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Cobras exóticas como naja e víbora ameaçam espécies nativas do cerrado

Compartilhe:     |  22 de julho de 2020

Criar um animal exótico pode parecer curioso e interessante, seja ele um peixe raro, seja uma serpente ou até mesmo um pássaro. Essas e outras espécies chamam a atenção dos criadores pela beleza e pelas cores. Muitas delas, inclusive, não representam riscos ao seres humanos. Contudo, as consequências ao meio ambiente podem ser drásticas e irreversíveis, apontam os especialistas da área. A repercussão do caso do jovem picado por uma naja kaouthia trouxe à tona a questão do tráfico de animais exóticos e silvestres. A atividade ilegal é considerada a terceira mais rentável do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas e de armas.

Desde o dia em que Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, de 22 anos, foi picado pela naja que ele mesmo criava no apartamento onde mora, no Guará 2, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Polícia Civil do DF capturaram outras 33 serpentes. Entre elas, uma víbora-verde-de-vogel, originária da Ásia e sem antiofídico no Brasil, e a cobra-do-milho, dos Estados Unidos.

Correio conversou com especialistas em animais silvestres, que alertam para o perigo de serpentes desse tipo serem soltas na natureza, especificamente, no território da capital da República. Na avaliação de Dener Giovanini, coordenador geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), os “invasores”, como também são chamados, representam um perigo para o ecossistema local. “Todas as espécies, de maneira geral, estão conectadas ecologicamente e qualquer interferência no meio ambiente, como a presença de outros bichos exóticos, traz consequências”, afirmou.
VÍbora-verde-de-voguel é originária da Ásia e não tem antiofídico no Brasil (foto: Zoológico de Brasília/Divulgação )
VÍbora-verde-de-voguel é originária da Ásia e não tem antiofídico no Brasil(foto: Zoológico de Brasília/Divulgação )
Para se ter uma ideia, o professor dá o exemplo de uma naja, da mesma espécie que picou Pedro Henrique. “Se você solta essa cobra propositalmente ou acidentalmente, provavelmente ela vai comer os ratos silvestres, que vão começar a desaparecer do ecossistema. No caso de cobras maiores, como a píton, teríamos um desequilíbrio nos pequenos mamíferos, como a cutia, capivara e lagartos. A cadeia ambiental é complexa e extremamente frágil”, observou.

Riscos à sobrevivência dos animais

Um outro problema está associado à sobrevivência dessas serpentes na natureza, como destaca Líria Queiroz Hirano, professora de animais silvestres da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB). “É imprevisível saber o que pode ocorrer com esses animais no meio ambiente, pois tudo depende de uma série de fatores. Por isso, sempre batemos na tecla da entrega voluntária. Soltando esses animais no meio ambiente, colocaremos em risco, também, a sobrevivência deles, uma vez que eles estavam acostumados a receber alimento fácil e não têm o instinto da caça. Ou seja, dificilmente se adaptariam sozinhos”, frisou.
A possibilidade de espécies invasoras trazerem doenças infecciosas aos seres humanos é alta, como revela o Relatório Mundial sobre Crimes da Vida Selvagem da Organização das Nações Unidas (ONU). O documento enfatiza a ameaça que o tráfico de animais silvestres representa para a natureza e a biodiversidade do planeta. Entre as consequências, está o aumento do potencial para a transmissão de doenças zoonóticas (causadas por patógenos que se espalham de animais para humanos). Essas doenças representam até 75% de todas as doenças infecciosas emergentes, incluindo a Sars-Cov-2, que causou a pandemia do novo coronavírus.
“Se a naja que picou o jovem, por exemplo, estivesse com algum vírus, poderia facilmente transmiti-lo às pessoas, o que causaria um prejuízo enorme. Toda espécie ocupa um papel biológico. Nesse cumprimento, tem a alimentação. Se você pega e introduz esse bicho no ambiente, ele vai competir com os outros, muitas vezes, pela água e comida”, detalhou Alberto Brito, biólogo e superintendente de educação do Zoológico de Brasília.

Tráfico on-line

Levantamento produzido pelo Renctas mostra que o mercado ilegal de vendas de animais exóticos e silvestres está concentrado nas redes sociais. Integrantes da ONG monitoraram no ano passado, durante cinco meses, grupos de vendas de espécies nativas de outros países. A equipe interceptou mais de 3,5 milhões de mensagens relacionadas ao tráfico de animais (veja as fotos). “As redes substituíram as antigas feiras livres que se comercializavam os animais. Hoje, a grande maioria migrou para essas plataformas, porque a internet oferece vantagens. A primeira é que o traficante pode anunciar o animal sem pagar por isso. A segunda, é que ele ainda tem o anonimato”, finalizou Dener.
Usuários utilizam as redes sociais para venderem, ilegalmente, cobras exóticas (foto: Renctas/Divulgação)
Usuários utilizam as redes sociais para venderem, ilegalmente, cobras exóticas(foto: Renctas/Divulgação)


Fonte: Correio Brasiliense - Darcianne Diogo



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