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Como cientistas usaram resíduos de bombas atômicas para saber a idade de tubarões-baleia

Compartilhe:     |  7 de abril de 2020

Cientistas estão determinando a expectativa de vida de um dos maiores animais marinhos do mundo com a ajuda de resquícios deixados pelos testes de armas nucleares que foram realizados nos anos 1950 e 1960.

Embora os pesquisadores tenham feito bastante progresso na compreensão dos padrões comportamentais do tubarão-baleia, que corre risco de extinção, existem algumas lacunas flagrantes quando se trata de detalhes básicos sobre essa espécie, incluindo a sua expectativa de vida.

Agora, os cientistas obtiveram ajuda de uma fonte surpreendente: carbono radioativo que os humanos injetaram no ciclo global do carbono durante o teste de armas nucleares. Esse material deixa vestígios nas vértebras dos tubarões-baleia, permitindo que os cientistas usassem o método conhecido como “carbono bomba” (também conhecido como radiocarbono artificial) para determinar a idade de amostras de tubarão-baleia.

“O uso do método carbono bomba como validação da idade para animais marinhos de vida longa tem sido cada vez mais aplicado a peixes e tubarões, e agora aplicamos isso, pela primeira vez, às vértebras dos tubarões-baleia”, disse Joyce Ong, autora principal do estudo pela Universidade Rutgers, ao Gizmodo.

Os pesquisadores obtiveram as amostras de vértebras de tubarão-baleia a partir de um estudo anterior. Essas amostras foram coletadas de uma pesca de tubarão-baleia em Taiwan, antes de ser fechada em 2007, além de uma amostra de tubarão-baleia morto no Paquistão.

Primeiro, eles fotografaram as vértebras sob um microscópio e contaram o número de faixas em uma seção transversal do osso, usando o mesmo método utilizado para os anéis de árvores. Porém, esse método por si só não é o suficiente para calcular a idade dos tubarões, pois não está claro a rapidez com que os anéis crescem.

É aí que entra o carbono bomba. Alguns países, incluindo os Estados Unidos e a URSS, detonaram bombas nucleares na atmosfera durante as décadas de 1950 e 1960, levando a um aumento no isótopo radioativo do carbono chamado carbono-14 no ciclo global do carbono.

Esse carbono se deposita na cadeia alimentar e pode aparecer nos tecidos dos animais. Os cientistas podem usá-lo como uma espécie de carimbo de data.

Os pesquisadores analisaram amostras de duas das vértebras dos tubarões-baleia usando uma técnica chamada espectrometria de massas com aceleradores (AMS) para calcular a abundância do isótopo carbono-14.

O AMS envolve pegar partes de uma amostra e submetê-las em um acelerador de partículas para isolar e calcular sua composição de carbono-14. Os cientistas também precisam compará-lo à composição de algo que sabem da idade – eles escolheram o carbono 14 dissolvido na água do mar.

A análise confirmou que uma das três faixas de crescimento mais internas dos tubarões de Taiwan se formou em 1972. Enquanto isso, as faixas do tubarão do Paquistão pareciam corresponder a incrementos de um ano na análise da bomba carbono, permitindo que os pesquisadores datassem o tubarão com 50 anos de idade – o tubarão-baleia mais antigo já registrado. Eles publicaram seus resultados na revista Frontiers in Marine Science.

Análises do carbono bomba já foram utilizadas em conservação, biologia e medicina forense. No entanto, é um instrumento especialmente importante para o estudo de espécies de especial preocupação, como os tubarões-baleia, que correm risco de extinção.

“Se souber a idade e o tamanho de um peixe, pode calcular uma taxa de crescimento. Esse é um parâmetro crítico para a gestão, pois é uma informação sobre como uma espécie é resistente à captura e como pode recuperar rapidamente se ameaças como a pesca excessiva reduzirem o tamanho das populações”, disse Mark Meekan, autor do estudo e principal cientista de pesquisa em biologia de peixes do Instituto Australiano de Ciências Marinhas, num e-mail enviado ao Gizmodo.

“Para os tubarões-baleia, parece que crescem muito lentamente até atingirem o tamanho adulto. Os tubarões podem não atingir a maturidade até chegarem aos 30 anos de idade. Isso significa que é pouco provável que as populações de tubarões-baleia se recuperem rapidamente se o número de tubarões for reduzido”, completou.

A datação a partir desse método tem as suas limitações. Funciona melhor em espécies de vida longa, cujos corpos podem realmente registar os níveis de carbono-14 em mudança no ambiente. Adicionalmente, a mistura de carbono-14 em águas profundas pode complicar a análise, explicou Meekan. Felizmente, os tubarões-baleia passam grande parte do seu tempo perto da superfície do oceano.

Os testes de armas foram vergonhosos e o seu legado permanece no ambiente – mas pelo menos algum bom saiu disso.



Fonte: Gizmodo - Ryan F. Mandelbaum



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