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Cientistas mergulham à procura dos segredos das grutas de Sagres

Compartilhe:     |  14 de julho de 2014

Na Catedral não se reza. Mergulha-se de lanterna em punho à procura de corais, esponjas, crustáceos e peixes, e tiram-se medidas às rochas, numa espécie de raio-x subaquático. Nesta gruta da costa de Sagres ainda se escondem muitos segredos e há um grupo de investigadores da Universidade do Algarve (UAlg) que quer desvendá-los.

João Rodrigues é um dos responsáveis por esta “caça ao tesouro”. O biólogo marinho da UAlg, especializado em grutas, é o autor do Projeto sobre a Vida nas Grutas Marinhas, que envolve mais três investigadores. O objetivo é mapear a biodiversidade e a geologia de grutas marinhas, com vista à conservação destes habitats de difícil acesso, sobre os quais se sabe ainda muito pouco.

Em Sagres, vão ser estudadas três grutas: depois da Catedral, os cientistas vão mergulhar na caverna conhecida como Segredo do Segredo e na Queijo Suíço. Mas o projeto, que dura três anos, prevê também o estudo das grutas marinhas das costas irlandesa e italiana, para comparar resultados.

Se a maré estiver baixa, a entrada para a Catedral vê-se do barco. Esta é uma gruta escavada no fundo da falésia, com túneis e galerias completamente submersas (com profundidade máxima de 16 metros) e outras em que o teto — de onde escorrem estalactites que parecem chocolate derretido — está a cerca de 15 metros da superfície da água.

“Há zonas de caverna onde conseguimos ficar a seco e aceder a uma praia de calhau rolado, penetrando 120 metros para dentro da rocha”, diz João Rodrigues, que fez esta semana mergulhos de exploração. O primeiro, na terça-feira, durou 102 minutos.

Os mergulhadores — apetrechados com fatos que não deixam entrar água, lanternas potentes e duas garrafas de ar — recolheram amostras de espécies de fauna e flora e fizeram anotações que lhes vão permitir fazer uma cartografia detalhada do espaço a três dimensões. “Vamos conseguir mapear a distribuição das espécies e relacioná-la com o mapeamento geológico da gruta”, explica o biólogo.

O primeiro estudo desta gruta foi realizado há 20 anos pelo biólogo marinho Luiz Saldanha (falecido em 1997). Desde então, diz João Rodrigues, as alterações das correntes, da temperatura da água e do clima trouxeram para este habitat novas espécies, também fruto da confluência entre o Mediterrâneo e o Atlântico.

Com esta exploração, os cientistas da UAlg querem responder a várias perguntas sobre a formação daquele espaço (que terá ocorrido há cerca de 18 mil anos) e as espécies que nele habitam — algumas eventualmente desconhecidas para a comunidade científica e outras que usam a gruta como berçário. “Se encontrarmos espécies em vias de extinção, ou cuja população esteja a decrescer devido à pesca ilegal que continua a fazer-se nesta área protegida, podemos propor medidas especiais de conservação”, exemplifica João Rodrigues.

Os cientistas vão também procurar infiltrações de água doce, uma vez que foram já identificadas zonas de haloclina — nome dado à mistura entre água doce e salgada. A equipa de João Rodrigues ainda não sabe qual a origem desta água doce, mas acredita que poderá localizar o aquífero durante a investigação.

O projeto da UAlg envolve investigadores do Centro de Ciências do Mar, do Centro de Investigação Marinha e Ambiental e do Centro de Mergulho Científico. Tem também apoio da Global Underwater Explorers (GUE), uma organização internacional dedicada ao ensino do mergulho e à exploração e preservação do meio aquático, que tem em curso uma expedição no âmbito do projeto Baseline. Esta iniciativa de conservação ambiental dá apoio logístico e científico a projetos como o de João Rodrigues. Assim, ao largo de Portimão está ancorado, até sábado, um navio equipado com alta tecnologia subaquática, como mini-submarinos e uma câmara hiperbárica.

Nesta expedição internacional, Portugal é só um dos pontos de passagem: começou nas Baamas, passou pela Florida (EUA) e já esteve nos Açores — onde os cientistas acreditam ter encontrado uma nova espécie de coral negro, até então desconhecida. No sábado parte para o Mediterrâneo.

Proteger o “ouro vermelho”
Através do Baseline, a GUE apoia ainda outro projeto: o Recifes Profundos, que é liderado por Joana Boavida, bióloga marinha da UAlg. Consiste no estudo e mapeamento da biodiversidade dos habitats marinhos profundos (dos 30 metros até aos 100 metros), só que em vários locais ao longo da costa portuguesa.



Fonte: Público



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