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Conheça o cientista que quer revolucionar a forma como tratamos o câncer

Compartilhe:     |  4 de novembro de 2014

Nos anos 1970, pesquisadores soviéticos descobriram uma bactéria na tundra siberiana que lhes chamou a atenção: ela produz um composto que, na época, eles acreditavam ser eficaz no tratamento contra o câncer. No entanto, testes de laboratório revelaram que a substância causava insuficiência cardíaca, o que levou ao abandono dos estudos. Recentemente, Barbara Geratana, pesquisadora da Universidade de Maryland, descobriu que ao remover uma molécula de oxigênio do composto, não apenas os efeitos colaterais são neutralizados, como também a droga, chamada de 9DS, se torna ainda mais poderosa contra as células cancerígenas, impedidas de se multiplicarem. Bem neste momento crítico ela se desligou da instituição e teve que largar a pesquisa – mas o bioquímico Isaac Yonemoto está disposto a fazer o que for preciso para levar o projeto adiante.

“Nós acreditamos que os produtos farmacêuticos podem ser desenvolvidos sem patentes, o que resultaria em uma assistência médica melhor e mais barata para todos”

Ele decidiu que abraçaria a causa de uma maneira diferente, aproveitando para promover uma lógica inteiramente nova de se encarar a forma como os remédios são desenvolvidos atualmente. Para arrecadar a verba necessária aos primeiros testes do 9DS em ratos, foi criado o Projeto Marilyn, uma campanha de financiamento coletivo que quer descobrir se os medicamentos, assim como os softwares, também podem seguir a filosofia open source. A iniciativa é a primeira a ser promovida pela plataforma indysci.org, uma espécie de Kickstarter idealizado por Yonemoto para concretizar projetos científicos socialmente benéficos de forma mais independente do modelo industrial-comercial. “Nós acreditamos que os produtos farmacêuticos podem ser desenvolvidos sem patentes, o que resultaria em uma assistência médica melhor e mais barata para todos”, diz o site da organização.

Àqueles que duvidam do potencial de um sistema livre de patentes para tratamentos médicos, os pesquisadores citam o caso da eficaz vacina contra a poliomielite, que foi descoberta por Albert Sabin e Jonas Salk. Em 1952, ao ser questionado sobre quem detinha os direitos da vacina, Salk respondeu categoricamente: “eu diria que o povo, não existe patente. Você poderia patentear o sol?”. Seguindo por esta mesma linha de pensamento, Yonemoto utilizará boa parte dos US$ 58 mil arrecadados para testar nos próximos seis meses se o 9DS é realmente tão eficaz quanto sua equipe acredita para tratar melanoma, câncer de rim e um tipo de câncer de mama.

Se o plano correr conforme o programado, o pesquisador estima que dentro de cinco a dez anos deva chegar ao mercado uma droga anticâncer similar às que existem hoje, que custam milhares de reais. A diferença é que, além de ser sensivelmente mais barato, o medicamento open source poderá contar com o apoio da comunidade científica durante todo o seu desenvolvimento, o que não acontece dentro das companhias farmacêuticas. “Se forem bem sucedidas, você ouve falar do que fizeram, mas o que você não escuta é sobre as falhas”, diz Yonemoto. “Mesmo quando há sucesso, frequentemente não se escuta sobre os detalhes – existe muito conhecimento perdido. Ao abraçar estratégias e filosofias mais open source, é possível evitar que as pessoas cometam o mesmo erro mais de uma vez”, explica.

O pesquisador destacou também a relativa perda do monopólio das farmacêuticas, sobretudo de dez anos para cá. Antes, a indústria controlava todo o processo de desenvolvimento das pesquisas, mas cada vez mais a biotecnologia está aderindo ao modelo das startups, financiadas por capital de risco. “Uma companhia farmacêutica compra a startup de biotecnologia e transforma suas pesquisas em novas drogas. Basicamente, está virando uma espécie de jogo de loteria para os investidores de risco, que afasta das grandes empresas toda a parte arriscada e a concentra em players menores, que acabam sendo adquiridos”, afirma.

Confira Yonemoto falando sobre seu projeto (legendas em inglês):



Fonte: Revista Galileu



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