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Como o florescer das cerejeiras pode indicar mudanças climáticas

Compartilhe:     |  15 de março de 2019

abrir de pétalas das flores da cerejeira Yoshino neste ano em Tidal Basin, Washington, D.C, nos Estados Unidos, parece não ter sido afetado pelo aquecimento global. No entanto, há anos essas árvores têm florescido precocemente, segundo o Serviço Nacional de Parques (NPS) de Washington. Isso pode significar que mudanças climáticas globais alteram a vida das plantas, o que tem efeitos para outras espécies do seu ecossistema.

Em 2019, o período de pico do fenômeno, que ocorre quando 70% das flores se abrem, foi previsto para o começo de abril. A data está dentro dos padrões históricos das últimas décadas, de acordo com o que foi anunciado pela entidade em cerimônia no Newseum de Washington, museu interativo dedicado ao jornalismo.

De acordo com Jeffrey Reinbold, superintendente da agência, a NPS determinou a projeção de data para o florescimento de acordo com uma análise de dados, que incluíam temperaturas e as previsões de tempo para o mês de março.

Mudanças de ano em ano 

Conforme o site da NPS, o tempo mais provável do florescimento deveria ser sempre na última semana de março ou primeira semana de abril. Temperaturas extraordinárias, muito quentes ou frias, podem causar a antecipação do fenômeno – que chegou a acontecer dia 15 de março em 1990 – ou, ainda, o atraso dele. Em 1958, por exemplo, as flores desabrocharam em 18 de abril. Já em 2018, isso aconteceu no no dia 25 de março; mas duas semanas antes da data, metade das flores morreu devido a um congelamento tardio.

Especialistas da NPS dizem que as condições locais de luz e calor são os fatores principais que determinam o tempo de florescimento em ecossistemas temperados, como é o caso da região de Washington. Apesar desse período variar ao longo dos anos devido às condições locais, as médias de longo prazo, que vão muito além das de um ano só, podem ser sinais do impacto de variações climáticas anormais sobre as árvores, uma vez que as temperaturas estão ficando mais quentes e o florescimento tem sido adiantado.

Congelamento pode adiar ou até impedir o florescer das cerejeiras.   (Foto: Creative Commons/ Flickr )

O Instituto Smithsoniano publicou uma pesquisa em 2001 demonstrando que o florescimento das cerejeiras se adiantou em sete dias de 1970 até 1999, como efeito das mudanças climáticas. Paul Peterson, um dos autores do estudo, disse que essa tendência é de longo prazo. “O clima está ficando mais quente. As plantas estão florescendo bem antes”, ele contou ao The Independent.

Peterson também acrescentou que, embora a média a longo prazo seja a mesma, o florescimento precoce não ocorre todo ano. É o caso de 2019, que teve temperaturas mais geladas em março. Essa condição, juntamente com o tempo chuvoso, pode prejudicar e postergar o fenômeno.

Em entrevista ao Eos, o cientista especialista em mudanças climáticas Patrick Gonzalez contou sobre uma pesquisa realizada por ele e sua equipe que determinou um aumento de 1,1°C por século (de 1895 a 2017) no memorial de Martin Luther King, localizado na enseada Tidal Basin, local onde há forte presença de cerejeiras. Essa mudança se deve às atividades humanas. “O padrão histórico cada vez mais adiantado de florescimento das cerejeiras em Washington está relacionado com mudanças climáticas causadas pelo homem, mas nenhuma pesquisa realmente examinou todos os fatores envolvidos”, contou.

Impactos maiores

Como apontado pelo cientista, as alterações no tempo de florescimento das cerejeiras podem ter repercussões desastrosas; outras espécies, como os agentes polinizadores, acabam sofrendo danos.

Ainda, o fenômeno pode estar ocorrendo em várias regiões do planeta. Gonzalez citou uma pesquisa que indica o precoce desabrochar de flores em Kyoto, no Japão, com uma base de dados de 1200 anos. Outro estudo, por sua vez, concluiu que o período de pico de florescimento em Tidal Basin “tem mais chances de ser acelerado” em uma média de 5 dias em 2050 e de 10 dias em 2080, em relação a padrões estabelecidos por um relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.

O autor dessas previsões, Soo-Hyung Kim, contou ao Eos: “Se cenários futuros assim permanecerem padronizados, então as previsões ainda a serem feitas com base nesses cenários serão similares”. Sobre o fato das datas previstas para o florescimento em Tidal Basin estarem dentro da média em 2019, ele defendeu: “Não acho que um ano mostrando uma média represente uma tendência duradoura. Nós teremos que analisar a longo prazo”.

Nos EUA, em regiões de clima temperado, existem tendências de longo prazo nas quais há invernos mais quentes e calor logo no começo da primavera, segundo Theresa Crimmins,  assistente de direção da Base Nacional Americana de Fenologia de Tucson, no estado do Arizona. “As respostas das plantas é florescer antes, realizando suas atividades sazonais primaveris mais cedo”, ela explicou.

Crimmins também observa que nem todas as espécies florescem na mesma direção e ritmo, mas que as consequências óbvias de mudanças no tempo do florescimento seriam anormalidades nas atividades dos polinizadores.

“O florescimento das cerejeiras de Washington é um bom indicador de potenciais mudanças climáticas e impactos ecológicos em diversos outros lugares”, Gonzalez analisou. Para ele, as plantas são apenas um dos sinais de que o planeta pede socorro:  “O aumento da conscientização irá nos ajudar a nos engajarmos em uma solução para esse problema”.



Fonte: Revista Galileu



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