Entrevista

Como a tecnologia pode acelerar a sustentabilidade no campo, segundo esta diretora de inovação do Vale no Silício

Compartilhe:     |  3 de outubro de 2020

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Carin Gerhardt fala sobre as tendências para as foodtechs e para a indústria alimentícia (Foto: Getty Images)

Você provavelmente não faz ideia de onde foi produzido o feijão que comeu no almoço. Ou o trigo que serviu de matéria-prima para o pão do seu café da manhã. E descobrir essas informações é realmente muito complexo – hoje.

Para Carin Gerhardt, diretora corporativa de inovação na SVG Ventures | THRIVE, na Califórnia, a rastreabilidade é uma das tendências para a indústria alimentícia. Isso ajudaria, por exemplo, a incentivar produtores rurais a adotar práticas sustentáveis. Carin é uma das palestrantes do Happy FoodTech Tacta 2020, que acontece nesta semana. Em entrevista à Época NEGÓCIOS, ela fala sobre as tendências para as foodtechs e para a indústria alimentícia. Confira:

Como podemos trazer mais sustentabilidade para a indústria global de alimentos?
Na aceleradora onde eu trabalho, a gente vê muitas coisas sendo desenvolvidas para digitalizar a agricultura, com impacto em toda a cadeia. A ideia é conseguir entender de onde vieram os ingredientes, quais agrotóxicos foram utilizados. Criar essa rastreabilidade é complicado, mas extremamente importante. Até para que o próprio produtor possa ser recompensado por sustentabilidade.

O que precisamos para conseguir isso?
Muitas tecnologias precisam ser desenvolvidas. O blockchain, por exemplo, ajuda na rastreabilidade. Há também sistemas de visão que geram dados sobre produtividade, qualidade da colheita. Outra tecnologia interessante é a espectroscopia in loco, que usa sensores no campo e consegue avaliar o nível de açúcar e o grau de maturação de uma planta sem precisar levar uma amostra até um laboratório. Tudo isso traz benefício para produtor, e poderia permitir uma rastreabilidade desde o campo até supermercado, desde entender a maturação, quais processos foram feitos, quais produtos foram aplicados.

Carin Gerhardt, diretora corporativa de inovação na SVG Ventures | THRIVE (Foto: Divulgação)
Carin Gerhardt, diretora corporativa de inovação na SVG Ventures | THRIVE (Foto: Divulgação)

Quais as dificuldades de se chegar a esse nível? Por que ainda não estamos lá?
Tudo isso ainda está um pouco longe, principalmente por que cadeia de alimentos é muito quebrada. Há muitos agentes que precisariam colocar essas informações em um sistema de rastreabilidade, desde produtor, distribuidor, fábricas. Uma caixa de cereais pode ter 15 ingredientes, cada um precisaria ter rastreabilidade. É extremamente complexo, principalmente quando a gente fala em commodities como milho, soja, que são negociados no mundo inteiro e sem muita preocupação de identificar origem, porque o valor é muito baixo e as pessoas não têm muito interesse. Mas há uma tendência de o consumidor querer saber a origem dos alimentos, especialmente pela questão da sustentabilidade. Não sabemos se aquele alimento foi produzido em uma mata nativa, e isso faz com que o produtor não tenha uma recompensa por produzir de forma mais sustentável. Para alguns produtos, como café e chocolate, que têm maior valor agregado, isso já está acontecendo.

Como o Brasil é visto nessa questão?
O Brasil é um país extremamente criativo e inovador, tem muito potencial, mas uma barreira ainda é poder aquisitivo. A criatividade sempre tem limite do quanto consumidor pode e quer pagar. O poder aquisitivo do americano é maior, aqui a gente tem um pouco mais de liberdade para focar em nicho.

Qual foi o impacto da pandemia sobre esse mercado?
A pandemia acelerou diversas tendências que já vinham se intensificando. Houve uma explosão de compras de alimentos pela internet, nas plataformas digitais. Os supermercados aumentaram muito as vendas também, o que eu acho que foi uma mudança mais pontual da covid-19 – antes, a gente via uma desaceleração da compra em supermercados.
Aqui nos Estados Unidos, houve problemas muito complexos no supply chain. Alguns produtores de leite tiveram de jogar o produto fora porque não tinham como empacotar, eram produtores que estavam acostumados a vender para cadeias de restaurantes e não conseguiam se adaptar para embalagens menores. Toda a cadeia que dependia de restaurantes sofreu demais. A pandemia mostrou essa falta de flexibilidade do supply chain. Acho que depois da pandemia, uma tendência será buscar maior flexibilização dessa cadeia, com mais digitalização e inteligência de dados.



Fonte: Época Negócios - DANIELA FRABASILE



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