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Era o inverno de 1950. Choveu muito naquele ano. Os açudes sangraram, as lagoas encheram, a terra estava encharcada, os caminhos embrejados. Estávamos em período de lua cheia. Meu pai falou:

– Hoje os pebas vão sair da toca. Vamos fazer uma caçada.

Eu estava muito animado. Com seis anos, nunca tinha saído para uma caçada. Senti-me incluído desde o início, não passou pela minha cabeça que meu pai não pensasse em me levar. Ele não reclamou, eu fui.

Saímos de casa aí pelas oito horas da noite, sob o claro da lua. Passamos pela parede do açudinho, que já estava sangrando. Isto em si já era para mim uma grande aventura. Apertei a mão de meu pai. Atravessamos um roçado de milho e feijão. O milho já estava mais alto do que eu, mas ainda não estava bonecando. Os pés já estavam molhados, porque as alpercatas não os protegiam das áreas de brejo. Entramos numa região de Caatinga original, com árvores grandes de sabiá. Meu pai seguiu uma trilha que ele conhecia, mas onde eu não havia passado. Ele tinha o cuidado de explicar para mim o que estava acontecendo:

– Logo na frente tem um buraco de tatu. Logo que ele perceber que estamos aqui, ele vai andar o mais rápido possível para entrar lá e desaparecer. Mas o cachorro vai segui-lo, vai meter o focinho no buraco e, se ele não estiver muito longe, vai sair com ele e nos entregar.

Ele nunca chamava o nosso cachorro pelo nome dele, era como se ele não tivesse um nome. Mas nós todos o chamávamos esse cachorro de Rei.

Aquela caçada foi infrutífera. Não conseguimos caçar nenhum peba. No entanto, ficou gravada na minha memória. Normalmente, eu iria para a cama, quero dizer, para a rede às oito horas. Em vez disso, estava caçando com o meu pai e o Rei. Embora ele não fosse propriamente um animal de estimação, criado dentro de casa, pois o Rei ficava fora à noite, rondando a casa para nos dar notícia de qualquer perigo, a gente tinha muito amor por aquele animal. Ele ficava alegre ao brincar conosco, mas latia para pessoas desconhecidas.

Os pebas provavelmente já tinham sido caçados. Nós, os homens, somos uma espécie muito degradadora. Somos a única espécie que mata as outras por simples prazer. A caçada é um esporte, o animal morto é uma presa. A gente se diverte. Isso vem acontecendo desde os primórdios. As caçadas reais já aconteciam nos tempos antigos, na Pérsia e na Grécia. Acontecem ainda nos dias de hoje.

Não admira, pois, que a espécie humana se tenha espalhado sobre a terra e dominado as demais espécies, reduzindo drasticamente suas populações, extinguindo outras. Já os animais carnívoros só atacam quando estão com fomeA natureza tem um equilíbrio que nós já rompemos. Já utilizamos, a cada ano, muito mais do que a Terra pode disponibilizar em termos de capacidade de reposição, de nascimento e crescimento de plantas, de animais que nascem e animais que morrem, caçados pelo homem, de manutenção da biodiversidade.

A utilização da Caatinga original, quando não deixa o solo totalmente desnudo, dá lugar a uma Caatinga secundária. Na nossa fazenda, essa Caatinga secundária era formada por marmeleiros e por juremas, com grande redução na diversidade das espécies encontradas. Nos roçados e nas capoeiras de algodão, a disseminação do carrapicho estava por todo lado.

Na época, eu não pensava nessas coisas. Estava feliz de ficar ao lado do meu pai, de parecer importante para os objetivos dele.

Bom, voltemos à caçada. Meu pai achou que estava ficando tarde, que devíamos regressar à casa. Eu me sentia seguro, sob a proteção dele. O tempo estava nublado, poderia chover mais tarde. E, de fato, choveu, logo depois que chegamos em casa. Mas, então, já estávamos protegidos, deitados sob o som da chuva que caía no telhado da casa.

Por Antonio Rocha Magalhães
Economista
Ex-Secretário de Planejamento do Ceará
armagalhaes@gmail.com

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