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Clínica do feminino

Compartilhe:     |  4 de abril de 2015

Viver o feminino diz respeito a perder o medo do abandono, da solidão e do fracasso. É ficar distante dos modelos estabelecidos

Por Déa Januzzi*

Crédito: Domínio Público

Em nome das mulheres, digo que o feminino está doente, sofrendo de um mal incurável. Assim como a Mãe Terra, que é mulher, feminina e constantemente violentada, castigada, estuprada. Não se garante mais como fonte inesgotável de recursos. Como as mulheres, as florestas, os mananciais e os cursos de água têm sido retalhados.

Para me salvar de mim mesma, das angústias e dúvidas que me consomem, do vulcão que sou e está em constante erupção é que vou procurar a Clínica do Feminino, para ver se encontro um diagnóstico para a minha dor de ser mulher. Aproveito e peço socorro também para a Mãe Terra.

Fundadora da Clínica do Feminino, Marisa Sanabria é psicóloga e mestre em Filosofia. Ela escuta atentamente sobre os vaga-lumes que se acendem dentro de mim em certos dias. Falo das minhas erupções e labaredas internas, sobre as tempestades e tsunamis que devastam os meus dias. Peço que me ensine essa difícil tarefa de ser mulher.

Marisa diz que “não dá para ensinar, pois trata-se de um gesto, de uma atitude frente à vida”. O feminino não se ensina, se exerce e, sobretudo, se compartilha. O feminino diz respeito ao acolher, ao preservar e perambular. Ele não tem lugar marcado, não é capturado pela cultura ou pela civilização, não reclama o protagonismo nem instaura a lei, não é sua a palavra que determina o que está certo ou errado, o que deve ser perdoado ou condenado, enfim, ele não está no palco. Ao contrário: o feminino é a trama, o tecido que sustenta a realidade da existência.

Em nome do Dia Internacional da Mulher, que está sendo comemorado este mês, Marisa pede emprestado ao sociólogo francês Jean Baudrillard uma citação do livro “A Sedução, o Horizonte Sagrado das Aparências”. O autor revela que um dos grandes esforços do mundo patriarcal tem sido “capturar, silenciar e programar o feminino, que sempre se mostrou como força transbordante, indeterminada, surpreendente e desafiadora da norma estabelecida”.

As mulheres vivem sob uma estrutura patriarcal, numa arena de poder, de submissão, de abuso de uma força contra outra. É preciso lembrar que patriarcal não é o mesmo que masculino, que diz respeito a uma atitude em relação à vida, de lucidez, constância e segurança.

Em nome do feminino, Marisa esclarece que o abuso de poder pode ser exercido por qualquer um, seja homem ou mulher. Há mães patriarcais, autoritárias e ameaçadoras, mulheres distantes, frias e calculistas, dispostas a vencer a qualquer preço. Assim como homens bélicos, cruéis, insensíveis e despóticos.

Em nome de todos, Marisa lembra que o mundo da tecnologia e dos afetos descartáveis, líquidos, tem gerado um patriarcado em sua versão mais cruel, violenta e intolerante. Esse é o grande desafio para o feminino, pois as mulheres de hoje estão distantes do afeto, da simplicidade, do acolhimento, da concavidade como força que se deixa penetrar.

Em nome da sobrevivência, a mulher se tornou uma caricatura, se encaixando nos modelos vigentes do soldado exausto, da executiva eficiente, da gata erotizada, da cigana desprevenida, enfim, em fórmulas artificiais.

A culpa, o estresse, a depressão, a raiva contida e a vingança têm sido a resposta de mulheres amargas, desiludidas, enfermas, sem alegria nem vitalidade. O feminino é, antes de tudo, uma força civilizadora imprescindível, pois remete a movimentos mais holísticos, integradores, ecológicos e tolerantes.

Na Clínica do Feminino chegam mulheres jovens, ansiosas para alcançar o modelo do êxito, com medo de amar, de se entregar e de serem descartadas. E também mulheres maduras, amargas, entristecidas, com pavor do envelhecimento e da morte.

Onde está o feminino nessas mulheres que sofrem? Ficou escondido, mutilado, abandonado. Como desejar um mundo menos desigual, se o feminino em todos nós, homens e mulheres, é um produto escasso e fora de moda?

Em nome das mulheres é preciso esclarecer que exercer a feminilidade não tem nada a ver com submissão, perda da autoestima, do respeito ou da dignidade. Viver o feminino diz respeito a perder o medo do abandono, da solidão e do fracasso. É ficar distante dos modelos estabelecidos. É deixar de ser implacável e exigente com a gente mesmo. Soltar a armadura e sair da trincheira, para poder ser, exercer e escolher o próprio destino, qualquer que seja.

* Déa Januzzi é jornalista e escritora.

Fonte Revista Ecológico



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