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Como os imunizantes impedem ou não a disseminação de doenças na sociedade

Compartilhe:     |  23 de fevereiro de 2021

Embora não se discuta a importância da vacinação para enfrentar a pandemia, é preciso ter em mente que, em alguns casos, pode haver transmissão da doença mesmo depois de se tomar o imunizante; entenda essa discussão.

Era 17 de junho de 2009. Um menino de 11 anos havia voltado para os Estados Unidos depois de uma viagem ao Reino Unido — e sem saber levou algo com ele.

Mais tarde naquela semana, enquanto participava de um programa de educação religiosa no condado de Sullivan, em Nova York, ele desenvolveu um inchaço misterioso em suas glândulas salivares.

Estava com caxumba, uma infecção respiratória transmitida pelo contato com gotículas no ar.

Enquanto isso, o curso religioso continuou.

As 400 crianças presentes passaram horas diariamente tendo contato direto prolongado — especificamente, por meio do método de ensino judaico ortodoxo conhecido como chavruta, em que os estudantes são colocados em dupla, frente a frente em uma mesa estreita, para analisar e debater textos do Talmude (coletânea de livros sagrados).

Quando o programa terminou, outras 22 crianças haviam sido infectadas, assim como três adultos.

Ao todo, o surto durou um ano, e pelo menos 3.502 pessoas desenvolveram a doença.

Quando os cientistas analisaram o que aconteceu, sugeriram que o método de aprendizagem chavrusa pode ter permitido uma “transmissão particularmente eficiente do vírus da caxumba”.

O que pode parecer mais surpreendente nesse caso é que o “superpropagador” acidental da doença recebeu o ciclo completo da vacina MMR (equivalente à tríplice viral no Brasil, contra sarampo, caxumba e rubéola).

É provável que ele tivesse alguma imunidade — assim como as outras crianças vacinadas, ele desenvolveu sintomas relativamente leves sem complicações —, mas ainda era capaz de carregar o vírus e transmiti-lo a outras pessoas.

Na verdade, a maioria das vacinas não protege totalmente contra a infecção, mesmo que possam impedir o aparecimento dos sintomas. Como resultado, as pessoas vacinadas podem, sem saber, carregar e espalhar patógenos. Ocasionalmente, podem até iniciar epidemias.

Antes de avançar nessa discussão, porém, é importante destacar que isso não deve desestimular a vacinação, principalmente contra o novo coronavírus. Os testes até agora mostram que as vacinas reduzem a transmissão, diminuem a gravidade dos casos e protegem tanto individual como coletivamente. A vacinação em massa seria, portanto, a única forma de conter a pandemia e evitar o aparecimento de variantes mais perigosas do novo coronavírus.

Mesmo no caso da caxumba, citado acima, a vacinação universal foi crucial na contenção da doença – sem as campanhas de vacinação, estima-se que teríamos surtos da doença a cada 4 ou 5 anos, em vez de casos episódicos como o descrito nesta reportagem. Pesquisas mostram que a tríplice viral reduz o risco de caxumba em 79% após a primeira dose e 88% após a segunda.

Imunidade ‘efetiva’ ou ‘esterilizante’

Há dois tipos principais de imunidade que você pode obter com as vacinas. Uma delas é a chamada imunidade “efetiva”, que é capaz de evitar que um patógeno cause doenças graves, mas não pode impedi-lo de entrar no corpo ou fazer mais cópias de si mesmo.

A outra é a “imunidade esterilizante”, que pode evitar totalmente as infecções e até prevenir casos assintomáticos. Esta última é a aspiração de toda pesquisa em vacinas, mas, surpreendentemente, raramente é alcançada.

Vejamos o caso da meningite, por exemplo. Para o tipo causado pela bactéria Neisseria meningitidis , há muitas vacinas disponíveis para dezenas de cepas diferentes.

As três oferecidas nos EUA — MCV4, MPSV4 e MenB — juntas podem prevenir 85-90% dos casos da doença. No entanto, várias ainda permitem que as pessoas sejam “portadoras” das bactérias envolvidas.

Elas podem se esconder no nariz ou na parte de trás da garganta, de onde podem infectar outras pessoas por meio de espirros, tosses, beijos ou compartilhamento de cigarros ou utensílios.

Em um estudo com estudantes universitários no Reino Unido, a vacina não teve efeito sobre a proporção de pessoas que abrigavam o patógeno quatro semanas depois.

“Duas vacinas contra a meningite podem ter dois efeitos muito diferentes sobre a capacidade de transmissão da doença”, afirma Keith Neal, professor emérito de epidemiologia da Universidade de Nottingham, no Reino Unido.

“Mas apenas uma minoria das pessoas que pegam o germe desenvolve meningite [em comunidades bem vacinadas] porque têm imunidade contra ela.”

Também é possível estar infectado com coqueluche, hepatite B, caxumba e (frequentemente, mas nem sempre) influenza (gripe), independentemente de você ter sido vacinado — embora todas essas imunizações sejam altamente eficazes em prevenir que as pessoas desenvolvam sintomas graves ou precisem ser hospitalizadas.

Como a imunidade esterilizante funciona

Enquanto a imunidade efetiva é geralmente fornecida por uma combinação de células brancas do sangue — como as células B e T — junto aos anticorpos, a imunidade esterilizante normalmente se resume ao último.

Em particular, depende de anticorpos neutralizantes, que defendem o corpo de patógenos aderindo à sua superfície externa e impedindo-os de interagir com seus alvos, como as células que revestem o nariz, a garganta ou os pulmões.

Alerta de catapora

Alamy
De vez em quando, pessoas vacinadas podem causar inadvertidamente um surto

No caso da covid-19, os anticorpos neutralizantes que reconhecem o vírus se ligam à proteína spike em sua superfície, que ele usa para entrar nas células.

Para obter imunidade esterilizante, as vacinas precisam estimular o suficiente esses anticorpos para capturar qualquer partícula de vírus que entre no corpo e desarmá-lo imediatamente.

Que tipo de imunidade as vacinas contra covid-19 oferecem?

“Em poucas palavras, não sabemos, porque são muito novas”, diz Neal.

Até agora, as vacinas contra covid-19 disponíveis não foram avaliadas sobretudo com base em sua capacidade de prevenir a transmissão — embora isso agora esteja sendo considerado um objetivo secundário para muitas delas.

Em vez disso, sua eficácia foi avaliada pelo fato de impedir o desenvolvimento de sintomas.

“Isso significa que definimos nossas metas de maneira pragmática”, diz Danny Altmann, professor de imunologia do Imperial College London, no Reino Unido.

Os cientistas já sabem que os anticorpos que os pacientes desenvolvem após infecções naturais por covid-19 nem sempre evitam a reinfecção.

Um estudo com profissionais de saúde britânicos mostrou que 17% das pessoas que já tinham anticorpos quando o estudo começou — obtidos presumidamente de uma primeira infecção — contraíram a doença uma segunda vez.

Cerca de 66% desses casos eram assintomáticos, mas acredita-se que você não precisa ter sintomas para correr o risco de transmitir o vírus a outras pessoas.

“Para um vírus como este, chego a achar que é pedir demais de uma vacina”, diz Altmann. “É muito, muito difícil.”

Felizmente, este não é exatamente o fim da história.

Há alguns indícios iniciais de que certas vacinas podem ser capazes de reduzir a transmissão, mesmo que não possam eliminá-la totalmente. Uma maneira que elas podem fazer isso é reduzindo o número de partículas virais no corpo das pessoas.

“É muito provável que, se as vacinas estão deixando as pessoas menos doentes, elas estão produzindo menos vírus e, portanto, serão menos infecciosas, mas isso é apenas uma teoria”, diz Neal.

A imunidade esterilizante também é notoriamente complicada de provar.

Uma vez que a maioria dos testes clínicos não verificou se as vacinas estavam impedindo a transmissão, os cientistas estão atualmente procurando ver se elas estão tendo um impacto nas taxas de infecção em lugares onde já foram amplamente distribuídas.

No Reino Unido, espera-se que surtos em asilos — onde os esforços de vacinação estão sendo priorizados — se tornem menos frequentes, se as vacinas estiverem fazendo efeito.

“Há dois fatores”, explica Neal.

“Temos os lockdowns e a vacina. Portanto, é realmente muito difícil separar (os efeitos de um ou de outro). É a vacina? É o lockdown? Ou, mais provavelmente, uma combinação de ambos?”

A seguir, confira o que sabemos até agora sobre a capacidade das vacinas atuais de impedir a transmissão do vírus. (Para evitar confusão, não foram incluídas informações sobre sua capacidade de prevenir os sintomas ou proteger as pessoas contra a doença.)

Oxford-AstraZeneca

Em julho do ano passado, um estudo que testou a eficácia dessa vacina em macacos-rhesus — que têm fisiologia pulmonar semelhante à dos humanos — apresentou alguns resultados promissores.

A pesquisa mostrou que, embora os macacos estivessem protegidos da forma grave da doença, isso não os impediu de serem infectados com covid-19.



Fonte: IG - Saúde



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