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Chuvas extremas em SP serão cada vez mais comuns, diz cientista

Compartilhe:     |  11 de fevereiro de 2020

As intensas chuvas que atingiram a Região Metropolitana de São Paulo na madrugada e na manhã desta segunda-feira, 10, são exemplo de um fenômeno que tem se tornado cada vez mais comum na região, causado em parte pelas mudanças climáticas e o processo de urbanização desorganizada da cidade.

Uma revisão dos registros de chuvas ao longo das últimas sete décadas aponta que houve um aumento significativo no volume total de precipitação nas temporadas de chuva ao longo do período. Enquanto na década de 1950 praticamente não havia dias com chuvas fortes – expressão usada para designar precipitações com mais de 50 mm -, hoje elas têm ocorrido de duas a cinco vezes por ano nos últimos dez anos.

É o que mostra um trabalho recém-publicado por vários pesquisadores brasileiros liderados pelo climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Os eventos extremos estão cada vez mais frequentes, ao mesmo tempo em que a vulnerabilidade da população também. Por isso desastres como enchentes, enxurradas e deslizamentos de terra afetam cada vez mais pessoas”, disse Marengo ao Estado.

Nesta segunda, ao falar sobre como o governo está lidando com o problema, tanto o governador João Doria (PSDB) quanto o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, argumentaram que as chuvas têm aumentado por causa das mudanças climáticas. Doria chegou a afirmar que “evitar por completo” os estragos com investimentos em infraestrutura não será possível em razão disso.

“Evitar por completo não será, evidentemente, algo possível, já que a incidência de chuvas ao longo dos anos, a mudança climática, está impondo um volume de chuvas maior”, disse Doria, logo após um evento de inauguração de um escritório da agência de investimentos estadual, a Investe SP, em Dubai.

“Mudança climática não é discurso de ambientalista. Está chovendo nessa década o que não choveu no século passado”, disse Penido. Segundo a pasta, apenas nesta madrugada, choveu 66% do total esperado para todo o mês de fevereiro. De acordo com Penido, os mais de 78 pontos de alagamento registrado pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climática (CGE) aconteceram porque o volume de chuva ultrapassou o que estava previsto na série histórica de 100 anos, usada para calcular o sistema de drenagem das chuvas. “Tudo foi implantado com essa lógica.”

De fato, análises feitas sobre as séries históricas de registro de chuva feitas pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), no Mirante de Santana, apontam que entre os meses do verão, houve um aumento neste século da incidência de dias com fortes chuvas e na frequência de eventos extremos de chuva na Região Metropolitana de São Paulo.

“O número de dias secos consecutivos também aumentou gradualmente, sugerindo que os eventos de chuva intensa concentram-se em menos dias, com longos períodos mais secos entre eles. Com menos noites frias e mais dias quentes, aumentam as chances de ocorrência de chuvas convectivas, trazendo aumento da frequência e intensidade de chuvas extremas, que podem causar desastres naturais, inundações e deslizamentos de terra, afetando pessoas vulneráveis em regiões expostas”, escrevem os autores em artigo nos Anais da Academia de Ciências de Nova York.

Marengo afirma que as mudanças climáticas podem ter relação com esse aumento de frequência, mas também o processo de urbanização. “É uma tendência que se observa em todo mundo de que os extremos de chuva estão aumentando. A chuva está caindo de forma mais violenta. Isso pode estar ligado ao clima, mas também pode ser atribuído à cidade. Em São Paulo, onde antes era a Mata Atlântica, hoje é uma cidade. O ambiente mudou. Isso cria um microclima que de certa forma ajuda a chuva a ficar mais violenta”, explica.

E pondera também que atribuir o problema às mudanças climáticas é esquecer que a forma como as cidades estão construídas, com córregos subdimensionados, vias impermeabilizadas e ocupações irregulares, trazem um ingrediente fundamental para o desastre. “O que ocorre não é só a chuva forte, mas uma combinação com populações morando em área de risco. As pessoas não morrem pela chuva, mas pela enxurrada, pelo deslizamento de terra, que são amplificados por essas condições”, diz.

“Não é segredo que as chuvas estão aumentando, mas as cidades continuam não preparadas. Não é a primeira vez que acontece isso e não será a última. Pelo contrário, esse tipo de evento como o de hoje tende a ficar cada vez mais frequente.”

Os autores ressaltam que as mudanças climáticas vão ampliar os riscos sociais e ambientais existentes e criar novos riscos para as cidades. “Compreender e antecipar essas mudanças ajudará as cidades a se prepararem para um futuro mais sustentável. Isso significa tornar as cidades mais resistentes a desastres relacionados ao clima e gerenciar riscos climáticos de longo prazo de maneira a proteger as pessoas e incentivar a prosperidade”, escrevem.

Pior chuva desde 1983

Um forte temporal atingiu a capital na madrugada desta segunda-feira, 10, elevando o volume de chuva dos dez primeiros dias de fevereiro a 208 milímetros, o equivalente a 96% da previsão para todo o mês. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), esta é a pior chuva de São Paulo para um mês de fevereiro desde 1983.

Ao todo, foram registrados 132 pontos de alagamentos na grande São Paulo durante o início do dia, 66 deles intransitáveis, de acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências Climática da Prefeitura de São Paulo (CGE). Os bairros de alerta pela manhã eram Ipiranga, Butantã, Tremembé e Perus.

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), o rodízio de carros está suspenso para veículos leves e caminhões. No entanto, permanece a restrição para circulação de caminhões e fretados nas zonas em que já são impedidos de circularem. A empresa bloqueou o acesso à Marquês de São Vicente.

O temporal ultrapassou o recorde do nível de água do rio Pinheiros, marcando 719.6mm. Este é o maior valor já registrado desde 2005, quando o rio chegou a 718.9mm, de acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. O órgão afirma que, apenas nesta madrugada, choveu 66% do total esperado para todo o mês de fevereiro.

“Mudança climática não é discurso de ambientalista. Está chovendo nessa década o que não choveu no século passado”, afirma Marcos Penido, secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente, ao Estado. De acordo com ele, os mais de 78 pontos de alagamento registrado pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climática (CGE) aconteceram porque o volume de chuva ultrapassou o que estava previsto na série histórica de 100 anos, usada para calcular o sistema de drenagem das chuvas. “Tudo foi implantado com essa lógica.”

Até as 6h05, o CGE da Prefeitura de São Paulo registrava 56 pontos de alagamento, sendo 49 deles intransitáveis. Na Zona Norte, só a Casa Verde registra sete pontos de alagamento, todos eles sem possibilidade de trânsito. A Lapa é a região da cidade com o maior números de pontos alagados totalizando 20 regiões críticas. A Marginal Tietê está interrompida e alguns pontos da Marginal Pinheiros permanecem alagados.

A orientação do órgão é para que as pessoas não saiam de casa ou tentem enfrentar o temporal e os alagamentos. O porta-voz do Corpo de Bombeiros, capitão Marcos Palumbo, informou ao jornal O Estado de S. Paulo que a corporação recebeu 4090 chamados desde a noite deste domingo, 9, até manhã desta segunda-feira. Entre meia-noite e 11h30, foram registradas 546 enchentes, 97 quedas de árvores e 88 desabamentos e desmoronamentos.

Segundo Palumbo, no momento equipes do Corpo de Bombeiros estão em 179 atendimentos. Não há informações de vítimas fatais. Uma adolescente de 16 anos foi atendida com escoriações em decorrência de desabamento em Pirapora do Bom Jesus, na Grande São Paulo.

Além disso, de acordo com a CPTM, as chuvas provocaram alagamentos na Linha 9 – Esmeralda e os trens não estão circulando entre as estações Osasco e Santo Amaro. Ainda segundo o órgão, os passageiros aguardam a chegada de ônibus para atender o trajeto. Das sete linhas de trem, cinco operam normalmente. A Linha Diamante também opera parcialmente, com interrupção entre Comandante Sampaio e Itapevi.

A CMSP, entretanto, afirma que o metrô funciona normalmente em todas as linhas.



Fonte: Exame - Estadão Conteúdo



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