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Cientistas descobrem micróbios que podem representar ‘elo perdido’ da vida complexa na Terra

Compartilhe:     |  7 de maio de 2015

Todos seres vivos mais complexos da Terra, sejam fungos, plantas ou animais, são em geral compostos basicamente por conjuntos de células com núcleo definido, onde fica guardado seu DNA, diversas organelas (pequenos órgãos) dentro de uma membrana, e com vários formatos e funções diferentes, chamadas eucarióticas. Mas a vida no planeta teria começado de forma bem mais simples, com micro-organismos unicelulares, isto é, de apenas uma célula, em que seu material genético “flutua” livre em seu interior, onde também estão presentes apenas algumas poucas organelas essenciais, conhecidas como procarióticas. Assim, a maneira que os seres eucariontes teriam evoluído a partir dos procariontes é objeto de dúvidas e intensos debates entre os cientistas, num mistério que começa a ser solucionado com a recente descoberta de uma nova linhagem de micróbios que representariam o “elo perdido” entre os dois.

Encontrada junto a fontes hidrotermais a mais de 2 mil metros no fundo do Oceano Ártico, entre a Noruega e a Groenlândia, esta linhagem de micróbios, batizada provisoriamente de Lokiarchaeota, ou apenas “Loki”, tem características de procariontes, como a falta de um núcleo definido, mas também algumas de eucariontes, no meio caminho entre ambos. Seu nome é uma referência tanto à região da cordilheira oceânica onde foram achados, o “Castelo de Loki” (que por sua vez lembra o deus nórdico associado à travessura e ao caos), quanto ao domínio Archaea, cuja descoberta e classificação, nos anos 1970, pelo renomado biólogo Carl Woese já tinham surpreendido a comunidade científica.

Então, Woese mostrou que embora simples e pequenos como as bactérias, organismos procarióticos “típicos”, os integrantes do Archaea também podiam ser relacionados com os eucariontes. Com isso, passou-se a dividir a chamada “árvore da vida” na Terra em três ramos principais (os domínios Bacteria e Archaea, ambos procariontes, e o Eukaryota) e dando início à discussão se os seres mais complexos do planeta teriam evoluído a partir dos Archaea e, se sim, como.

– O quebra-cabeça da origem das células eucarióticas é extremamente complicado, com muitas peças ainda faltando – destaca Thijs Ettema, pesquisador da Universidade de Uppsala, na Suécia, e líder da equipe de cientistas responsável pela descoberta, relatada na edição desta semana da revista “Nature”. – Esperávamos que os Loki revelassem mais algumas peças deste quebra-cabeça, mas quando obtivemos os primeiros resultados não podíamos acreditar no que estávamos vendo. Os dados eram simplesmente espetaculares.

Segundo os pesquisadores, análise do DNA da nova linhagem de micróbios mostrou que ela tem mais de 150 genes para a produção de proteínas que até agora eram considerados exclusivos da biologia dos eucariontes. Estes genes permitiriam aos Loki ter um citoesqueleto com base na proteína conhecida como actina, construindo e demolindo membranas para o transporte interno de substâncias, para se remodelar e mudar de formato e potencialmente também para capturar material de seu ambiente via os processos de endocitose ou fagocitose, funcionalidades antes só vistas em células eucarióticas.

E é principalmente por esta teórica capacidade de realizar a fagocitose que os Loki são suspeitos de representar um ponto-chave no caminho da vida entre os procariontes e os eucariontes. Pelas teorias mais aceitas atualmente, as mitocôndrias, uma das organelas que só existem nas células eucarióticas, seriam resultado da evolução de bactérias “sequestradas” do ambiente pelas precursoras dos seres eucariontes. As mitocôndrias têm um DNA próprio que mais parece com o das bactérias do que o encontrado no núcleo celular, e sua presença no interior das células teria forçado o aparecimento de uma barreira de separação justamente para evitar que isso provocasse uma espécie de “caos genético” no organismo. Além disso, as mitocôndrias funcionam como verdadeiras usinas de produção de energia das células eucarióticas, tendo assim fornecido o combustível necessário para que elas se organizassem em formas de vida mais complexas e pluricelulares.



Fonte: O Globo - Cesar Baima



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