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Como um vulcão no Alaska pode ter ajudado a por fim na República Romana

Compartilhe:     |  24 de junho de 2020

Em 44 a.C, o então ditador romano Júlio César foi assassinado a facadas por senadores aristocratas em uma emboscada liderada por Marco Júnio Bruto. Sua morte seria o principal gatilho para uma sangrenta guerra civil pelo controle de Roma nos anos posteriores, o que acabaria colocando fim ao período repúblicano e iniciaria o Império Romano.

Agora, uma equipe de cientistas propôs algo inusitado: a erupção de um vulcão no outro lado do oceano pode ter tido um papel importante neste processo ao alterar o clima naquela região.

Não faltam evidências de que algo estranho estava ocorrendo no clima da Europa na época. Cartas escritas por Cícero – um dos políticos mais importantes do período – mencionam um frio incomum nos dois anos que sucederam a morte de Júlio César, e outros documentos históricos mostram que uma onda de fome atingiu Roma e outras partes da Europa naqueles anos devido a escassez nas safras agrícolas.

Cientistas consideram há muito que uma erupção vulcânica possa ter sido a culpada – há relatos até de que, após a morte do líder romano, o Sol desapareceu e o céu foi tomado por uma névoa negra (embora deva haver um quê de ficção, pelo menos na coincidência temporal entre o assassinato e o fenômeno).

Em 1988, o pesquisador Phyllis Forsyth propôs que uma erupção do vulcão Etna, na região da Sicília da Itália, poderia estar por trás do mistério, já que se sabe que de fato houve atividade vulcânica no ano de 44 a.C. Mas a explicação não é completa, porque a erupção foi pequena demais para causar os fenômenos observados. A nuvem de poeira descrita por historiadores antigos que chegou após a morte de César, porém, provavelmente veio daí.

Um estudo publicado recentemente na revista científica PNAS apresenta um novo cenário. Segundo os pesquisadores americanos, o enorme vulcão Okmok, que fica na ilha Umnak do estado americano do Alaska, entrou em erupção em 43 a.C, pouco menos de um ano após a morte de úlio César.  O resultado da explosão foi uma cratera com 10 quilômetros de diâmetro que ainda é visível nos dias de hoje.

Para chegar a conclusão, os pesquisadores procuraram evidências nas camadas de gelo de amostras retiradas da Groenlândia e da Rússia. O gelo conserva as propriedades do ar na medida em que vai se formando ao longo dos séculos, então é possível analisar como estava a atmosfera naquela região em determinado período de tempo datável.

Os pesquisadores descobriram que, em 43 a.C, houve um aumento considerável de cinzas, partículas sólidas e poeira no gelo, o que indica uma erupção vulcânica. Analisando a composição química do material, a equipe descobriu que as características batiam com a de amostras do vulcão Okmok.

Depois, a equipe analisou anéis de árvores e rochas de cavernas de vários locais pelo hemisfério norte para verificar se, naquele ano, houve alterações climáticas significativas que poderiam estar relacionadas com a erupção. Os dados mostraram que sim: a década entre 43 e 34 a.C foi a quarta mais fria em um período de 2.500 anos, com 43 e 42 a.C se destacando como anos especialmente frios.

Com base nisso, a equipe montou um modelo climático em computador para simular como a erupção teria alterado o clima da região. E os resultados mostraram que o evento pode ter causado uma redução de entre 0.7˚C a 7.4˚C na temperatura do sul do Mediterrâneo e no norte da África. As alterações climáticas, então, poderiam ter causado uma extensiva redução na produção agrícola da região, o que explicaria a onda de fome descrita em documentos históricos.

A fome, por sua vez, parece ter deixado o período que sucedeu a morte de César ainda mais instável e complicado do ponto de vista social, o que abriu caminho para uma mudança política abrupta – a transição entre a República e o Império. Mas o cenário histórico é bem mais complexo do que isso.

Os próprios autores admitem que as evidências de uma erupção vulcânica e de suas consequências no clima são sólidas, mas a influência disto tudo no surgimento do Império Romano é bem menos certa. A equipe não quer afirmar que um vulcão causou o acontecimento histórico – isto seria determinismo climático. O que se pode inferir apenas é que a fome da época pode ter suas origens no Alaska, e, a partir daí, deve-se analisar o processo histórico como um todo.

O fato é que, mesmo anos antes de Júlio César morrer, o sistema político de Roma se mostrava instável e com problemas estruturais, e o modo como a história se desenrolou dependeu de muitos outros fatores, para além de  uma fome generalizada na região. Se o vulcão Okmok de fato ajudou a criar um dos maiores impérios da história, ele com certeza não foi o protagonista do processo.



Fonte: Superinteressante



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