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Como fomentar uma nova economia voltada às pessoas e ao meio ambiente

Compartilhe:     |  18 de maio de 2020

Por Marcelo Furtado*

É preciso evitar que os investimentos para a recuperação econômica se destinem à velha economia, a mesma que gerou atendimento precário à saúde, forte desigualdade, desmatamento e dependência de combustíveis fósseis, entre outras mazelas. Podemos transformar o legado desta terrível pandemia em um novo começo: investir em florestas e Agricultura de Baixo Carbono para cuidar melhor das pessoas e do nosso planeta

Em situações extremas, manter algum nível de normalidade é muito importante. Nós, seres humanos, em momento de medo ou insegurança, preservamos a nossa zona de conforto – o que neste caso significaria seguir cuidando mal da nossa saúde e da vida na Terra, ao priorizar uma visão de curto prazo, sem levar em conta suas consequências. Mas será que podemos aprender com a crise do novo coronavírus e investir melhor em nosso futuro?

Como bem descrito pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz em sua coluna no jornal Nexo, a sociedade já passou por diversas pandemias. No Brasil do final de 1918, ruas e bondes ficaram vazios, as escolas mandaram crianças para casa e os hospitais ficaram superlotados. Porém, Schwarcz nos lembra que “toda crise interrompe muita coisa, mas abre, também, uma nesga de esperança. Por exemplo, foi por conta da Gripe Espanhola que se começou a pensar no Brasil, pela primeira vez, na criação de um Ministério da Saúde, que nasceria em 1930, como Ministério dos Negócios da Saúde e da Educação Pública”.

Muitos fazem um paralelo entre o cenário do combate a pandemia do novo coronavírus e a Segunda Guerra Mundial. De fato, estamos em um momento de mobilização global, na qual o inimigo é microscópico mas, em muitos casos, letal. Sabemos que a crise terá fim, mas não sabemos qual será a nova cara do mundo pós-Covid-19.

Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, já havia um grupo significativo de pessoas trabalhando em planos que deveriam ser imediatamente implementados assim que o combate terminasse.

As principais questões estavam relacionadas a como melhorar a governança global, como resgatar a economia (especialmente na Europa) e como atender as necessidades sociais de um continente faminto no pós-guerra. O plano resultou na criação da Organização das Nações Unidas, no Plano Marshall, para recuperação europeia, entre outros.

Portanto, planejar a retomada quando ainda estamos na crise é muito importante. Isto poderá nos dar a oportunidade de traçar um caminho a seguir quando o pior passar. Especialmente se quisermos evitar o desperdício de tempo e os erros incorridos nas crises econômicas passadas, fazendo um bom investimento no futuro de nossa sociedade.

As consequências sociais e econômicas dessa pandemia serão devastadoras e isso explica o enorme volume de recursos sendo anunciado por vários países para o enfrentamento dessa batalha. O G-20 anunciou recentemente que injetará US$ 5 trilhões na economia global. Como garantir que esses recursos serão usados para atender os mais impactados e vulneráveis? Como aproveitar estes recursos para inovar e fomentar uma nova economia mais voltada para as pessoas e o ambiente?

Adicionalmente ao compromisso do G-20, cada país está desenhando suas estratégias específicas para recuperar sua economia e garantir a inclusão dos mais pobres, que serão os mais impactados. Entretanto, os investimentos, muito provavelmente, serão feitos na manutenção do status quo, na velha economia – a mesma que gerou atendimento precário à saúde, forte desigualdade, desmatamento e dependência de combustíveis fósseis, entre outras mazelas.

Neste momento, com muita tranquilidade e responsabilidade, devemos adaptar, rever estratégias e inovar conceitos. Em tempos de distanciamento social como ato de solidariedade, fica muito óbvia a necessidade de liderança, sensatez, visão e empatia.

O Brasil é essencialmente um país urbano, com mais de 85% de sua população aglomerada nas cidades. Este foi um dos importantes fatores para a rápida contaminação comunitária do novo coronavírus.

Mas sabemos também que a água que usamos para higienizar nossos lares e hospitais ou gerar boa parte da energia elétrica em nossos lares vem da Amazônia. E que o alimento que abastece nossos mercados vem da zona rural. Portanto, é muito importante lembrar do papel da agricultura e da floresta em pé – especialmente o pequeno produtor familiar e os povos indígenas – na recuperação de nossa economia.

Com essa crise, temos uma oportunidade de direcionar parte dos investimentos na nova economia baseada na floresta e na Agricultura de Baixo Carbono.

Na Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura construímos uma visão 2030/2050 com ações concretas que poderão ser incluídas no “pacote de investimento” para recuperação da economia de que o Brasil necessitará, com inclusão e sustentabilidade. Ações como restauração de florestas, Pagamento por Serviços Ambientais, mercado de carbono e crédito para Agricultura de Baixo Carbono deverão ter foco especialmente direcionado na geração de emprego e de renda para a agricultura familiar e para os arranjos comunitários.

Portanto, não faltam opções para que governadores, ministérios e o setor financeiro possam garantir que o pacote de investimento do governo para o combate dos efeitos econômicos da pandemia, fomente não apenas recuperação, mas também uma economia de baixo carbono com prosperidade social e inovação.

Temos a oportunidade política, os recursos e o conhecimento. Agora é a hora de colocar nosso discurso em prática. Podemos transformar o legado desta terrível pandemia em um novo começo, no qual viabilizaremos ações que promovam um mundo mais sustentável, justo e solidário.

*Marcelo Furtado é membro fundador e atuou de 2016 a 2018 como facilitador da Coalizão Brasil Clima, Floresta e Agricultura, um fórum multistakeholder com representantes da academia, do setor privado e da sociedade civil para promover uma economia para o uso do solo sustentável, inclusiva e de baixo carbono. Engenheiro Químico com mestrado em energias renováveis, possui mais de 30 anos de experiência como ativista na agenda da sustentabilidade e justiça social através da inovação e da mobilização pública.



Fonte: Página 22



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