melhorar a fixação do produto que ficará dentro das nanocápsulas.

Juntos, nanocarbonatos e lignina dão origem aos nanossuportes que envolverão o agroquímico. Segundo os criadores, as cápsulas nanométricas também servem para envolver medicamentos veterinários e semioquímicos — substância envolvida na comunicação entre seres vivos, como insetos, e utilizada em manejo de pragas.

Para Paulo César de Morais, professor do Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB), a proposta dos pesquisadores da Embrapa abre um nicho enorme de oportunidade, contemplando uma cadeia com vários pontos relevantes. “Primeiro, a redução da emissão de gás carbônico na atmosfera, com impacto positivo ao meio ambiente. Segundo, a destinação do poluente, o gás carbônico, na fabricação de materiais nobres, ou seja, matrizes materiais nanoestruturadas. Terceiro, o uso dos materiais nanoestruturados produzidos em inovações de alto impacto para a agropecuária brasileira”, lista.

Colheita melhorada

Marcos Buckeridge, PhD em bioquímica de plantas pela Universidade de Stirling, na Escócia, e diretor do Instituto de Biociências da USP, chama atenção para o fato de que a escolha pelo uso da solução na agricultura também reduz impactos ambientais. “Essas nanocápsulas poderão ajudar no aumento de produtividade, o que reflete nas emissões, uma vez que um dos principais emissores de carbono no planeta está relacionado ao uso da terra para a agricultura. Portanto, o método proposto pelos autores terá resultados em várias frentes”, explica.

Também na agricultura, a solução tem potencial para ser usada de forma combinada com uma armadilha simples contra pragas que atacam as plantações. A estrutura é feita com um pedaço de madeira, em que é presa com uma fita adesiva. Nanocápsulas são colocadas próximas à armação para que os agroquímicos presentes dentro delas despertem os feromônios dos insetos e os atraiam. Quando se aproxima, os animais ficam presos na fita.

Menos antibiótico

Em outra frente, a solução poderá ajudar na redução do uso do antibiótico oxitetraciclina. A substância é uma das mais aplicadas por criadores brasileiros para tratamentos de doenças de animais e ganho de peso, sendo que até 90% dela é eliminada pelos bichos, comprometendo o meio ambiente e contribuindo para o surgimento de micro-organismos resistentes aos antibióticos.

De acordo com Sílvio Vaz Jr., a Embrapa deu início a pesquisas para a liberação controlada de agroquímicos utilizando a lignina kraft como suporte. As ações serão executadas em três anos, em parceria com a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia no Distrito Federal e a Embrapa Florestas no Paraná.“Essas nanoformulações de agroquímicos podem ser mais sustentáveis do que os produtos convencionais atualmente comercializados”, ressalta.

Marcos Buckeridge comenta a importância que os sistemas de captura de carbono terão nas próximas décadas. “O CO2 é o principal gás do efeito estufa, ou seja, é o que mais contribui para o aquecimento do planeta. A remoção dele da atmosfera, por meio da captura e do aproveitamento, é uma ação extremamente importante para podermos evitar o aquecimento global”, complementa.

* Estagiária sob supervisão da subeditora Carmen Souza

Ameaçadores
Os agroquímicos movimentam cerca de U$ 9,6 bilhões no Brasil, mas suas moléculas são consideradas uma das principais classes de poluentes químicos do planeta. Além do impacto no meio ambiente, há risco de efeitos mais diretos sobre a saúde humana. Estudos têm relacionadas a substância principalmente ao surgimento de cânceres.



Fonte: Correio Brasiliense



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