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Como a ciência contribuiu com machismo e racismo ao longo da história

Compartilhe:     |  17 de junho de 2020

“O homem é mais poderoso em corpo e mente que a mulher, e no estado selvagem ele a mantém numa condição de servidão muito mais abjeta que o faz o macho de qualquer outro animal; portanto, não surpreende que ele tenha ganhado o poder de seleção”, escreveu Charles Darwin no segundo volume de A Origem do Homem, publicado em 1871. O trecho, que hoje seria considerado inadmissível, não chocou a classe científica da época, ocupada demais em criticar a relação de parentesco entre o ser humano e outros primatas, proposta pela mesma obra. Mas não dava para esperar muito: a ideia de que as mulheres seriam inferiores aos homens era amplamente aceita na época.

Até o século 19, infelizes colocações como essa foram muito comuns entre grandes cientistas e pensadores, como Rousseau, Schopenhauer, Vogt, Nietzsche e Freud. Na verdade, a ideia de “inferioridade feminina”, remonta à Grécia Antiga. Não por acaso, é desse período que data a palavra misoginia, que define o ódio (miseó) ou aversão às mulheres (gyné).

Aristóteles, aluno de Platão, foi uma das autoridades da filosofia grega que manteve um discurso focado na diferença entre os gêneros. “A visão de Aristóteles é baseada na questão de ordem e hierarquia”, contextualiza a historiadora Ana Paula Vosne Martins, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista em história das mulheres. “É com essa perspectiva que ele analisa o cosmos e a natureza. Os seres humanos, como parte dessa natureza, também são ordenados em categorias hierárquicas. Masculino e feminino, quente e frio, seco e úmido, reto e curvo etc.”

Idealizador do modelo do sexo único, o fisiologista acreditava que havia apenas um sexo que podia ser considerado padrão de perfeição para todos os seres: o masculino. A justificativa para isso estava na falta de “calor vital” das mulheres que, além de frias e úmidas, tinham uma genitália “virada para dentro”. Os homens, por outro lado, eram quentes e secos, e por isso seu calor vital havia feito com que desenvolvessem órgãos externos e “potentes.”

A descrição do corpo feminino como uma versão menos desenvolvida do masculino pode ser vista até o século 19, permeando inclusive — e principalmente — o surgimento de campos de estudo como a ginecologia e a obstetrícia. Por muito tempo, essas áreas da medicina foram importantes para reforçar o papel maternal das mulheres, dificultando que elas se posicionassem sobre qualquer assunto ou ocupassem espaços que não fossem o lar.

Entre elas estava a frenologia, que assimilava o tamanho de determinada região do cérebro à capacidade que uma pessoa tinha de executar ou desenvolver certa habilidade. Outra técnica sem fundamento muito comum foi a craniometria, que comparava o tamanho e o formato de crânios de outras etnias e gêneros com o padrão do homem europeu. Pesquisas nessas duas áreas serviram como base para muitos discursos racistas e sexistas da época.

“A gente sempre considera a ciência como o terreno da neutralidade, onde não existe discriminação. Mas boa parte da ciência produzida no século 19 criou ou fomentou preconceitos existentes nas sociedades daquela época”, afirma Vosne. Nesse sentido, pode-se dizer que muitos estudos eram utilizados para validar a ideia de que certos grupos, como as mulheres ou os negros, seriam inferiores e, por isso, deveriam estar à deriva da subordinação política, social e intelectual.

Sexismo e racismo se encontram

Um dos principais exemplos disso é o caso de Saartjie Baartman (também conhecida como Sarah Baartman), uma mulher sul-africana do grupo khoikhoi, de tradição nômade. Analfabeta e sem família, ela teria assinado um contrato com colonizadores da Cidade do Cabo: o cirurgião britânico William Dunlop e o showman Hendrik Cesars, um homem negro e livre. Em 1810, Baartman foi levada até Londres e apresentada à plateia do Piccadilly Circus como parte de um freak show (show de aberrações) . O motivo de sua exposição era o interesse dos colonos por suas nádegas protuberantes, fruto de uma condição genética que causa acumulação de gordura no local, algo comum entre populações da África Meridional.

Ilustração de Saartjie Baartman retirada do segundo volume do livro Illustrations of the Natural History of Mammals. Em 1815, foi estudada como
Ilustração de Saartjie Baartman retirada do segundo volume do livro Illustrations of the Natural History of Mammals. Em 1815, foi estudada como “mulher da raça Bôchismann” por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire e Georges Cuvier, responsáveis por criar teorias a cerca da inferioridade de etnias não-europeias (Foto: Biblioteca Nacional da França/Wikimedia Commons)

Baartman passou anos transitando entre Inglaterra e Irlanda, por onde foi exibida como atração em feiras e em casas de membros da elite que pagavam para poder tocar seu corpo. Diante da rotina degradante, Baartman se viciou em álcool e fumo. Em 1814, ela foi levada à França e comprada por um treinador de animais chamado S. Reaux, que a prostituiu e, mais tarde, ofereceu-a para um grupo de cientistas que pretendiam estudar sua anatomia e entender a relação do ser humano com outros animais. Fazia parte desse grupo o naturalista francês Georges Cuvier, “pai da paleontologia”, professor de anatomia comparada e pesquisador do Museu de História Natural da França. O cientista dançou com Baartman em festas organizadas por Reaux e dissecou seu corpo após sua morte em 1815, aos 26 anos, sem causa determinada. Os estudos influenciaram outros cientistas a compararem o corpo da sul-africana com o de mulheres brancas, numa tentativa de reafirmar a sexualidade primitiva da “mulher selvagem.”

Cérebro, esqueleto, genitália e outras partes do corpo de Baartman ficaram expostos no Museu do Homem, em Paris, até os anos 1970. Em 2002, seus restos finalmente retornaram à África do Sul, a pedido de Nelson Mandela, em respeito à memória da mulher.

Além dela, muitas outras mulheres negras foram submetidas a experiências desumanas em nome da ciência do século 19. O médico norte-americano James Marion Sims, considerado o pai da ginecologia moderna, por exemplo, realizava cirurgias sem anestesia em escravas que, por estarem nessa condição de exploração, não tinham o direito de consentir ou recusar os procedimentos. Em seus relatórios, Sims descrevia como as mulheres choravam de dor durante os experimentos, que visavam a criação de uma técnica de correção de fístulas vesicovaginais e retovaginais, que são conexões anormais entre a bexiga, a vagina e o reto. Uma de suas “pacientes”, chamada Anarcha Westcott, chegou a passar 30 vezes por esse procedimento.

Westcott vivia no Alabama e apresentava deformidades na pelve causadas por raquitismo, o que dificultou seu parto aos 17 anos. Devido à malformação anatômica, a mulher passou três dias tentando conceber seu filho, sem sucesso. Sims foi, então, convocado para intervir e, após ser informado das fístulas que restaram como resultado do parto, Westcott se tornou a primeira cobaia do médico.

Na época, acreditava-se que mulheres negras eram mais resistentes à dor do que as brancas — mito que surte efeitos ainda hoje. Segundo um levantamento publicado em 2017 por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em comparação a pacientes brancas, mulheres negras têm uma probabilidade duas vezes maior de não receberem anestesia ao passarem por uma episiotomia (procedimento em que se corta uma parte do períneo, região situada entre a vagina e o ânus) durante o parto.

Subordinação intelectual

Enquanto a sexualidade feminina e seus “mistérios” recebiam toda a atenção de médicos e cientistas, quaisquer referências ao intelecto das mulheres eram ignoradas ou subestimadas.

“Para que a mulher atingisse o mesmo nível que o homem, ela deveria, quando quase adulta, ser treinada para a energia e perseverança, e ter sua razão e imaginação exercitadas ao máximo”, acreditava Darwin, ainda em A Origem do Homem, sugerindo que as mulheres precisariam de um esforço extra para atingirem a capacidade intelectual supostamente inerente ao homem. “E depois provavelmente ela transmitirá essas qualidades sobretudo para suas filhas adultas. Todo o conjunto das mulheres, contudo, não poderia ser elevado dessa maneira, a menos que durante muitas gerações as mulheres que se destacam nessas virtudes robustas fossem casadas e produzissem filhos mais que as outras mulheres”, conclui. Ignora-se aqui o fato de elas não terem acesso igualitário à educação. Com essa abordagem, o problema de ordem social é transformado em uma questão de ordem biológica, o que teoricamente tornaria quaisquer mudanças na sociedade muito mais difíceis e demoradas.

 

Reviravolta

Mas foi também durante o século 19 que pensadoras e mulheres cientistas começaram, em casos isolados, a ingressar em universidades e a construir conhecimento — muito por conta do surgimento do movimento sufragista e feminista nos Estados Unidos e na Europa, que contou com nomes como as irmãs Sarah e Anna Grimké e Mary Wollstonecraft.

Para alcançar o direito de estudar medicina, as futuras médicas contaram com o apoio de políticos reformistas, como o jurista e deputado Tobias Barreto. Inicialmente, ambos os pedidos foram reprovados pelo médico Malaquias Antônio Gonçalves, que usou justificativas biológicas, como o tamanho do cérebro das mulheres comparado ao dos homens, para impedir que elas tivessem acesso ao ensino superior. Barreto, professor e líder da Escola de Direito do Recife, era um crítico ferrenho da ideia de que mulheres eram inferiores ou que deveriam ser educadas apenas para servir ao lar e à família.

Ao desmontar o argumento do Dr. Malaquias, como era conhecido, Barreto cita nomes de mulheres estrangeiras que já haviam conquistado o direito de estudar medicina, como Elizabeth Blackwell, Marie Elizabeth Zakrzewska e Elizabeth Garrett. “Se fossem dadas a elas as mesmas condições de educação, ficaria provado que a natureza não as fez inferiores, mas sim a sociedade”, escreveu Vosne em Visões do feminino. “Barreto acreditava nesta tese e defendeu-a no embate que travou com o representante da ciência das diferenças.”

Diferentemente do padrão europeu ou norte-americano, a criação de faculdades exclusivas para mulheres não se popularizou no Brasil, que deu preferência aos grupos mistos. Ainda assim, a entrada em massa de mulheres no ensino superior só passou a ocorrer nas décadas de 1920 e 1930, com o impulso dos movimentos feministas e a participação da bióloga brasileira Bertha Lutz.

Bertha Lutz, bióloga e feminista brasileira (Foto: Wikimedia/Adam Cuerden )

Bertha Lutz, bióloga e feminista brasileira (Foto: Wikimedia/Adam Cuerden)

Novos tempos

Após se formar em ciências naturais pela Universidade Paris-Sorbonne em 1918, Bertha Lutz retornou ao Brasil para trabalhar com seu pai, o médico Adolfo Lutz, no Instituto Manguinhos, hoje chamado de Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz. Mais tarde, passou a pesquisar no Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde atuou nas áreas da zoologia, botânica e museologia.

Além do conhecimento científico, Lutz trouxe consigo da França as ideias e reivindicações do movimento feminista europeu. “Ela estava inserida em um momento de efervescência do movimento sufragista e de educação igualitária para as mulheres”, contextualiza Mariana Sombrio, historiadora e pós-doutora em Museologia pela Universidade de São Paulo (USP). “Na época, a luta feminista reivindicava condições básicas, pois muitas escolas não permitiam que a educação fosse mista e não havia direito ao voto.” O Colégio Pedro II, por exemplo, não permitia o ingresso de meninas e foi alvo de críticas e manifestações de Lutz.

Além da atuação de mulheres como Bertha Lutz, outro fator decisivo para o ingresso feminino no ensino superior brasileiro foi a criação de instituições de ensino superior como a USP e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essas instituições permitiram às mulheres trabalhar em diversas frentes do conhecimento: ensino, pesquisa e extensão, ainda que a maioria em áreas consideradas menos nobres. “Nessas universidades, os cursos de filosofia, letras e ciências humanas acabaram abrindo portas para as mulheres, porque eram carreiras que tinham menor remuneração e, portanto, menos procura e interesse por parte dos homens”, explica Sombrio.

Novos desafios

Mesmo um século após terem conquistado espaço na academia, as mulheres ainda estão distribuídas desigualmente nas áreas do conhecimento e ocupam menos cargos de liderança. Segundo o relatório Education at a Glance 2019, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, na sigla em inglês), as brasileiras têm 34% mais chances de se formarem no ensino superior do que os homens.

Já no mercado de trabalho, o cenário muda. De acordo com o estudo da OECD, Entre a população de 25 a 34 anos, a taxa de empregabilidade para homens e mulheres, respectivamente, é de 89% e 82% para aqueles que concluíram o ensino superior; 84% e 63% para quem cursou o ensino médio; e 76% e 45% entre quem não completou o ensino médio.

No ambiente acadêmico, o efeito tesoura resume o fenômeno de que, quanto mais se avança nos níveis de estudo, menos mulheres encontramos em sala de aula ou cargos de poder. De acordo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), 59% das bolsas de iniciação científica são concedidas às mulheres, mas apenas 24,6% das bolsas 1A, o mais alto nível de pesquisa, estão com elas.

E é aí que os séculos 19 e 21 se encontram brevemente. Apesar de terem ingressado na universidade e conquistado paridade no acesso à educação, as mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados da casa e dos filhos. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2019, elas passam 21,3 horas por semana ocupadas com o trabalho doméstico, quase o dobro dos homens, que passam somente 10,9 horas. A jornada dupla entre o trabalho científico e do lar torna o investimento na carreira uma tarefa muito mais árdua para elas — e ainda ganhando menos.



Fonte: Revista Galileu



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