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Cientistas encontram bactérias vivas que podem ter 100 milhões de anos

Compartilhe:     |  1 de agosto de 2020

Não importa o quão dorminhoco você seja, jamais vai superar a soneca desses concorrentes microscópicos. Uma equipe de cientistas japoneses e americanos encontrou bactérias enterradas no fundo do Oceano Pacífico que datam de mais de 100 milhões de anos atrás, e, surpreendentemente, ainda estão vivas. Em laboratório, os micróbios acordaram de seu estado de dormência quando alimentados e começaram a se replicar assim como bactérias em condições normais.

O estudo, publicado na revista Nature Communications, traz novos e interessantes dados sobre a vida na Terra, além de inaugurar alguns novos mistérios. Vamos por partes: tudo começou quando a colaboração internacional de cientistas decidiu investigar o fundo do Giro do Pacífico Sul, uma região oceânica entre a América do Sul e a Austrália conhecida por ter poucos nutrientes e, consequentemente, pouquíssimas formas de vida. Estudos anteriores já haviam encontrado micróbios no local, mas a equipe queria checar até que ponto esses organismos poderiam ser localizados, e por quanto tempo eles aguentariam viver em um ambiente tão inóspito.

Os pesquisadores então coletaram amostras de argila de mais de 70 metros abaixo do solo oceânico (que, por sua vez, é coberto por quase seis quilômetros de água) e levaram para análises em laboratório. A primeira coisa que eles notaram foi que havia pequenas quantidades de oxigênio nas amostras, o que permitiria a existência de organismos aeróbicos ali, pelo menos teoricamente. Na sequência, a equipe começou a “alimentar” as camadas de argila com nutrientes como acetato e amônia. As substâncias tinham átomos de carbono e nitrogênio que funcionaram como marcadores, que podem ser rastreados e detectados caso um ser vivo as ingerisse, indicando a sua presença na amostra.

Esse processo de alimentação durou 557 dias e revelou, aos poucos, organismos vivos na argila que estavam se alimentando dos nutrientes e “acordando” de um processo de dormência. A equipe queria checar, no entanto, se as bactérias conseguiriam voltar totalmente ao normal, ou se permaneceriam com funções reduzidas mesmo com a presença de nutrientes. O resultado foi surpreendente e animador: apesar de inicialmente haver poucas células nas amostras, as bactérias logo começaram a se reproduzir massivamente após a introdução de nutrientes, como fazem bactérias em estado normal, indicando que estavam 100% ativas. Em 65 dias, a quantidade de células aumentou de mil para para um milhão de bactérias para cada centímetro cúbico de argila.

Mas como os cientistas sabem a idade dos micróbios? O valor foi estimado de acordo com a camada de argila em que eles foram encontrados, um cálculo que é bem estabelecido na geologia. Segundo a equipe, as camadas de argila encontradas eram cobertas por camadas de dióxido de silício, uma substância que seria impenetrável por qualquer microrganismo. Isso indica que as bactérias ficaram presas nas camadas de argila assim que elas foram formadas, e não que chegaram no local depois. Com isso, as mais velhas bactérias encontradas estão na camada que têm 101,5 milhões de anos, uma época quando os dinossauros ainda dominavam a Terra. Com isso, essas bactérias ganharam o troféu de seres vivos mais antigos ainda vivos que temos conhecimento.

Exatamente como as bactérias sobreviveram esse tempo todo ainda é um mistério, especialmente porque as amostras de argila continham pouquíssimos nutrientes considerados essenciais para a vida. Suspeita-se que os micróbios entravam em um estado de dormência que exigia o mínimo de energia, e de alguma forma conseguiam capturar esses poucos nutrientes do ambiente com maestria.

Não está claro, no entanto, se as bactérias se reproduziam através de divisão celular ou não. É possível que o processo acontecesse muito lentamente (em condições normais, bactérias se dividem e se multiplicam rapidamente). Mas é possível também que os indivíduos tenham ficado o tempo todo sem gerar descendentes. Isso é ainda mais fascinante, porque indica que algumas das células encontradas tem mais de 100 milhões de anos de existência, passando esse tempo todo apenas crescendo lentamente e regenerando a si mesmo – algo inédito e bastante chocante.

O estudo foi elogiado por diversos cientistas e logo chamou atenção para a discussão sobre a vida na Terra – e até fora dela. Embora já se saiba há bastante tempo que algumas bactérias e outros seres microscópicos (como as arqueas) consigam viver em condições extremas de temperatura, pressão e toxicidade, sobreviver em um ambiente com poucos nutrientes e por tanto tempo é algo bem mais difícil. Isso indica que locais anteriormente considerados inabitáveis por nós podem na verdade esconder formas de vida como essa, não só na Terra como também em outros lugares do Sistema Solar, ou até do Universo. Procurar por essas formas primitivas de vida em ambientes inóspitos tem sido um objetivo cada vez mais sério entre astrônomos, e o estudo indica um novo lugar para se olhar.

“Se a superfície de um planeta em particular não parecer promissora para conter vida, ela pode estar se escondendo no subsolo”, comentou, à revista Science, Andreas Teske, microbiologista da Universidade da Carolina do Norte, que não participou do novo estudo.

Análises genéticas posteriores revelaram que as bactérias encontradas eram diversas, pertencendo a oito grupos já conhecidos pela ciência, alguns que são encontrados em ambientes marinhos bem menos inóspitos que os analisados desta vez. Isso indica que a habilidade de sobreviver com pouquíssimos nutrientes é algo mais generalizado e não específico de apenas um grupo de bactérias. Segundo a equipe, uma hipótese é que o comportamento tenha evoluído há muito tempo como uma forma de sobreviver em épocas em que não havia muita matéria orgânica no ambiente.

De qualquer forma, ainda há muito que não se sabe sobre esses seres, o que faz dessa descoberta o primeiro passo de uma longa jornada para entender o comportamento da vida em nosso planeta.



Fonte: Superinteressante



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