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Como o mercado de peixes ornamentais ajuda a preservar outras espécies

Compartilhe:     |  20 de julho de 2019

O paulista Sandro Tarabay, de 44 anos, é engenheiro da computação e publicitário de formação, e um aquariofilista de coração. Atualmente, ele precisa de mais de uma tonelada de água para abastecer seus cinco aquários com cerca de 50 peixes ornamentais, separados por bioma, pH, temperatura e até hábitos alimentares.

Tabaray é um dos cerca de 11 milhões de brasileiros que mantêm aquários em casa, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por sua vez, a Associação Brasileira de Aquariofilia (Abraqua) diz que a população de peixes ornamentais dentro dos lares do país chega a 18 milhões. A prática é um dos eixos de pesquisas sobre a conservação da ictiofauna (a fauna do conjunto de peixes em uma região da natureza).

Desde 2008, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) mantém listas com 181 espécies brasileiras de peixes de água doce e 136 de água marinha que têm a coleta na natureza permitida – outra fonte desse mercado é a criação própria de peixes na aquicultura. Fora do país, porém, há um número maior de espécies destinadas à prática. O próprio Ibama já permite a importação de pelo menos 379 espécies de água doce e 530 de água marinha.

Pesquisadores da área tentam estudar mais espécies que possam expandir a lista de espécies brasileiras – mais de 4 mil espécies apropriadas para a prática já foram catalogadas no país, que, segundo a Embrapa, é o 13º maior exportador de peixes ornamentais.

No Pantanal, onde mais de 300 espécies de peixes já foram identificadas, o professor Claumir Cesar Muniz, pesquisador do Projeto Bichos do Pantanal em Cáceres (MT), diz que essa expansão pode significar uma nova fonte de renda local, e aliviar a pressão sobre as espécies mais populares entre os pescadores.

Segundo ele, atualmente os pescadores profissionais e amadores costumam concentrar a prática sobre cerca de 12 espécies. O Pantanal foi o destino do Desafio Natureza do G1 sobre caça e pesca ilegal.

O paulista Sandro Tabaray usa uma tonelada de água para manter cinco aquários em casa — Foto: Arquivo Pessoal/Sandro Tarabay

O paulista Sandro Tabaray usa uma tonelada de água para manter cinco aquários em casa — Foto: Arquivo Pessoal/Sandro Tarabay

Peixe é pet?

Além dessa expansão, membros da Abraqua defendem ainda uma mudança na legislação para peixes ornamentais, atualmente considerados pelo Ibama como animais silvestres. Para eles, esta classificação dificulta, por exemplo, o transporte dos animais, diferentemente do que acontece com gatos, cachorros e outros animais domésticos.

A legislação prevê que, além de se ater à lista de espécies permitidas, a coleta de peixes e outros organismos aquáticos na natureza só poderá ser feita por embarcações, pescadores ou aquicultores devidamente registrados.

O biólogo e aquicultor Cássio Ramos diz que há um movimento entre os adeptos da prática em tratar os animais como “pets”, ainda que a legislação ainda os considere animais silvestres.

Ramos explica que, apesar de muitas espécies ornamentais serem importadas da Ásia, os peixes da Amazônia disponíveis para a venda no país são em sua maioria coletados aqui mesmo. O aquicultor explica que há a intenção de produtores na reprodução dos animais em cativeiro para pôr um fim na prática extrativista.

“É necessário um incentivo governamental para transformar os pescadores em criadores conservacionistas. É um caminho que a aquicultura tem que seguir”, defende o biólogo.

Criação e pesca dos animais é controlada pelo Ibama — Foto: Arquivo Pessoal/Sandro Tarabay

Criação e pesca dos animais é controlada pelo Ibama — Foto: Arquivo Pessoal/Sandro Tarabay

Fascínio desde a infância

O biólogo diz que muitos dos aquaristas começam a atividade ainda na infância, com um aquário de peixe Betta. Mas, diferentemente, do que é comumente reconhecido, o animalzinho não sobrevive em aquários pequenos, e o ideal é uma estrutura de ao menos 20 litros de água.

Praticante do aquarismo há 15 anos, Tarabay contou ao G1 que o fascínio pelos animais aquáticos vem desde criança, com o exemplo do tio, que também criava peixes.

“A paixão só aumentava, até que consegui ter meu primeiro aquário. Depois disso fui entrando cada vez mais no hobby. Parei por um tempo, para formar minha família, mas aí surgiu o desejo de voltar, hoje tenho inclusive o apoio dos meus filhos”, contou ele.

O aquarista, porém, alerta que é preciso investir em um ambiente espaçoso e com os equipamentos necessários para a manter uma qualidade boa da água. Além disso, lembra que é necessário trocar parcialmente a água do aquário a cada cinco dias.

“A regra de ouro para se dar bem no aquarismo é estudar muito, checar muitas fontes e referências, antes mesmo de adquirir qualquer peixe”, destaca o publicitário.

Ele explica que o aquário, depois de montado e com água, tem que passar um período de por volta de 50 dias até poder receber os peixes. Trata-se da fase de ciclar, ou seja, quando o ambiente todo se torna apto para a sua autossuficiência. Só depois desta fase é que se pode introduzir os peixes, mas de forma segmentada: primeiro os peixes que se concentram no fundo e, depois de uma semana, mais ou menos, os peixes de meia água.

Como não errar no aquário

Cássio Ramos alerta ainda que entre os erros mais comuns dos praticantes do aquarismo é superalimentar o animal. Ele explica que o metabolismo deste vertebrado atua diferentemente de outros animais de estimação, ou até mesmo dos humanos.

“Nosso metabolismo precisa sempre ingerir comida para se manter quente. Quando olhamos para o peixe, pensamos que ele precisa se manter quente, mas não precisa. O ritmo de alimentação dele é menor que o nosso. O maior erro de todo aquarista é achar que o peixe precisa comer como todo ser humano”, diz.

O especialista comenta também que é preciso buscar o equilíbrio ideal para cada tipo de espécie. O aquário funciona como um ecossistema que não pode sofrer muitas alterações. Para explicar o funcionamento de um aquário, recorre ao químico francês Antoine Laurent Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

“O aquário é isso, se você colocar muita comida, vai se transformar em alguma coisa. Quando você coloca muita coisa, vai entrar em desequilíbrio e o principal que se coloca no aquário é a comida. Tem que colocar a quantidade certa”, explica Cássio Barros.

O peixe ideal

Os especialistas indicam quais são os melhores peixes para uma primeira entrada no mundo do aquarismo, mas ressaltam a importância do cuidado com o ambiente, o que inclui trocas periódicas de água, inserção de plantas aquáticas e esconderijos para a criação de um espaço próprio para receber os animais.

Betta

Um peixe betta nada num aquário em Nakhon Pathom, Tailândia — Foto: Chuchat Lekdeangyu/Shutter Prince/AP

Um peixe betta nada num aquário em Nakhon Pathom, Tailândia — Foto: Chuchat Lekdeangyu/Shutter Prince/AP

Um único exemplar ficaria muito feliz em um aquário de 20 a 30 litros. Os machos adoram brigar, então, pense bem caso queira criar um cardume desta espécie. Um aquário ideal tem tocas, plantinhas e algumas pedras, mas nada que diminua o espaço do peixe.

São peixes que requerem um nível básico no aquarismo.

Acara disco

Acará-disco é espécie amazônica. — Foto: Aguinaldo Matos/TG

Acará-disco é espécie amazônica. — Foto: Aguinaldo Matos/TG

Peixe endêmico do Brasil, vive bem em cardumes de ao menos cinco peixes. Por isso, é necessário um aquário com 200 litros de água, no mínimo.

Barbus

Barbus vivem bem em cardumes. — Foto: Wikimedia Commons

Barbus vivem bem em cardumes. — Foto: Wikimedia Commons

São peixes asiáticos, pequenos que gostam de viver em cardumes. A maioria das espécies fica em torno de 5 cm. Um aquário ideal para um cardume de cinco indivíduos deveria ter entre 60 e 80 litros.

Existem pelo menos 30 espécies de Barbus, de todas as cores. Eles vivem geralmente no meio da água. São peixes que requerem um nível básico no aquarismo.

Tetra

Tetras são endêmicos da América do Sul — Foto: Wikimedia Commons

Tetras são endêmicos da América do Sul — Foto: Wikimedia Commons

Essa é uma espécie que requer um nível intermediário no aquarismo.

Ciclídeos Americanos

Peixe Heros, da família dos ciclídeos — Foto: Wikimedia Commons

Peixe Heros, da família dos ciclídeos — Foto: Wikimedia Commons

São peixes endêmicos do continente americano que chegam a ter em torno de 15 a 20 cm, mas certas espécies ultrapassam os 40 cm. Requer um aquário de pelo menos 100 litros.

A criação exige um nível intermediário no aquarismo, bem como aquários e equipamentos de dimensão maiores. Existem Ciclídeos de fundo, meia água e alguns de superfície.

Primitivos

Aruanã, peixe primitivo de água doce da família Osteoglossidae — Foto: Wikimedia Commons

Aruanã, peixe primitivo de água doce da família Osteoglossidae — Foto: Wikimedia Commons

Estas espécies geralmente chegam a 30 cm, mas há algumas que ultrapassam os 70 cm. A expectativa de vida deles é longa, em média 30 anos. Precisam de aquários de grandes dimensões com elementos diversos como pedras, troncos e tocas.

Loricariidae (cascudos)

Cascudo — Foto: Arquivo Pessoal/Sandro Tarabay

Cascudo — Foto: Arquivo Pessoal/Sandro Tarabay

Estas espécies são de fundo, endêmicos de toda a América Central e do Sul. São muito valorizados, principalmente na Europa, China e Japão. Os exemplares brasileiros são bastante exportados.

Estes animais são mais sensíveis e requerem bom espaço, boa filtragem, alguns preferem correnteza, todos necessitam de troncos, tocas e pedras.



Fonte: G1 - Fabio Manzano



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