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Com térmicas, poluição provocada por energia mais que dobra no país

Compartilhe:     |  23 de agosto de 2014

O Brasil mais do que dobrou em dois anos a emissão de gases causadores do efeito estufa para produzir a mesma quantidade de energia. O regime de chuvas abaixo do esperado e a política de uso pleno das termelétricas para suprir a demanda foram responsáveis pelo avanço de uma matriz energética mais suja, que aumenta o nível de poluição de toda a cadeia produtiva. Ao emitir mais poluentes, o Brasil pode perder um dos trunfos que detinha nas negociações internacionais sobre o clima, além de se colocar na contramão da tendência verificada em economias desenvolvidas e emergentes.

Na comparação entre a média mensal do acumulado de janeiro a julho de 2012 e o mesmo período deste ano houve crescimento de 182% das emissões de CO2 na produção de um megawatt-hora (MWh). Dois anos antes – 2010 a 2012, último ano com dados fechados – a emissão total de gás carbônico da economia brasileira havia caído 3,5%. Segundo especialistas, essa mudança enfraquece a posição do governo no próximo encontro internacional sobre o clima, que deve acontecer em dezembro do ano que vem em Paris. A inflexão na matriz energética acontece em um momento no qual os ganhos obtidos com a bem sucedida política de combate ao desmatamento estão perto de seu esgotamento e pode fazer o país voltar a registrar aumento de emissões totais de CO2 na atmosfera.

O forte crescimento das emissões pelo setor de energia é verificado no acompanhamento mensal sobre o tema do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Na comparação com o ano passado, o nível de dióxido de carbono ficou 17% maior neste ano. O fator médio mensal também mostra crescimento mês a mês das emissões no período.

Esse incremento foi uma resposta do sistema ao nível dos reservatórios das hidrelétricas, que começaram a baixar no fim do primeiro semestre de 2012, segundo os relatórios do Operador do Sistema Nacional (ONS), em função de um verão anterior com chuvas aquém da média histórica. Em junho daquele ano, o nível dos reservatórios do sistema Sudeste/Centro-Oeste – maior do país – estava em 72%. Em junho deste ano ele caiu pela metade.

Com menos água e menos capacidade de produção via hidrelétricas a solução adotada para manter o suprimento à crescente demanda por energia foi o acionamento de termelétricas movidas a gás natural, óleos derivados de petróleo e carvão. O movimento mudou a matriz energética brasileira. A média mensal do acumulado de janeiro a julho de 2012 mostra a geração por hidrelétricas como responsável por 89% da energia produzida, enquanto as térmicas responderam por 7,3%. Dois anos depois, na mesma comparação, as térmicas triplicaram a presença na matriz, para 21,7% do total. As hidrelétricas caíram para 74,6%.

A presença maior naquele período de hidrelétricas na geração suavizou ganho de peso que o setor energético teve nas emissões gerais do Brasil. O último relatório anual disponível do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases do Efeito Estufa (Seeg) do Observatório do Clima, referente a 2012, apontou recuo anual das emissões totais do país ano a ano desde 2005. As emissões de gases de efeito estufa por desmatamento caíram pela metade no período, para 32% do total. A energia, por outro lado, ampliou a presença como fonte poluente de 14% para 29% em oito anos. O restante de gases causadores do efeito estufa veio da agricultura e da indústria.

Há hoje dois fatores novos na relação entre economia e poluição da atmosfera no Brasil, na visão de José Goldemberg, professor emérito da USP e presidente do conselho de sustentabilidade da FecomercioSP. A primeira é que o impressionante ritmo de queda da parcela do desmatamento nas emissões totais do país, dado em um período curto de tempo e que parece ter chegado a um limite, ajuda a jogar luz no desempenho de outras fontes poluentes, ofuscadas até então pelo peso do fator desmatamento. A segunda é que como o país está emitindo mais gases de efeito estufa para sustentar sua matriz energética, haverá uma mudança na postura brasileira no cenário internacional.

“O Brasil sempre apareceu como um grande herói no exterior, e de maneira justa, porque foi um dos poucos países do mundo que reduziu o desmatamento e as emissões. Agora, com as emissões do setor energético crescendo desse jeito, ele vai perder essa posição privilegiada que ocupava nas negociações sobre o clima”, afirma Goldemberg.

Gustavo Luedemann, coordenador-geral de mudanças globais de clima do MCTI, ressalta que mesmo com a perspectiva de mais emissões, o Brasil está em um nível abaixo do projetado pela Política Nacional sobre Mudança de Clima. Ele classifica como “mais escasso” o potencial de ampliação da energia via hidrelétricas no futuro. “É natural que as emissões cresçam. A tendência é que outras fontes fiquem com participação maior na produção total. Há um custo ambiental grande se optarmos por novas hidrelétricas”, diz.

Na visão do governo, pode ser que a emissão total tenha aumentado nos últimos dois anos, mas a oscilação não é uma tendência de longo prazo. “Muitos reservatórios devem sofrer com os próximos regimes de chuva. Esse é o desafio maior. Mas no cenário futuro com o qual estamos trabalhando, entre 2030 e 2050, o foco está em cada vez mais analisar e desenvolver cenários econômicos que levem em conta diferentes plataformas de energia e com isso novas maneiras de mitigar os poluentes que elas emitem”, afirma Luedemann.

Os últimos meses, no entanto, apontam para um recorde do nível de CO2 na geração de eletricidade. Já em abril, a emissão de 0,131 tonelada do gás para um MWh de energia havia sido a maior para um mês desde o início da série histórica medida pelo ministério, em 2006. Nos três meses seguintes, as emissões não pararam de crescer. Os dados de julho, divulgados na última terça-feira, mostraram-se piores: média de 0,144 tonelada de CO2 /MWh no mês. Ricardo Dinato, pesquisador do programa brasileiro GHG Protocol, organizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e que mede as emissões do país, ressalta que o Brasil enverga a economia em uma direção de menor competitividade.

A “pegada de carbono” da atividade, que é o quanto de poluentes determinado produto causou ao ser produzido, também aumenta junto com uma energia mais suja sob a ótica do meio ambiente. Ao mesmo tempo, Estados Unidos e China, que possuem “pegada” maior e matrizes com mais combustíveis fósseis, colocaram em marcha programas agressivos de redução de emissões. “Essa sempre foi uma vantagem competitiva nossa, que agora começamos a colocar em risco se essa tendência não for revertida”, diz o pesquisador.

Dinato acredita que ano que vem as emissões devem crescer sobre este ano na medição do ministério. “Como a situação hidrológica está cada vez pior, os reservatórios não vão se recuperar já para o ano que vem”, diz para depois lembrar que há forte relação entre o nível de CO2 na atmosfera e índices pluviométricos. “Mais gases poluentes, mais mudança climática, mais distorção dos regimes de chuvas. Então, é uma situação que tende a piorar.”



Fonte: Unisinos



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